<?xml version="1.0" encoding="utf-8" ?><Search><Pages Count="188"><Page Number="1">letras/português 1 período caderno didático iii</Page><Page Number="2"></Page><Page Number="3">uab universidade aberta do brasil ministro da educação fernando haddad secretário de educação a distância carlos eduardo bielschowsky coordenador geral da universidade aberta do brasil celso josé da costa governador do estado de minas gerais aécio neves da cunha vice-governador do estado de minas gerais antônio augusto junho anastasia secretário de estado de ciência, tecnologia e ensino superior alberto duque portugal reitor da universidade estadual de montes claros - unimontes paulo césar gonçalves de almeida vice-reitor da unimontes joão dos reis canela pró-reitora de ensino maria ivete soares de almeida coordenadora da uab/unimontes fábia magali santos vieira coordenadora adjunta da uab/unimontes ramony maria da silva reis oliveira diretor do centro de ciências humanas - cch mércio coelho antunes chefe do departamento de comunicação e letras mariléia de souza coordenadora do curso de letras/português a distância ana cristina santos peixoto</Page><Page Number="4">copyright : universidade estadual de montes claros universidade estadual de montes claros - unimontes dados internacionais de catalogação na publicação - cip . catalogação: biblioteca central professor antônio jorge. 2008 proibida a reprodução total ou parcial. os infratores serão processados na forma da lei. editora unimontes campus universitário professor darcy ribeiro s/nº - vila mauricéia - montes claros (mg) caixa postal: 126 - cep: 39041-089 reitor paulo césar gonçalves de almeida vice-reitor joão dos reis canela diretor de documentação e informações giulliano vieira mota diretor da imprensa universitária humberto veloso reis conselho editorial maria cleonice souto de freitas reivaldo canela (in memoriam) rosivaldo antônio gonçalves sílvio fernando guimarães de carvalho wanderlino arruda impressão, montagem e acabamento gráfica e editora sigma ltda. projeto gráfico e capa alcino franco de moura júnior andréia santos dias editoração andréia santos dias alcino franco de moura júnior débora tôrres corrêa lafetá de almeida diego wander pereira nobre fernando antunes gontijo marcele cristiane antunes lopes sânzio mendonça henriques wendell brito mineiro revisão alcino franco de moura júnior danielle f . souza fábia magali santos vieira ivanise melo de sousa josé frança neto karen tôrres corrêa lafetá de almeida t elma borges silva wane elayne eulálio dos anjos wanessa pereira fróes quadros ramony maria da silva reis oliveira</Page><Page Number="5">1º período introdução à leitura</Page><Page Number="6">autores joão de deus mestrando em estudos língüísticos pelo instituto de letras e lingüísticas – ileel, da universidade federal de uberlândia – ufu e graduado em letras/português pela universidade estadual de montes claros – unimontes. maria de lourdes guimarães de carvalho mestre em letras: estudos lingüísticos pela universidade federal de minas gerais - ufmg, graduada em letras pelas faculdades santo t omás de aquino de uberaba e em pedagogia pela universidade estadual de montes claros – unimontes. atualmente é professora do departamento de estágios e práticas escolares da unimontes. colaboradora ana caroline barreto neves pós-graduanda em letras: português e literatura pelo instituto signorelli de gestão educacional e graduada em letras pela universidade federal de minas gerais - ufmg. atualmente é professora das faculdade integradas pitágoras de montes claros- fipmoc.</Page><Page Number="7">sumário da disciplina apresentação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 333 unidade i: linguagem e língua. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 336 1.1 panorama sobre a ciência da linguagem . . . . . . . . . . . . . . . 336 1.2 linguagem . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 337 1.3 língua . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 338 1.4 fala . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 339 1.5 aspectos referentes à linguagem e à língua . . . . . . . . . . . . 340 1.6 referências. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 348 unidade ii: reflexões em torno da leitura . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 349 2.1 história de um conceito . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 349 2.2 história da uma prática de leitura. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 357 2.3 referências. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 359 2.4 vídeos sugeridos para debate . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 359 unidade iii: t exto e textualidade. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 362 3.1 conceito de texto . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 362 3.2 t extualidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 365 3.3 referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 384 unidade iv: o conhecimento prévio na leitura . . . . . . . . . . . . . . . . . 385 4.1 conhecimento prévio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 385 4.2 conhecimento prévio na leitura . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 386 4.3 referências. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 392 unidade v: linguagem e leitura . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 393 5.1 as possibilidades de leitura de um texto . . . . . . . . . . . . . . 393 5.2 denotação e conotação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 398 5.3 as figuras de linguagem – metáfora e metonímia . . . . . . . 401 5.4 funções da linguagem. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 405 5.5 variação linguística . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 410 5.6 referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 415 unidade vi: estratégias de leitura . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 417 6.1 pensando as estratégias de leitura . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 418 6.2 algumas estratégias de leitura . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 420 6.3 referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 429 resumo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 431 referências básica, complementar e suplementar . . . . . . . . . . . . . . . . 433 atividades de aprendizagem - aa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 439</Page><Page Number="8"></Page><Page Number="9">apresentação 333 prezado(a) acadêmico(a),  os professores conteudistas, responsáveis pela disciplina introdução à leitura, felicitam-no por ter conquistado a chance de fazer um curso superior . saiba que essa é uma oportunidade que, embora direito de todos, ainda é reservada àqueles que se esforçam e que fazem por merecer . sabemos que muitos conhecimentos referentes à disciplina já foram elaborados por você, ao longo de sua vida, entretanto, esperamos contribuir no sentido de possibilitar o contato com ferramentas linguísticas, discursivas e enunciativas, que oportunizarão a ressignificação dos seus conhecimentos e a aquisição de significados outros, num processo de metacognição (reflexão sobre o próprio saber). informamos que figura como meta do curso, proporcionar , por me i o d e s t e ma t e r i a l , n o v a s oportunidades de auto-aprendizagem, para a apropriação de conhecimentos e de culturas necessárias à inserção e ao trânsito social, o que certamente fará diferença em seu processo de profissionalização. sendo assim, seja bem vindo à disciplina introdução à leitura. t udo foi cuidadosamente planejado, para que você tire o máximo de proveito e se torne um leitor eficiente, preparando-se também para fazer com que seus alunos o sejam. informações sobre a disciplina introdução à leitura será ministrada no curso de letras-português com uma carga horária de 90 horas. é uma disciplina relevante para a formação acadêmica bem como para a vida cotidiana, pois vivemos em um mundo imerso em códigos, em signos, em sentidos e em significados que precisam ser analisados, para que possam revelar as mensagens por eles veiculadas. os conteúdos de introdução à leitura são assim considerados essenciais à vida em sociedade. fonte: http://acertodecontas.blog.br figura 1</Page><Page Number="10">334 apresentação uab/unimontes é uma disciplina que está estreitamente vinculada com todas as disciplinas do curso, em especial com as demais disciplinas do período e em particular com introdução à escrita, tendo em vista que o aprendizado de uma implica, necessariamente, o desenvolvimento da aprendizagem da outra. a formação de leitores ativos, criativos e, sobretudo, críticos emerge como prioridade e como um grande desafio do curso. por constituir-se em relevante instrumento no processo de produção do conhecimento e por possibilitar o contato do leitor com diferentes formas de vivenciar e de compreender o mundo, a leitura deverá aqui ser compreendida em seu sentido lato, e, sobretudo, em seu caráter plural e dialógico. ementa: linguagem, língua e fala. a linguagem como ciência. linguagem verbal e não verbal. leitura como processo histórico e produtivo.t exto e textualidade: fatores de textualidade. o conhecimento prévio na leitura. as possibilidades de leitura de um texto: aspectos determinantes. estratégias de leitura. geral: ? desenvolver habilidades e competências de leitura necessárias à constituição de sujeitos de discurso capazes de se posicionarem do ponto de vista filosófico, político, social, cultural, ético e estético, frente aos discursos que circulam na sociedade. ? proporcionar o processo de ensino-aprendizagem referente aos elementos linguísticos, discursivos e enunciativos que compõem a estruturação de diferentes gêneros e tipos textuais, tomando como ponto de partida a teoria da leitura como perspectiva de abordagem. específicos: ? reconhecer os diversos registros verbais ou não-verbais presentes na materialização do propósito do autor nos diferentes tipos e gêneros t extuais. ? operar com proficiência no processo de predição textual. ? compreender que no processo de leitura é importante priorizar o sentido em detrimento da forma para perceber o jogo de poder que se manifesta na linguagem e pela linguagem. ? entender os mecanismos de produção de sentidos no processo de leitura de diferentes tipos e gêneros textuais. ? aprimorar a capacidade de leitura de diferentes textos e de diferentes suportes de materialização da linguagem. ? compreender a língua como fenômeno cultural, histórico, objetivos</Page><Page Number="11">335 letras/português caderno didático - 1º período social, variável em registro, heterogêneo e sensível aos contextos de uso, posicionando-se criticamente contra preconceitos linguísticos. para o alcance desses objetivos a disciplina introdução à leitura está organizada em cinco unidades: unidade i - linguagem e língua unidade ii - reflexões em torno da leitura unidade iii - t exto e textualidade unidade iv - o conhecimento prévio na leitura unidade v - linguagem e leitura unidade vi - estratégias de leitura cada uma das unidades está organizada de forma a facilitar os seus estudos. inicialmente apresentamos o nome da unidade, seguido de uma epígrafe, na forma de texto ou gravura. leia com atenção essa epígrafe e veja que ela faz referência implícita ou explicitamente ao conteúdo da unidade. a seguir , uma apresentação da unidade com especial ênfase para seus objetivos. atente-se a esses objetivos e desenvolva os estudos com vistas a alcançá-los. na seqüência, segue-se o desenvolvimento do conteúdo, subdividido em tópicos, de forma ilustrada, em linguagem clara e acessível. alguns termos que possam dificultar a sua compreensão estão explicitados ao lado do texto na forma de glossário. você pode também recorrer a um dicionário caso seja necessário. paralelamente, foram inseridas atividades a serem realizadas antes ou após a discussão do conteúdo. algumas delas estão no próprio caderno, outras pressupõem pesquisa no ambiente virtual e/ou encontro com os colegas. elas podem ser feitas individualmente ou em grupos e há algumas para as quais sugerimos inclusive o envolvimento de seus familiares. o importante é que você não deixe de fazê-las, pois elas ora funcionam como levantamento do seu conhecimento prévio, ora como auto-avaliação para confirmação do seu entendimento e consequente alcance dos objetivos.  as sugestões e dicas para estudos e para pesquisas complementares estão localizadas junto aos textos. elas são oportunidades para você se tornar um aprendiz autônomo, qualidade que hoje se faz cada vez mais necessária em todas as áreas. ao final da disciplina você encontrará um breve resumo com os pontos principais abordados e as referências bibliográficas. lembre-se de que a realização das atividades avaliativas é obrigatória. sucesso.</Page><Page Number="12">apresentação da unidade com a finalidade de que você entenda a importância de conhecer como se estruturam, se organizam e funcionam os aspectos que se referem à linguagem, propomos a você um vôo transverso a esse mundo que nos fascina e nos seduz, pois linguagem e aspectos da vida dialogam, produzindo espaços que solicitam reflexões especiais. em suma, a nossa perspectiva é de compartilhar a ótica do poder da linguagem e do conhecimento sobre ela. para tal, necessário se faz estabelecer o estatuto que o termo linguagem adquiriu com saussure a partir da distinção entre língua e linguagem.  cumpre ressaltar que será necessário traçar um breve panorama das diversas perspectivas que constituem e que organizam a ciência da linguagem, percebendo o valor histórico que cada perspectiva possui. após conceber a apresentação das formas de construção de um conhecimento sobre a linguagem que emergiram ao longo do século dezenove e que permitiram o surgimento da linguística moderna, cabe, depois, focalizar a distinção entre linguagem e língua. objetivos: ? compreender que a linguagem e a língua são constitutivas de nossa identidade como seres humanos e como seres socioculturais; ? explicitar o lugar da língua e da linguagem na vida humana; ? compreender o sentido do ensino de língua portuguesa; e ? compreender o motivo pelo qual a linguagem se inscreve como sistema mediador de todos os discursos. 1.1 panorama sobre a ciência da linguagem a preocupação com os fenômenos da linguagem data de um período de mais de dois mil anos de pesquisas relacionadas à reflexão do comportamento lingüístico de importantes civilizações antigas. recorrendo-se ao século v a. c, na antiguidade grega, percebemos que os anseios socioculturais dessa civilização constituíam fator determinante que 1 unidade 1 linguagem e língua e a b g glossário f c lógica: conjunto de estudos tendentes a expressar em linguagens matemáticas as estruturas e operações do pensamento.  epistemologia: conjunto de conhecimentos que tem por objeto o conhecimento científico, visando a explicar os seus condicionamentos (sejam eles técnicos, históricos ou sociais, sejam lógicos, matemáticos ou lingüísticos), sistematizar as suas relações, esclarecer os seus vínculos e avaliar os seus resultados e aplicações. metafísica: parte da filosofia que estuda o ser como ser . gosto de sentir a minha língua roçar a língua de luís de camões gosto de ser e de estar e quero me dedicar a criar confusões de prosódias e uma profusão de paródias que encurtem dores e furtem cores como camaleões. (caetano veloso) 336</Page><Page Number="13">337 letras/português caderno didático - 1º período moldava o estudo da língua com finalidades práticas. os helenos justificaram e fundamentaram as categorias gramaticais a partir das categorias da lógica, da epistemologia e da metafísica, cujo objetivo era demonstrar que a estrutura da língua é um produto da razão (...) (lyons, 1979, p. 17-18). para os gregos, a linguagem era uma ferramenta para entender a realidade; por isso eles definiram as partes do discurso em uma perspectiva universal e necessária. segundo evaldo heckler e sebad back (1988, p. 62), os estudos linguísticos dos gregos limitaram-se ao aspecto lógico e filosófico da linguagem. t ais estudos não permearam o campo de outras línguas, visto que, até aquele momento, não existia uma perspectiva contrastiva de outras línguas com a língua grega. o que existia era um cotejo da linguagem com o pensamento visando à decifração da realidade. nessa perspectiva, os estudos linguísticos pré-saussurianos eram realizados sob uma ótica das inter-relações metafísico-enigmáticas, pois esses estudos estabeleciam fundamental relação com a realidade, a verdade e o pensamento. cabe destacar que, nesse período, ainda não havia uma distinção clara nem sistemática dos termos “linguagem”, “semiologia”, e “língua”. saussure postulou a distinção entre o que seria objeto de estudo da semiologia (estudo das linguagens) e o que seria objeto da linguística (estudo da língua). portanto, a linguística seria um aspecto da semiologia. 1.2 linguagem o termo linguagem deve ser entendido como a faculdade mental que distingue os humanos de outras espécies animais e possibilita os modos específicos de pensamento, conhecimento e interação com os semelhantes. é, portanto, uma capacidade específica da espécie humana e o que lhe faculta comunicar por meio de um sistema de signos (ou língua). na perspectiva discursiva, a linguagem não é vista apenas como instrumento de comunicação, de transmissão de informação ou como suporte do pensamento; linguagem é interação, um modo de ação social. nesse sentido, é lugar de conflito, de confronto ideológico em que a significação se apresenta em toda a sua complexidade. estudar a linguagem é abarcá-la nessa complexidade, é apreender o seu funcionamento que envolve não só mecanismos linguísticos, mas também “extralinguísticos”. (brandão, 2004, p. 108-109). vanoye (1982) afirma: a linguagem, segundo definição de émile banveniste, é um sistema de signos socializado. ”socializado” remete claramente à função de comunicação da linguagem. a expressão “sistema de signos” é empregada para definir a dicas os estudos que foram realizados até o século xix são denominados de estudos pré-saussurianos, sendo-os destacados em três fases: filosófica, filológica e histórico-comparatista. para outras informações pertinentes a essa breve problematização, acesse o sítio eletrônico www.cienciaeconhecimento .com/pdf/vol001_leta1 e, depois, faça uma tabela em que constem as contribuições de cada fase para os estudos da linguagem. em seguida, compare suas impressões teóricas com a do colega.</Page><Page Number="14">linguagem como um conjunto cujos elementos se determinam em suas inter-relações, ou seja, um conjunto no qual nada significa por si, mas tudo significa em função de outros elementos. em outras palavras, o sentido de um termo, bem como o de um enunciado, é função do contexto em que ele ocorre. 1.3 língua nessa perspectiva, língua é, então, entendida como forma de realização da linguagem; como sistema linguístico necessário ao seu exercício na interlocução ou como instrumento do qual a linguagem se utiliza na comunicação. de acordo com vanoye (1982), “as línguas são casos particulares de um fenômeno geral, a linguagem...”. cada língua merece um estudo particular sobre suas especificidades tais como estruturação fônica, sintática, entre outras. na definição de saussure (linguista genebrino), língua é a parte social da linguagem que, em forma de sistema, engloba todas as possibilidades de sons existentes em uma comunidade. partindo desse princípio, a língua se caracteriza como ato exterior ao indivíduo. de acordo com os linguistas, a língua evolui de geração em geração. apesar de ser um sistema de signos específicos aos membros de uma mesma comunidade (por exemplo: língua portuguesa, língua inglesa), no interior de uma mesma língua ocorrem variações. foi possível constatar que a língua é um sistema de símbolos pelo qual a linguagem se realiza. mas a linguagem se encontra relacionada a outros sistemas simbólicos (sinais marítimos, morse) e torna-se, assim, objeto da semiologia ou semiótica, que deve estudar “a vida dos signos no seio da vida social”. vemos, portanto, que o termo linguagem tem uma conotação bem mais abrangente do que língua. o exemplo abaixo ilustra casos particulares de duas línguas distintas, a saber , português e inglês: 338 introdução à leitura uab/unimontes semiótica: o primeiro pensamento que temos é “seria uma quase-ótica?”, “uma ótica pela metade?”. não, não é. para lúcia santaella, semiótica "é a ciência que tem por objeto de investigação todas as linguagens possíveis" (1983:15). sua principal utilidade é possibilitar a descrição e análise da dimensão representativa (estruturação sígnica) de objetos, processos ou fenômenos em categorias ou classes organizadas. o objeto de análise da teoria semiótica pode ser uma imagem, um ritual ou uma música. o que implica dizer que há uma forte diferença com os objetos do campo da lingüística, pois ela se preocupa com os aspectos formais de uma determinada língua. e a b g glossário f c</Page><Page Number="15">339 dentro de uma mesma língua temos diversas modalidades: língua familiar; língua técnica, língua erudita, língua popular , língua própria a certas classes sociais, a certos subgrupos, em que se enquadram os diferentes tipos de gíria etc. entre as variações geográficas temos os dialetos (como as variações específicas das diversas regiões do brasil: nordeste, sul, o dialeto caipira, o “carioquês”, paulista etc.). dialetos (como as variações específicas das diversas regiões do brasil: nordeste, sul, o dialeto caipira, o “carioquês”, paulista etc.). a fala, por sua vez, é um fenômeno físico e concreto que pode ser analisado seja diretamente, com ajuda dos órgãos sensoriais, seja graças a métodos e instrumentos análogos aos utilizados pelas ciências físicas. em nós, ouvintes, a fala é, com efeito, um fenômeno fonético; a articulação da 1.4 fala fonte: pankas_abelhinha.blogs.sapo.pt figura 3 figura 2 letras/português caderno didático - 1º período</Page><Page Number="16">11 voz dá origem a um segmento fonético audível, imediatamente, a título de pura sensação. esse fenômeno implica o aparelho fonador e a produção dos sons da fala. o importante é entender que o mundo da linguagem nos proporciona relevantes mecanismos de percepção da realidade, seja por meio das cores, das gravuras, dos sons e das palavras (em forma de frase, de texto, de discurso) e que a todo o momento, somos tocados de alguma forma, por meio dessas modalidades, para estabelecermos sentidos às diferentes mensagens que chegam até nós. e, para que haja a construção de sentidos da parte do receptor (de quem recebe a mensagem), é preciso dispor de algumas competências e habilidades linguístico-discursivas como forma de “apropriar” da mensagem alheia. 1.5 aspectos relativos à linguagem e à língua saussure, no século xix, postulou a idéia da “língua como sistema autônomo”, em que a língua passou a ser vista como um sistema de estrutura de caráter formal, a langue, conforme descobertas formais dos comparatistas (“gramática histórico-comparativa”). assim, saussure estabeleceu que enquanto a linguística é o estudo científico da linguagem humana, a semiologia preocupa-se não apenas com a linguagem humana e verbal, mas também com a dos animais e de todo e qualquer sistema de comunicação, seja ele natural e convencional. 1.5.1 linguagem verbal e não verbal quando no processo comunicacional o homem utiliza-se da palavra, seja por meio da linguagem oral ou escrita, dizemos que ele está utilizando uma linguagem verbal, pois o código usado é a palavra. pode-se dizer que a linguagem verbal é a forma de comunicação mais presente em nosso cotidiano. mediante a palavra, falada ou escrita, expomos aos outros as nossas idéias e pensamentos, comunicando-nos por meio desse código imprescindível em nossas vidas. esse código se faz presente quando falamos com alguém, quando lemos, quando escrevemos e em diversas outras formas de comunicação.  observe, por exemplo, o “soneto de fidelidade” de vinícius de morais como um soberbo exemplo de linguagem verbal, através de palavras. t exto: é uma rede de determinações. é manifestadamente uma totalidade onde cada elemento mantém com os outros relações de interdependências. estes elementos e grupos de elementos seguem-se em ordem coerente e consistente, cada segmento textual contribuindo para a inteligibilidade daquele que segue. este último, por sua vez, depois, vem esclarecer retrospectivamente o precedente. (weinrich, citado por indursky , 2006, p. 45) discurso: é o efeito de sentido entre interlocutores socialmente constituídos. (pêcheux, citado por indursky , 2006, p. 70) e a b g glossário f c e a b g glossário f c frase: é uma unidade lingüística abstrata, puramente teórica, um conjunto de palavras combinadas segundo as regras da sintaxe, conjunto este tomado fora de qualquer situação de discurso; o que produz um locutor . (ducrot , citado por indursky , 2006, p. 53) e a b g glossário f c soneto de fidelidade de tudo, ao meu amor serei atento antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto que mesmo em face do maior encanto dele se encante mais meu pensamento 340 introdução à leitura uab/unimontes</Page><Page Number="17">é fácil percebermos que a linguagem verbal está presente em nosso dia-a-dia, nas mais variadas formas: propagandas; reportagens, jornais, revistas, obras literárias e científicas na comunicação interpessoal; nos discursos etc.). agora, analise as imagens: a comunicação pode-se ainda se dar por meio da linguagem mista. é o uso simultâneo da linguagem verbal e da linguagem não-verbal, usando palavras escritas e figuras ao mesmo tempo. observe, por exemplo a ilustração: como você percebeu, todas as imagens podem ser facilmente decodificadas. você notou que em nenhuma delas existe a presença da palavra? o que está presente é outro tipo de código. apesar de haver ausência da palavra, nós temos uma linguagem, pois podemos decifrar as mensagens a partir das imagens. dessa forma, podemos afirmar que o tipo de linguagem, cujo código não é a palavra, denomina-se linguagem não-verbal. nesse caso, são usados outros códigos como por exemplo: o desenho, a dança, os sons, os gestos, a expressão fisionômica, as cores etc. 341 letras/português caderno didático - 1º período e a b g glossário f c poeta brasileiro: contribuiu com seus versos para dar um sentido elevado e criativo à música popular brasileira. conheça mais sobre a vida e a obra de vinícius no site http://www.releituras.com/vi niciusm_bio.asp atividades reflita e responda 1-com quem você já se comunicou hoje? 2-qual foi a linguagem que você utilizou para estabelecer essa comunicação? você concorda que o caderno de introdução à leitura ilustra uma forma de linguagem verbal? figura 4 11 quero vivê-lo em cada vão momento e em seu louvor hei de espalhar meu canto e rir meu riso e derramar meu pranto ao seu pesar ou seu contentamento e assim quando mais tarde me procure quem sabe a morte, angústia de quem vive quem sabe a solidão, fim de quem ama eu possa lhe dizer do amor (que tive): que não seja imortal, posto que é chama mas que seja infinito enquanto dure vinícius de moraes http://www.viniciusdemoraes.com.br /poesia/sec_poesia_view.php?</Page><Page Number="18">342 introdução à leitura uab/unimontes e a b g glossário f c abaporu: palavra criada por t arsila, significa “homem antropófago”, em tupi-guarani (aba : homem; puru : que come carne humana). com essa célebre tela, t arsila do amaral deu impulso ao movimento antropofágico e propiciou o momento mais criativo e original do modernismo brasileiro no âmbito das artes plásticas. além de apresentar alguns traços surrealistas e evidenciar a preocupação de t arsila com a estilização do desenho, a obra traz fortes características brasileiras, como as cores da bandeira nacional (verde, amarelo e azul). o pé grande da figura representa a intensa ligação do homem com a terra. em períodos subseqüentes do seu curso você certamente estudará a famosa pintora t arsila do amaral. se ficar com muita curiosidade, faça um passei pela obra da autora no site oficial t arsila do amaral (www.tarsiladoamaral.com. br) para refletir atividades o que você pode inferir , sabendo-se que é uma obra do modernismo brasileiro? assim, é necessário observar que os textos com os quais nos deparamos nas nossas atividades de leitura nem sempre estão codificados apenas na linguagem verbal. é importante, então, sabermos ler a linguagem de um modo geral, seja verbal ou não-verbal. o quadro “abaporu”, pintura de t arsila do amaral é um exemplo de linguagem não-verbal dentro da pintura. o quadro tem muito a dizer , entretanto, nada está escrito em palavras. agora que você já sabe a distinção dos d i f e r e n t e s c amp o s disciplinares que lidam com a linguagem verbal e com a linguagem não-verbal, e estabelecida a diferença entre elas, é possível afirmar que o movimento estratégico ent r e a forma e o significado, a adoção dos artifícios da língua e das diferentes linguagens, auxiliam a idéia de que: para diferentes modos de materialização dos sentidos devemos lançar mão de diferentes competências/habilidades no ato de compreender e de ler . figura 6 fonte: http://visaouniversitaria.files.wordpress.com figura 5 fonte: http://museuvirtualsemanaartemoderna.arteblog.com.br/9586/abaporu-</Page><Page Number="19">assim é que, ao ler uma bula de remédio, ao escrever uma carta, ao ler uma charge ou uma história em quadrinhos temos de nos valer de habilidades comunicativas específicas, requeridas pelos diferentes gêneros textuais. segundo marchuschi (2002, p. 22), os termos tipo textual e gênero textual diferenciam-se uma vez que este pauta-se, basicamente, na utilidade da língua como instrumento comunicativo, ou seja, a língua é um veículo de representações, concepções, valores socioculturais e de instrumento de intervenção social; já aquele leva em consideração a língua, numa perspectiva formal e estrutural – de natureza linguística. observe, abaixo no quadro i, a breve definição, por meio de um paralelo, estabelecido pelo autor: assim, se da parte do autor há uma mobilização na língua, a fim de veicular seu propósito, podemos destacar que da parte do leitor há a necessidade também da mobilização não só de conhecimentos do código linguístico, mas também conhecimentos referentes à experiência do evento comunicativo que ele insere. nessa perspectiva, o texto é abordado como lugar de interação, em que dialogicamente autor/leitor , via texto, se constituem. leia a tirinha e responda: 343 letras/português caderno didático - 1º período  tipos textuais  gêneros t extuais  1 construtos teóricos definidos por propriedades linguísticas intrínsecas.  realizações linguísticas concretas definidas por propriedades sócio-comunicativas. 2  constituem sequências lingüísticas ou seqüências de enunciados e não são textos empíricos.  constituem textos empiricamente realizados cumprindo funções em situações comunicativas.  3  sua nomeação abrange um conjunto limitado de categorias teóricas determinadas por aspectos lexicais, sintáticos, relações lógicas, tempo verbais.  sua nomeação abrange um conjunto aberto e praticamente ilimitado de designações concretas determinadas pelo canal, estilo, conteúdo, composições e função. 4 designações teóricas dos tipos: narração, argumentação, descrição, injunção e exposição. exemplos de gêneros: telefonema, sermão, carta comercial, carta pessoal, romance, bilhete, aula expositiva, bula de remédio, bate-papo virtual, resenha, piada, etc. quadro 1: relação entre tipo e gênero textual. atividades vá ao ambiente de aprendizagem, acesse o fórum de discussão que estabelece a problematização referente à diferença entre tipo de texto e gêneros t extuais. escreva sua percepção acerca do assunto, tomando como ponto de referência os encaminhamentos teóricos dados aqui. faça um quadro comparativo, em que conste o paralelo entre as especificidades sobre os tipos textuais e os gêneros textuais. (moura, franscisco, faraco, carlos. linguagem nova. são paulo:ática,p.78,2004.) figura 7</Page><Page Number="20">344 introdução à leitura uab/unimontes atividades redija um parágrafo, em que haja o estabelecimento da temática abordada na tirinha. para chegar à sua compreensão de quais aspectos da tirinha você teve de levar em consideração para construir seu sentido? a linguagem verbal e a linguagem não-verbal requerem o mesmo tratamento de análise? ? que aspectos verbais o autor utilizou? ? quais aspectos não-verbais explicitam os fatos? você deve ter percebido que, a fim de compreender o propósito do autor desse gênero textual, recorremos aos aspectos verbais, pois há um código linguístico escrito: a notícia do telejornal sobre sequestros à luz do dia. recorremos também a aspectos não-verbais como a placa de identificação, a vitrine com vários aparelhos de televisão empilhados, o que nos leva a perceber que o grupo de telespectadores está em frente a uma loja. outro elemento importante, que auxilia na compreensão global do sentido, é a fisionomia dos dois grupos: os sequestradores e os telespectadores. estes estão preocupados, apreensivos com o sequestro que está sendo veiculado pela mídia, enquanto os sequestradores agem despreocupadamente. na verdade, toda essa leitura realizada foi possível, pois faz parte dos conhecimentos prévios do leitor: como é uma loja, como são as pessoas agressivas, apreensivas e até mesmo como é realizado um sequestro. fica claro que o plano composicional de determinados gêneros textuais exige a habilidade de identificação de conteúdos não-verbais.  agora leia a placa: ? o que ela informa a você? neste gênero textual, placa, notamos a expressividade de percepção possibilitada pela linguagem não-verbal. de imediato, notamos que é uma placa, tendo em vista o formato das dimensões espaciais, os serviços prestados pelo posto, elencados por meio dos símbolos. aqui também você percebe o uso relevante da linguagem não-verbal e nota que a relação entre a linguagem verbal e não-verbal não é de transposição de um código para o outro. pode-se dizer que a linguagem não-verbal não é um decalque da linguagem verbal, pois, tendo em vista as especificidades de cada código, notamos um “bloqueio” na relação de transparência entre eles.   dicas estudiosos afirmam que cerca de dois terços da comunicação humana é não verbal. t ransmitida por meio de gestos de mão, expressões faciais ou outras formas de linguagem. sobre esse assunto leia alves, clair . a arte de falar bem. rio de janeiro: vozes, 2005. figura 8 fonte: www.logofix.com.br/placas.htm</Page><Page Number="21">345 letras/português caderno didático - 1º período folheie jornais, revistas, livros didáticos, etc. e observe a recorrente presença de charges e /ou tirinhas. responda; você concorda que esses gêneros devem ser explorados na sala de aula para que nossos alunos aprendam a lê-los. além do sentido humorístico, o que mais esses textos informam? atividades levando em conta o marco teórico postulado por t ravaglia (1996, p. 110) de que: “[...] o que o indivíduo faz ao usar a língua não é tão somente traduzir e exteriorizar um pensamento, ou transmitir informações a outrem, mas sim realizar ações, agir , atuar sobre o interlocutor (ouvinte/leitor)”, ressaltamos que a língua figura como um lugar de interação humana através da produção de efeitos de sentido entre interlocutores, em uma dada situação de comunicação, sendo pertinente a um contexto sócio-histórico e ideológico. nesse sentido, dominar com proficiência os aspectos da língua (tomados aqui como o código linguístico) e, sobretudo, aplicá-los com destreza textual aos momentos de construção de sentido é fator determinante para o pleno êxito da comunicação.  o gênero textual charge vem sendo bastante explorado pelos meios de comunicação virtual e pela imprensa escrita, e, claro está, que a aceitação do público parece ser a principal causa da charge estar se evidenciando em diversas formas de suporte. a consequência natural é que o estudo desse tipo de gênero textual tem requerido uma maior dedicação no cenário dos estudos da linguagem. para o leitor assíduo desse gênero é relativamente fácil perceber o uso recorrente da produtividade semântica fomentada pelos aspectos formais e funcionais do texto que têm como objetivo o desejo de garantir o(s) efeito(s) de sentido pretendido(s) . como neste exemplo: na leitura dessa charge e tomando como ponto de partida o nível linguístico, entendemos o enunciado “os zeróis”, quando levamos em conta que: ? h á u m t r ocad i l ho ent r e as e s t r u t u r a s s ê m i o -nar rat i vas “zer o” e “heróis”. ? a s  personagens da charge representam uma família tipicamente brasileira que não possui trabalho, o que implica o fato de que, provavelmente, eles não possuem recursos p a r a ma n t e r uma figura 9 fonte: notas de aula da disciplina língua portuguesa semântica. 22/5/2007</Page><Page Number="22">346 introdução à leitura uab/unimontes e a b g glossário f c sobredita: dita acima. dicas visite o site: http://www.ziraldo.com/con versa/home.htm e conheça mais sobre a vida e a obra desse notável mineiro. alimentação de forma digna e saudável, três vezes ao dia, sem precisar de ajuda externa. ? o governo federal criou o ministério extraordinário de segurança alimentar – mesa, agora incorporado ao ministério do desenvolvimento social e combate à fome para gerenciar o programa fome zero, em 2004. ? o logotipo do superman, marca registrada de uma personagem das histórias em quadrinhos, figura como uma intertextualidade explícita. ? o autor da charge é ziraldo. criador de personagens famosos, como o menino maluquinho. t al chargista é, atualmente, um dos mais conhecidos e aclamados escritores infantis do brasil. assim, a compreensão da charge sobredita ocorre de modo satisfatório, quando o leitor ativa esses conhecimentos na sua interação com o texto. como vemos novamente, se, do lado do autor , foi mobilizado um conjunto de conhecimentos para a produção do texto, espera-se, da parte do leitor , que considere esses conhecimentos (de língua, de gênero textual e de mundo) no processo de leitura e de construção de sentido. podemos dizer que os conhecimentos selecionados pelo autor na e para a constituição do texto “criam” um leitor-modelo. segundo neidson rodrigues (1993), não há apreensão e/ou explicação da realidade quando se dispõe de um instrumento simbólico precário. a língua é instrumento de compreensão e, como tal, de domínio da realidade. não há como falar da realidade, seja ela histórica, geográfica, política ou cultural sem que o falante domine este instrumental de conhecimento, interpretação e compreensão do mundo que é a língua. vejamos o que nos ensinam descartes. para ele, o homem se diferencia do animal e das máquinas exatamente pela sua capacidade de linguagem. o homem se torna animal social e, portanto, político, pela linguagem e por meio da linguagem. a capacidade de articulação do discurso possibilita ao homem o domínio da realidade e a recriação dessa mesma realidade. através da linguagem, o homem entra em contato com o mundo, pois a consciência deste é gerada pela linguagem (descartes, 1996). comumente, deparamos com textos sem nenhum encadeamento lógico, com idéias tautológicas (repetidas), sem pertinência semântica e com inúmeros outros problemas que interferem no entendimento do pensamento do emissor . como exemplo citamos o texto de um vestibulando da ufmg, extraído do livro “redação e t extualidade” (1994), de maria da graça costa val. leia-o observando a falta de manutenção temática e a desarticulação semântica que o caracterizam:</Page><Page Number="23">a partir da leitura do texto em questão, é possível inferir que ele apresenta inúmeros problemas gramaticais, a saber: ? o título e a primeira frase lançam uma idéia que não foi mais retomada explicitamente na redação; ? não é imediata a compreensão de que o desemprego [...], a educação e a falta de carinho sejam responsáveis, respectivamente, pela criminalidade e pela revolta e agressividade das pessoas correspondente à demonstração de que o homem é fruto do meio; ? não há continuidade coesiva (de relação entre as partes do texto), visto que a expressão tanta violência remete a um antecedente que não está expresso no texto; ? a partir das passagens do texto: “... desemprego é a principal causa de tanta violência” e “... mais emprego implica menos violência...”, percebemos que ambas as passagens dizem a mesma coisa; ? problemas referentes à argumentação e à imprevisibilidade; sendo assim, o texto torna-se ininteligível, já que não podemos, a partir dele, entender qual é a idéia do autor . t endo em vista os aspectos materiais que auxiliam a compreensão do gênero textual tirinha e placa, tais como o tamanho das letras, as tonalidades das cores, e os aspectos linguísticos que auxiliam na construção de uma redação, você percebeu que a interação autor-texto-347 letras/português caderno didático - 1º período o homem como fruto do meio o homem é produto do meio social em que vive. somos todos iguais e não nascemos com o destino traçado para fazer o bem e o mau. o desemprego pode ser considerado a principal causa de tanta violência. a falta de condições do indivíduo em alimentar a si próprio e sua família. portanto é coerente dizer , mais emprego, menos criminalidade. um emprego com salários, que no mínimo suprisse o que é considerado de primeira necessidade, porque os subempregos, esses, não resolvem o problema. t rabalho não seria a solução, mas teria que ser a primeira providência a ser tomada. existem vários outros fatores que influenciam no problema como, por exemplo, a educação, a falta de carinho, essas crianças simplesmente nascem, como que por acaso, e são jogadas no mundo, tornando-se assim pessoas revoltadas e agressivas. a solução é alongo prazo, é cuidando das crianças, mostrando a elas a escala de valores que deve ser seguida. e isso vai depender de uma conscientização de todos nós.</Page><Page Number="24">leitor pressupõe, na produção de sentidos, a importância da consideração das “sinalizações” textuais que apontam para os aspectos relativos à linguagem (toda e qualquer linguagem) e os aspectos relativos à língua (fatores linguísticos que compõem a materialidade linguística).    a justificativa para se dominar tais aspectos se prende ao fato de considerar importante, ao produzir uma mensagem escrita e/ou falada, o entendimento acerca de como agir em situações particulares e de como realizar tarefa específicas determinadas socioculturalemente. a compreensão textual, na atividade de leitura, toma várias trajetórias, que são orientadas pelo conjunto de microestruturas, constituído dos elementos da superfície textual, e pelo conjunto de macroestruturas – conteúdo global, que subjaz à superfície do texto, os quais configuram o percurso gerativo de sentido de determinado texto. o gênero textual carta com o avanço das tecnologias de comunicação passou a ser substituído pelo e-mail. sabemos que o suporte em que são materializados ambos os gêneros são diferentes. t ente apontar as propriedades sócio-comunicativas exigidas por eles. no que se refere às linguagens utilizadas em ambos, o que há de semelhança e de diferença?  atividades referências alves, clair . a arte de falar bem. rio de janeiro: vozes, 2005. costa val, maria da graça. redação e textualidade. são paulo: martins fontes, 1994. descartes, rené. discurso do método. são paulo: nova cultural, 1996. heckler, evaldo, back, sebad. curso de lingüística. são paulo: parábola editorial, 2002.  indurski, freda. reflexões sobre a linguagem: de bakhtin à análise do discurso. línguas einstrumentos lingüísticos, n. 4/5, p. 69-88. campinas: pontes, 2000 lyons, john. introdução à lingüística t eórica. são paulo: editora nacional, 1979. marcushi, luiz antônio. gêneros t extuais: definição e funcionalidade. in: dionísio, ângela paiva et al. (org.). gêneros textuais e ensino. rio de janeiro: lucena, 2002. rodrigues, neidson. por uma nova escola: o transitório e o permanente na educação. são paulo: cortez, 1993. travaglia, luiz carlos. ensino de gramática numa perspectiva textual interativa. in: o ensino de língua portuguesa para o 2º grau. uberlândia: edufu, 1996a. (projeto vitae – seemg – ufu).  travaglia, l. c. gramática e interação. são paulo: cortez, 1996. vanoye, francis. usos da linguagem: problemas e técnicas de produção oral e escrita. são paulo: martins fontes, 1982. http://www.releituras.com/viniciusm_bio.asp, consultado em out/2008. http://www.viniciusdemoraes.com.br/poesia/sec_poesia_view.php?, consultado em out/2008. www.tarsiladoamaral.com.br , consultado em out/2008. http://www.ziraldo.com/conversa/home.htm, consultado em out/2008. 348 introdução à leitura uab/unimontes</Page><Page Number="25">2 unidade 2 reflexões em torno da leitura a leitura de um bom livro é um diálogo incessante: o livro fala e a alma responde. andré maurois agora que já conversamos sobre os conceitos de linguagem e língua, podemos avançar um pouco mais nos estudos de introdução à leitura e refletirmos, juntos, sobre as questões que circundam a prática da leitura. apresentação da unidade a unidade ii foi organizada de modo a permitir que você faça uma reflexão sobre a leitura fazendo um “passeio” por sua história e por sua prática e, ao mesmo tempo, conhecendo aspectos altamente relevantes para se tornar um leitor eficiente. objetivos: ? refletir sobre a história do conceito de leitura e de sua prática. ? desenvolver habilidades de percepção, observação, análise, comparação e síntese de mecanismos estruturais na organização das idéias que articulam o textual. ? entender os mecanismos de produção de sentidos no processo de leitura de diferentes tipos e gêneros textuais. 2.1 pensando a leitura pe n s a r a l e i t u r a pressupõe retomar a história do seu conceito e refletir sobre a sua prática. paulino et al (2001) aborda a história do conceito de leitura afirmando: “numa p r i me i r a i n s t â n c i a , l e r significava contar , enumerar as l e t r a s ; n uma s e g u n d a , significava colher e, por último, roubar”. é possível retratar essa afirmação no quadro que se segue: fonte: http://cache01.stormap.sapo.pt/fotostore01/fotos//ae/ 49/23/40619_0000zgqh.jpg figura 10 para refletir qual o seu conceito de leitura? qual o espaço da leitura em sua vida? e o espaço da leitura na vida do sujeito leitor na ilustração? reflita sobre o seu posicionamento de leitor . responda: em qual das instâncias você já se posiciona como leitor? se você respondeu que na maioria das leituras que você faz, você rouba o sentido, torna-se co-autor do texto, você já está em um estágio bem avançado. 349</Page><Page Number="26">l e r contar , enumerar as letras soletração.  repetição de fonemas, agrupamento de fonemas em sílabas, palavras e frases  ato primeiro da leitura  estágio da alfabetização  colher (verbo) o leitor apenas apodera-se do que já está pronto.  o sentido é determinado pelo autor .  autor é o dono absoluto do texto.  interpretação.   localização do tema,  da mensagem.  roubar (verbo)  acrescentamento de sentidos a partir de sinais presentes nos textos.  o leitor é um co-autor .  relativização dos poderes do autor .  compreensão   co-autoria    sobre a instância de leitura denominada roubar , paulino et al (2001) afirma: observe o exemplo a seguir: reflita sobre a citação de de certeau: bem longe de serem escritores, fundadores de um lugar  “não se rouba algo com conhecimento e autorização do proprietário, logo essa leitura do texto vai se construir à revelia do autor , ou melhor , vai acrescentar ao texto outros sentidos , a partir de sinas que nele estão presentes, mesmo que o autor não tivesse consciência disso”. numa classe de alfabetização, a frase “eu gosto de marmelada fresquinha”, poderia ser soletrada e copiada pelas crianças, apenas para desenvolver a oralidade e a escrita, num processo de decodificação. ficaria no ato primeiro da leitura no estágio da alfabetização. ela pode, contudo, ser lida em seu sentido literal e significar que gosto do doce de marmelo (fruta) recém feito. interpretação. leitura colheita, para localização do tema, da mensagem, de acordo com o autor . entretanto, sabendo-se que a palavra marmelada pode conotar “negócio desonesto”, “mamata”, fora de um contexto maior a frase pode ser lida com a compreensão de que sou partidário de negócios desonestos. ocorre a co-parceria, autor/leitor e surge um novo sentido. quadro 2 350 introdução à leitura uab/unimontes</Page><Page Number="27">próprio, herdeiros dos lavradores de antanho – mas, sobre o solo da linguagem, cavadores de poços e construtores de casas - os leitores são viajantes; eles circulam sobre as terras de outrem, caçam, furtivamente, como nômades através dos campos que não escreveram, arrebatam os bens do egito para com eles se regalar . (de certau, 1994. p. 11). essas considerações nos permitem dizer que as palavras, muito embora não tenham um sentido fixo, carregam significações que permitem ao leitor , passar por diversas e sucessivas sondagens. a capacidade de transgressão dos sentidos do texto, propostos pelo autor , irá revelar a eficiência e o poder do leitor . há que se levar em conta, segundo paulino et al (2001), que a questão da leitura passa, necessária e simultaneamente, por: a) uma teoria do conhecimento para fazer uma boa leitura, o leitor deve ter consciência de que o autor não é o dono absoluto do texto e o leitor apenas um subordinado. o leitor é também produtor de sentidos, co-autor do texto. por isso, ler é um ato produtivo pois o texto é recriado, reconstruído pelo leitor , nem sempre como o autor desejava. no momento da leitura o leitor está em trabalho intelectual tanto no plano social quanto no plano individual. b) uma psicologia/psicanálise estados e disposições psíquicas conscientes ou inconscientes do leitor determinam o ato de ler ou nele interferem. “o ato de ler é motivado por um desejo e, ao mesmo tempo atravessado pelo inconsciente”, diz paulino et al (2001). c) uma sociologia o leitor deve entender que a leitura da palavra escrita tem um papel importante na história da vida dos seres humanos. é por intermédio dicas de certau (1994), por meio de linguagem metafórica, compara o leitor a um viajante. analise esse conceito e ilustre-o criativamente. fonte: www.arionauro.com.br figura 11 351 letras/português caderno didático - 1º período</Page><Page Number="28">352 introdução à leitura uab/unimontes dela que os sujeitos se constituem pelo processo de interlocução, que falam, escrevem, lêem e se fazem presentes no mundo. assim, autor e leitor pertencem a grupos sociais com seus valores e poderes, limitações e expectativas. e experimentando, desenvolvendo e conferindo as suas habilidades de leitor o ser humano passa a agir eficientemente como tal na sociedade em que vive. d) uma pedagogia a leitura se desenvolve num processo de ensino aprendizagem que faz parte não só da escola, mas também da vida do cidadão num constante processo de troca. é na escola, contudo, que a leitura da palavra escrita ocorre com maior frequência e de forma diversificada, abrangendo vários níveis do conhecimento e exteriorização das emoções e da criatividade. é preciso “ensinar a ler” e não “mandar ler”. e) uma teoria da comunicação para cumprir funções determinadas, a leitura requer do leitor a responsabilidade pela formação de sentidos e envolve, portanto, elementos da comunicação: ? emissor: o que emite, que codifica a mensagem; aquele que diz algo a alguém; ? receptor: o que recebe, decodifica a mensagem; aquele com quem o emissor se comunica. ? mensagem: o conjunto de informações transmitidas do emissor para o receptor; ? código: a combinação ou o conjunto de sinais utilizados na transmissão e recepção de uma mensagem. a comunicação só se concretizará, se o receptor souber decodificar a mensagem; ? referente: o assunto ou situação a que a mensagem se refere, também chamado de contexto; ? canal de comunicação: meio pelo qual a mensagem é transmitida, ou circula: tv , rádio, jornal, revista, cordas vocais, ar , etc. figura 12</Page><Page Number="29">353 letras/português caderno didático - 1º período para refletir o poema de carlos drummond ilustra a presença dos elementos da comunicação. leia-o e identifique-os.     emissor referente código canal de comunicação mensagem  recepto r figura 13 diálogo de todo dia carlos drummond de andrade __ alô, quem fala? __ ninguém. quem fala é você que está perguntando quem fala. __ mas eu preciso saber com quem estou falando. __ e eu preciso saber antes a quem estou respondendo. __ assim não dá. me faz o obséquio de dizer quem fala? __ t odo mundo fala, meu amigo, desde que não seja mudo. __ isso eu sei, não precisava me dizer como novidade. eu queria saber é quem está no aparelho. __ ah, sim. no aparelho não está ninguém. __ como não está, se você está me respondendo? __ eu estou fora do aparelho. dentro do aparelho não cabe ninguém. __ engraçadinho. então, então quem está ao aparelho? __ agora melhorou. estou eu, para servi-lo. __ não parece. se fosse para me servir , já teria dito quem está falando. __ bem, nós dois estamos falando. eu de cá, você de lá. e um não conhece o outro. __ se eu conhecesse não estava perguntando. __ você é muito perguntador . note que eu não lhe perguntei nada. __ nem tinha que perguntar . pois se foi eu que telefonei. __ não perguntei nem vou perguntar . não estou interessado em conhecer outras pessoas. __ mas podia estar interessado pelo menos em responder a quem telefonou. __ estou respondendo. __ pela última vez, cavalheiro, e em nome de deus: quem fala? __ pela última vez, e em nome da segurança, por que eu sou obrigado a dar esta informação a um desconhecido? __ bolas! __ bolas, digo eu. bolas e carambolas. por acaso você não pode dizer com quem deseja falar , para eu responder se essa pessoa está ou não está aqui, mora ou não mora neste endereço? vamos, diga de uma vez por todas: com quem deseja falar? silêncio. __ desculpe, a confusão é tanta que eu nem sei mais. esqueci. t chau. andrade. carlos drummond de. contos plausíveis. rio de janeiro: j. olímpio, 1985. p. 68</Page><Page Number="30">354 introdução à leitura uab/unimontes é pela sala de aula que a mudança deve mesmo começar , afirma o embaixador lauro moreira, representante brasileiro na cplp (comunidade de países de língua portuguesa). "não tenho dúvida de que, quando a nova ortografia chegar às escolas, toda a sociedade se adequará. levará um tempo para que as pessoas se acostumem com a nova grafia, como ocorreu com a reforma ortográfica de 1971, mas ela entrará em vigor aos poucos.” fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u321371.shtml. 20/08/2007.  brasil se prepara para reforma ortográfica f) uma análise do discurso paulino et al (2001) afirma que a organização interna do texto, sua relação com outros textos, suas dimensões político-econômicas são elementos essenciais no ato de ler . pode-se afirmar que o sentido de uma palavra não existe em si mesmo. ele é determinado pelas posições ideológicas colocadas em jogo no processo histórico no qual as palavras são produzidas. uma mesma palavra, em diferentes contextos e/ou ditas por pessoas diferentes, assume sentidos diferentes. g) uma teoria literária o prazer da experiência criativa com o texto precisa ser preservado como um bem cultural. é a experiência com o momento de fruição do texto sem intenções práticas imediatas. por meio da leitura literária também é possível compreender o texto como lugar de manifestação de ideologias e reconhecer os discursos ou mitos fundadores da brasilidade, as manifestações culturais e artísticas. figura 14</Page><Page Number="31">355 letras/português caderno didático - 1º período os textos literários permitem, ainda, o conhecimento de formas representativas da vida social e política de diferentes contextos históricos e posicionamentos críticos. dicas leia a música “construção” de chico buarque de holanda. se possível, ouça essa música na voz do cantor . t ente fazer uma interface com a disciplina filosofia da educação, e responder: qual era a ideologia política vivenciada no brasil na década de 70? o que os artistas e intelectuais da época defendiam? construção chico buarque/1971 amou daquela vez como se fosse a última beijou sua mulher como se fosse a última e cada filho seu como se fosse o único e atravessou a rua com seu passo tímido subiu a construção como se fosse máquina ergueu no patamar quatro paredes sólidas tijolo com tijolo num desenho mágico seus olhos embotados de cimento e lágrima sentou pra descansar como se fosse sábado comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe bebeu e soluçou como se fosse um náufrago dançou e gargalhou como se ouvisse música e tropeçou no céu como se fosse um bêbado e flutuou no ar como se fosse um pássaro e se acabou no chão feito um pacote flácido agonizou no meio do passeio público morreu na contramão atrapalhando o tráfego amou daquela vez como se fosse o último beijou sua mulher como se fosse a única e cada filho como se fosse o pródigo e atravessou a rua com seu passo bêbado subiu a construção como se fosse sólido ergueu no patamar quatro paredes mágicas tijolo com tijolo num desenho lógico seus olhos embotados de cimento e tráfego sentou pra descansar como se fosse um príncipe comeu feijão com arroz como se fosse o máximo bebeu e soluçou como se fosse máquina dançou e gargalhou como se fosse o próximo e tropeçou no céu como se ouvisse música e flutuou no ar como se fosse sábado e se acabou no chão feito um pacote tímido agonizou no meio do passeio náufrago morreu na contramão atrapalhando o público amou daquela vez como se fosse máquina beijou sua mulher como se fosse lógico ergueu no patamar quatro paredes flácidas sentou pra descansar como se fosse um pássaro e flutuou no ar como se fosse um príncipe e se acabou no chão feito um pacote bêbado morreu na contra-mão atrapalhando o sábado fonte: http://www.chicobuarque.com.br/letras/construc_71.htm</Page><Page Number="32">356 a teoria afirma que a leitura literária pressupõe: ? possibilidades de manifestações ideológicas; ? presença de discursos ou mitos constituintes da brasilidade; e ? representação de manifestações culturais e artísticas. com base nesses itens, observe o que o autor , chico buarque, comenta a respeito do processo de construção do texto: ? o prazer da experiência criativa com o texto sem intenções práticas imediatas; chico: não passava de experiência formal, jogo de tijolos. não tinha nada a ver com o problema dos operários - evidente, aliás, sempre que você abre a janela. status: portanto, não havia nenhuma intenção na música. chico: exatamente. na hora em que componho não há intenção - só emoção. em construção, a emoção estava no jogo de palavras (todas proparoxítonas). agora, se você coloca um ser humano dentro de um jogo de palavras, como se fosse... um tijolo - acaba mexendo com a emoção das pessoas. status: então não se liga com intenção? chico: t udo é ligado. mas há diferença entre fazer a coisa com intenção ou - no meu caso - fazer sem a preocupação do significado. se eu vivesse numa torre de marfim, isolado, talvez saísse um jogo de palavras com algo etéreo no meio, a patagônia, talvez, que não tem nada a ver com nada. em resumo, eu não colocaria na letra um ser humano. mas eu não vivo isolado. gosto de entrar no botequim, jogar sinuca, ouvir conversa de rua, ir a futebol. t udo entra na cabeça em tumulto e sai em silêncio. porém, resultado de uma vivência não solitária, que contrabalança o jogo mental e garante o pé no chão. a vivência dá a carga oposta à solidão, e vem da solidariedade - é o conteúdo social. “mas trata-se de uma coisa intuitiva, não intencional: faz parte da minha formação que compreende - igual aos outros de minha geração - jogar bola e brigar na rua, ler histórias em quadrinhos, colar , aos seis anos, cartazes a favor do brigadeiro, por causa dos meus pais, contrários ao estado novo". status, 1973 entrevista a judith patarra fonte: http://www.chicobuarque.com.br/letras/notas/n_construc.htm introdução à leitura uab/unimontes</Page><Page Number="33">357 letras/português caderno didático - 1º período 2.2 história da prática de leitura sabe-se que nem sempre foi possível ter acesso às leituras. na idade média os livros eram manuscritos reproduzidos e ilustrados pelos monges copistas no inter ior dos mostei ros . escritos em latim e versando sobre os conceitos e crenças da cultura clássica, eram obras de acesso e domínio restr i tos aos rel igiosos. acreditava-se que a leitura tinha poder subversivo, representava risco para o poder da igreja e, por isso, precisava ser controlada. umberto eco (2004) mostra em “o nome da rosa” que os livros, serviam como objetos de estímulo à reflexão e contestação do saber oficial nas mãos dos monges. suger imos que nesse instante você vá a uma locadora e alugue o filme “o nome da rosa”. (ver sinopse ao final da unidade). convide seus colegas, faça pipoca, sente-se confortavelmente e o assista. nele, um monge franciscano é encarregado de investigar uma série de estranhas mortes que passam a ocorrer em um mosteiro, em plena idade média. para ilustrar essa unidade você pode assistir também o filme “lutero”. ele retrata o momento da reforma religiosa em que lutero, depois de ter distribuído a bíblia, traduzindo-a para o alemão, percebe que ela suscita interpretações, principalmente políticas e socialmente perigosas, a ponto de desencadearem uma guerra (ver sinopse ao final da unidade). o livro impresso foi primeiramente conhecido e divulgado pelos chineses desde o século viii. no ocidente foi produzido e popularizado por volta de 1450, com a criação da imprensa de tipos móveis, por gutemberg. com o passar dos tempos, técnicas revolucionárias de impressão modificaram não só a as estruturas dos textos, mas também seus suportes e funções. fonte :http://josiasdesouza.folha.blog.uol.com.br/arch 2007-10-28_2007-11-03.html figura 15 você concorda que na década de 70, quando a repressão e a censura se acirravam, chico buarque revelou senso crítico e preocupação com a busca pelo acesso mais íntimo ao cotidiano, a fim de compreender o dia-a-dia daqueles que considerava como excluídos do sistema? você concorda também que em “construção” ele  relata a difícil vida de um operário, que se “deixar de existir” não fará qualquer falta à sociedade? ilustre, com passagens do texto o que lhe permite essas leituras. para refletir prezado acadêmico! atenção! parada obrigatória! figura 16</Page><Page Number="34">358 introdução à leitura uab/unimontes os livros passaram a ser objetos cujos conteúdos comandam, se não a imposição de um sentido ao texto que carrega, ao menos os usos de que podem ser investidos e as apropriações às quais são suscetíveis. pode-se concluir , que suportes diferentes geram práticas de leituras também diferentes. a constante multiplicação dos textos e suportes se faz acompanhar por mudanças no estilo e nas práticas de leitura. afirma chartier (1998), que essas mudanças estão relacionadas: ? surge o padrão culto, erudito, civilizado da leitura silenciosa que é a leitura dos olhos, no lugar da leitura oral por meio do movimento de manducação mandibular . ? a leitura armazenada em rolos, que impedia que o leitor comparasse as diversas partes do texto dá lugar ao in-fólio que permitia a comparação de trechos localizados em páginas distintas. ? o in-fólio (livro em que cada folha é dobrada em apenas duas), suporte mais comum até o século xvii, por ser muito grande e ter que permanecer aberto sobre uma mesa, restringia a leitura aos gabinetes, deu lugar ao códex (placa escavada na qual os romanos escreviam) e que permitiu uma maior liberdade da leitura, sem que a mesma tivesse que se dar em um espaço fechado. ? no século xviii passa-se a ter também a leitura de prazer , e não apenas de estudo. é a época em que proliferam pinturas que mostram o ideal romântico do leitor lânguido, lascivo, deitado em cavernas ou semicoberto por lençóis. a leitura libertina associada ao risco da libertinagem. ? surge a função do autor , do editor e, consequentemente, as primeiras leis de direito autoral. ? no lugar de um leitor “intensivo”, que memorizava através de constantes releituras os textos que dispunha, surge o leitor “extensivo” que consome impressos numerosos e diversos. atividades para refletir vai ser possível perceber que as páginas do 2º volume da poética de aristóteles estavam envenenadas. reflita: “em verdade, as páginas envenenadas são a metáfora do veneno que o livro poderia representar , já que a reflexão possibilitada a partir da leitura poderia matar a fé e a ordem estabelecidas”. faça suas anotações sobre a afirmação. figura 17 figura 18 dicas partes do codex sinaiticus, de 1.600 anos de idade, e que inclui o primeiro novo t estamento completo do mundo. fonte: http://monomito.files.wordp ress.com/2007/05/manuscri to02.jpg</Page><Page Number="35">359 letras/português caderno didático - 1º período referências andrade, carlos drummond de. contos plausíveis. rio de janeiro: j. olímpio, 1985. chartier, roger . a aventura do livro: do leitor ao navegador . t rad. por reginaldo de moraes. são paulo: unesp, 1998. de certeau, michel. in: chatier, roger , a ordem dos livros: leitores, autores e biblioteca entre os séculos xiv e xvii, t rad. mary de priori, brasília: editora da unb, 1984. eco, umberto. o nome da rosa, lisboa: difel, 2004. paulino, graça et al. tipos de textos, modos de leitura. belo horizonte: formato editorial, 2001. (educador em formação). http://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u321371.shtml, consultado em out/2008. ht tp: / /www.ador oc inema. com/ f i lmes /nome-da- r osa/nome-da-rosa.htm#sinopse, consultado em out/2008. http://www.chicobuarque.com.br/letras/construc_71.htm, consultado em out/2008. http://www.chicobuarque.com.br/letras/notas/n_construc.htm, consultado em out/2008. www.lutherthemovie.com, consultado em out/2008. vídeos sugeridos para debate http://www.portalvmmnet.kit.net figura 19</Page><Page Number="36">360 introdução à leitura uab/unimontes o nome da rosa. em 1327 william de baskerville (sean connery), um monge franciscano, e adso von melk (christian slater), um noviço que o acompanha, chegam a um remoto mosteiro no norte da itália. william de baskerville pretende participar de um conclave para decidir se a igreja deve doar parte de suas riquezas, mas a atenção é desviada por vários assassinatos que acontecem no mosteiro. william de baskerville começa a investigar o caso, que se mostra bastante intrigando, além dos mais religiosos acreditarem que é obra do demônio. william de baskerville não partilha desta opinião, mas antes que ele conclua as investigações bernardo gui (f . murray abraham), o grão-inquisidor , chega no local e está pronto para torturar qualquer suspeito de heresia que tenha cometido assassinatos em nome do diabo. considerando que ele não gosta de baskerville, ele é inclinado a colocá-lo no topo da lista dos que são diabolicamente influenciados. esta batalha, junto com uma guerra ideológica entre franciscanos e dominicanos, é travada enquanto o motivo dos assassinatos é lentamente solucionado. uma das críticas é de que ele relata fatos do passado que ainda estão presentes em nosso dia-a-dia, como luxúria, disputa e abuso do poder , não somente na igreja como em outros órgãos. ficha técnica: título original: der name der rose gênero: suspense t empo de duração: 130 minutos ano de lançamento (alemanha): 1986 direção: jean-jacques annaud baseado em livro de humberto eco ht tp: / /www.ador oc inema. com/ f i lmes /nome-da- r osa/nome-da-rosa.htm#sinopse. lutero após quase ser atingido por um raio, martim lutero (joseph fiennes) acredita ter recebido um chamado. ele se junta ao monastério, mas logo fica atormentado com as práticas adotadas pela igreja católica na época. após pregar em uma igreja suas 95 teses, lutero passa a ser perseguido. pressionado para que se redima publicamente, lutero se recusa a negar suas teses e desafia a igreja católica a provar que elas estejam erradas e contradigam o que prega a bíblia. excomungado, lutero foge e inicia sua batalha para mostrar que seus ideais estão corretos e que eles permitem o acesso de todas as pessoas a deus.</Page><Page Number="37">361 letras/português caderno didático - 1º período ficha técnica  título original: luther gênero: drama t empo de duração: 112 minutos ano de lançamento (alemanha / eua): 2003 site oficial: www.lutherthemovie.com fonte: http://www.portalvmmnet.kit.net figura 20</Page><Page Number="38">362 3 unidade 3 texto e textualidade se você chegou até aqui é porque terminou com sucesso as unidades i e ii. parabéns! agora você dará mais um passo importante. vamos estudar a unidade iii? apresentação da unidade apresentamos a unidade iii da disciplina introdução à leitura. nela discutiremos noções dos princípios constitutivos do texto e os fatores envolvidos em sua produção e recepção. é um estudo situado dentro da linguística t extual e relevante para desenvolver as habilidades de um bom leitor e produtor de textos. objetivos: ? estudar o que é texto e textualidade. ? entender quais são as características de um texto que fazem com que ele seja texto e não um amontoado de frases. ? ler textos identificando os fatores de textualidade. 3.1 o conceito de texto sabe-se que no processo comunicacional, seja oral ou escrito, o que as pessoas têm a dizer umas às outras elas não dizem por meio de palavras ou frases isoladas, mas por meio de textos. o conceito de texto surge assim como sinônimo de discurso e, de acordo com costa val (1999), é “ocorrência linguística falada ou escrita, de qualquer extensão, dotada de unidade sociocomunicativa, semântica e formal”.  é possível afirmar que em um texto o significado das frases não é autônomo, isso implica que não é possível isolar uma frase do texto e atribuir-lhe um significado qualquer pois o significado pode ser distinto, dependendo do seu contexto de inserção. platão e fiorin (1995) afirmam que: ...para entender qualquer passagem de um texto, é necessário confrontá-la com as demais partes que o compõem sob pena de dar-lhe um significado oposto ao que ela de fato tem. e a b g glossário f c corrente da lingüística moderna: surgida na década de 1960, na europa, onde ganhou projeção a partir dos anos 70. t eve inicialmente por preocupação descrever os fenômenos sintático-semânticos ocorrentes entre enunciados ou seqüências de enunciados. você verá com maiores detalhes dentro da disciplina lingüística. aguarde! escolhe teu diálogo e tua melhor palavra ou teu melhor silêncio mesmo no silêncio e com o silêncio dialogamos.</Page><Page Number="39">cada palavra tem seu sentido individual, entretanto, quando elas se relacionam, montam um outro sentido. o mesmo raciocínio vale para as frases, os parágrafos e até os textos. cada um desses elementos tem um sentido individual e um tipo de relacionamento com os demais. ex: boião de leite s a b e n d o - s e q u e “boião” é vaso bojudo de boca larga usado para acondicionar alimentos, isolada de um contexto maior a expressão “boião de leite” significa vasilha de boca larga contendo leite. neste contexto mais ampliado: pode ser entendido que ”boião” ainda é a vasilha contendo leite. ela é carregada e vai derramando pingos de leite pelo caminho. entretanto, inserida num contexto maior como o todo do poema de cassiano ricardo, requer uma outra interpretação: acrescido do título “lua cheia” bem como dos demais versos, a expressão “boião de leite” e as demais expressões assumem novos sentidos: ? “boião de leite” significa lua cheia; ? “pingos brancos” significa estrelas e ? “caminho”, possivelmente, significa a rota da lua. você deve ter percebido que contexto é aqui entendido como uma unidade linguística maior formada por unidades linguísticas menores. no exemplo acima o verso encaixa-se na estrofe e esta constitui o poema. outra ocorrência é o caso da frase encaixar-se no contexto do parágrafo, o parágrafo encaixar-se no contexto do capítulo e o capítulo encaixar-se no contexto de uma obra. o contexto pode, também, ser situacional. nesse caso nem sempre está explicitado linguisticamente, mas implícito nos elementos da situação de comunicação em que o texto é produzido. uma mesma 363 letras/português caderno didático - 1º período boião de leite e que, embora levado muito devagarinho, vai derramando pingos brancos pelo caminho (ricardo, cassiano. poesias completas. rio de janeiro: josé olímpio, 1957. p. 135). lua cheia boião de leite que a noite leva com mãos de treva, pra não sei quem beber . e que, embora levado muito devagarinho, vai derramando pingos brancos pelo caminho. (ricardo, cassiano. poesias completas. rio de janeiro: josé olímpio, 1957. p. 135).</Page><Page Number="40">364 introdução à leitura uab/unimontes notícia, publicada em canais diferentes, permite diferentes compreensões. vamos ler o texto: reflita: caso você encontrasse esse texto em um blog pessoal no qual o autor , ou autores, publicam seus textos fictícios, qual o significado que essa história teria? e se ele foi publicado em um blog que reproduz notícias e reportagens de revistas e jornais de circulação nacional, qual sentido o texto assumiria nesse caso? como esclarecimento, o texto foi publicado no “blog notícia” (http://www.blognoticia.blogger .com.br/) e é uma reprodução do artigo liana e felipe liana e felipe eram jovens, bonitos, carinhosos. enfrentavam a vida com disposição, alimentavam seus sonhos com esperança. eram "do bem", amavam-se e, por isso, como todos os jovens apaixonados como eles, precisavam muito estar juntos e sós. t alvez por conta da embriaguez própria da paixão, não suspeitaram do perigo. t alvez por causa daquela necessidade de estar juntos e sós, de esquecer do mundo "lá fora", de se isolar para que uma suposta plenitude do amor fosse possível, deixaram de lado conselhos, cuidados, precauções. e encontraram champinha no meio do caminho. ao contrário dos dois, champinha é um adolescente "do mal". facínora, cruel, violento. pelo que tudo indica, não tem limites no seu instinto destruidor . (...) tão parecidos e tão diferentes, vítimas e algoz. será que foi a imprudência dos dois que os levou até champinha, como querem alguns, ou esse encontro poderia ter ocorrido e também redundado em tragédia num farol de trânsito, numa esquina escura, na saída de uma "balada"? impossível saber . (...) (adaptado) e a b g glossário f c blog: substantivo masculino. 1.inform. na web, serviço que permite ao internauta criar e manter uma página em que as informações são apresentadas em ordem cronológica reversa (as mais recentes aparecem primeiro), tendo cada publicação sua data e hora de inserção, e tb. um espaço onde outros internautas podem incluir comentários associados. [inicialmente foi us. como diário, mas com a popularização tornou-se tb. um meio para divulgação de idéias, etc.] fonte: http://revistaescola.abril.co m.br/edicoes/0206/aberto/p alavras_novas.doc</Page><Page Number="41">365 letras/português caderno didático - 1º período escrito por luiz caversan para a folha online. 3.2 textualidade após concluir que num texto as frases não têm significado autônomo, pois o sentido delas é dado pela correlação que elas mantêm com o todo, e às vezes com a própria situação de produção, pode-se concluir que o texto é um tecido, tem uma tessitura, o que costa val (1999) denomina de textualidade. t extualidade é, assim, o conjunto de características que fazem com que um texto seja considerado como tal, e não como um amontoado de palavras e frases. segundo beaugrande e dressler (1983), são sete os fatores responsáveis pela textualidade de qualquer discurso: 1- fatores semântico/formal - que se relacionam com o material conceitual e linguístico do texto. são eles: ? coerência ? coesão 2 fatores pragmáticos – que têm a ver com os fatores práticos envovidos no processo sociocomunicativo. são eles: ? intencionalidade, ? aceitabilidade, ? situacionabilidade, ? informatividade, ? intertextualidade. vejamos cada um separadamente 3.2.1 fatores semântico/formal de textualidade ? coerência é muito comum ouvir as pessoas dizerem que não apresentam dificuldades em se expressar através da fala e que os problemas surgem no momento em que é preciso produzir um texto escrito. essa dificuldade normalmente advém da falta de habilidade para organizar as idéias de forma coerente e coesa. a coerência textual é a correspondência entre as idéias do texto de forma lógica. é o instrumento que o autor usa para conseguir encaixar/relacionar as partes do texto e dar um sentido completo a ele. dessa forma, a coerência é o fator responsável por transformar o texto em um todo compreensível aos olhos do leitor . caso estas relações sejam feitas da maneira correta, obtemos uma mensagem, um conteúdo semântico compreensível. o estudo dos fatores de textualidade irá facilitar sua compreensão dos problemas que interferem na escrita e, assim, em interface com a disciplina introdução à leitura, contribuirá para que você se torne, além de um competente leitor , um eficiente produtor de textos. dicas atividades antes de continuar a leitura, faça uma predição sobre o que vem a ser cada uma desses fatores. t ente primeiramente acionar seus conhecimentos prévios e depois lance mão de um dicionário. anote suas conclusões para posteriormente à leitura, ver o quais conhecimentos você adquiriu. atividades estudando com seus colegas, ou mesmo conversando com seus familiares, defenda a afirmativa: “para fazer uma boa leitura deve-se sempre levar em conta o contexto em que a passagem está inserida”.</Page><Page Number="42">366 introdução à leitura uab/unimontes para que a coerência ocorra, as idéias devem se completar de forma lógica. uma deve ser a continuação da outra. caso não ocorra uma concatenação de idéias entre as frases, elas acabarão por se contradizerem ou por quebrarem uma linha de raciocínio. quando isso acontece, dizemos que houve um quebra de coerência textual. sobre a coerência costa val afirma: ...a coerência de um texto deriva de sua lógica interna, resultante dos significados que sua rede de conceitos e relações põe em jogo, mas também da compatibilidade entre essa rede conceitual __ o mundo textual __ e o conhecimento de mundo de quem processa o discurso. (costa val, 1993.p.6). assim, quando falamos ou escrevemos sem coerência, o entendimento é comprometido, e imediatamente alguém pode afirmar que o texto está incoerente ou dizer que não estamos falando ou escrevendo “coisa com coisa”. da mesma forma, quando lemos um texto incoerente, não produzimos o sentido necessário à sua compreensão, requisito essencial para que de fato ocorra a leitura. ex. a) a incoerência ocorre na argumentação do personagem pelo fato dele afirmar , na primeira tirinha, que vai aproveitar o sol pra se bronzear: “quero ficar morenaço! da cor do pecado! negão mesmo! black! preto!”. entretanto, na última tirinha, ele se revela preconceituoso e discriminador em relação ao garçom negro que o atendeu. logo, é fonte: http://bp1.blogger .com/_8qzsnglxdpy/rfca7bt3izi reflita. o que está incoerente na fala de um dos personagens dessa historinha? e na placa do posto de combustíveis? após responder prossiga a leitura e verifique se você acertou. atividades figura 21</Page><Page Number="43">367 letras/português caderno didático - 1º período incoerente querer se tornar “preto” e discriminar um afro-descendente. b) é incoerente dizer que um estabelecimento está “aberto todos os dias” se há um descanso semanal às terças-feiras. assim, pode-se afirmar que: ? a coerência é o resultado da não contradição entre as partes do texto e do texto com relação ao mundo ? normalmente a falta de coerência em um texto é facilmente detectada por um falante da língua, mas não é tão simples notá-la quando é você quem escreve. marcuschi (1983) afirma que uma justaposição de eventos e situações em um texto pode ativar operações que estabelecem as relações de coerência: chinelos, vaso, descarga. pia, sabonete. água. escova, creme dental, água, espuma, creme de barbear , pincel, espuma, gilete, água, cortina, sabonete, água fria, água quente, toalha. creme para cabelo, pente. cueca, camisa, abotoaduras, calça, meias, sapatos, gravata, paletó. carteira, níqueis, documentos, caneta, chaves, lenço, relógio, maço de cigarros, caixa de fósforos. jornal. mesa, cadeiras, xícara e pires, prato, bule, talheres, guardanapo. quadros. pasta, carro. cigarro, fósforo. mesa e poltrona, cadeira, cinzeiro, papéis, telefone, agenda, copo com lápis, canetas, bloco de notas, espátula, pastas, caixas de entrada, de saída, vaso com plantas, quadros, papéis, cigarro, fósforo. bandeja, xícara pequena. cigarro e fósforo. papéis, telefone, relatórios, cartas, notas, vales, cheques, memorandos, bilhetes, telefone, papéis. relógio. mesa, cavalete, cinzeiros, cadeiras, esboços de anúncios, fotos, cigarro, fósforo, bloco de papel, caneta, projetor de filmes, xícara, cartaz, lápis, cigarro, fósforo, quadro-negro, giz, papel. mictório, pia, água. táxi. mesa, toalha, cadeiras, copos, pratos, talheres, garrafa, guardanapo, xícara. maço de cigarros, caixa de fósforos. escova de dentes, pasta, água. mesa e poltrona, papéis, telefone, revista, copo de papel, cigarro, fósforo, telefone interno, externo, papéis, prova de anúncio, caneta e papel, relógio, papel, pasta, cigarro, fósforo, papel e caneta, telefone, caneta e papel, telefone, papéis, folheto, xícara, jornal, cigarro, fósforo, papel e caneta. carro. maço de cigarros, caixa de fósforos. paletó, gravata. poltrona, copo, revista. quadros. mesa, cadeiras, pratos, talheres, copos, guardanapos. xícaras. cigarro e fósforo. poltrona, livro. cigarro e fósforo. t elevisor , poltrona. cigarro e fósforo. abotoaduras, camisa, sapatos, meias, calça, cueca, pijama, chinelos. vaso, descarga, pia, água, escova, creme dental, espuma, água. chinelos. coberta, cama, travesseiro. fonte: http://juliom.paginas.sapo.pt/surprise.jpg figura 22 cassiano ricardo</Page><Page Number="44">368 essa lista de palavras consegue realizar uma intenção comunicativa se quem a recebe, de modo cooperativo, determinar-lhe o sentido. o texto chama-se “circuito fechado” é de autoria de cassiano ricardo. apesar da ausência das ligações sintáticas (coesivas), quem lê a sequência linguística pode perceber uma unidade de sentido (coerente) qual seja: o dia-a-dia, a rotina, o quotidiano de um homem. principais fatores de coerência um texto será incoerente se seu produtor não conseguir adequá-lo a outros fatores tais como: intenção comunicativa, objetivos, destinatário, regras sócio-culturais, outros elementos da situação, uso dos recursos linguísticos... . koch e t ravaglia (1990) afirmam que “(...) a coerência não é nem característica do texto, nem dos usuários do mesmo, mas está no processo que coloca texto e usuários em relação numa situação”. grifos dos autores. diversos são os fatores que concorrem para a percepção da coerência em um texto. segundo koch e t ravaglia (1999), eles podem ser podem ser das mais diversas ordens: linguísticos, discursivos, culturais e interacionais. a) linguísticos os elementos linguísticos funcionam como pistas para ativação dos conhecimentos armazenados na memória do leitor . t eoricamente, o mal uso de elementos linguísticos em um texto cria incoerência e o receptor pode não conseguir estabelecer o seu sentido. b) conhecimento de mundo o conhecimento de mundo ou enciclopédico é aquele que se encontra armazenado na memória de cada indivíduo. diz respeito aos fatos do mundo, sócio-culturalmente adquirido através da experiência, da vivência das diferentes situações, das viagens, leituras, dos programas de tv , etc. eles desempenham um papel importante no estabelecimento da coerência. quando nos defrontamos com um texto que fala de coisas que desconhecemos, não conseguiremos estabelecer o seu sentido. os conhecimentos que vamos armazenando à medida que vamos estabelecendo contatos com o mundo, vão sendo armazenados em nossa memória em blocos denominados modelos cognitivos. os modelos cognitivos são assim culturalmente determinados e aprendidos através de nossa vivência em dada sociedade. koch e t ravaglia (1999), citam alguns exemplos de modelos cognitivos: atividades elabore o seu texto utilizando a maioria das palavras, mantendo a coerência de idéias apresentadas por elas. use sua criatividade. possivelmente você obterá um texto narrativo / uma história. introdução à leitura uab/unimontes</Page><Page Number="45">369 letras/português caderno didático - 1º período ? os frames conjunto de conhecimentos armazenados na memória debaixo de certo “rótulo”. vejam que para o rótulo carnaval, imediatamente temos confete, serpentina, desfile, escola de samba, fantasia, baile, mulatas. apesar de não haver qualquer ordenação lógica entre esses conhecimentos, eles vêm á tona quando acionados. ? esquemas é o conjunto de conhecimentos armazenados em sequência temporal ou causal. as palavras da leitura afloram o esquema que, posto em funcionamento, permite o entendimento/sentido do texto. ex: conhecimentos de como pôr um eletrodoméstico em funcionamento, a rotina de um dia na vida de um cidadão. ? planos conjunto de conhecimentos armazenados em nossa memória e que têm a ver com o modo de agir para atingir determinado objetivo; por exemplo, como vencer uma partida de xadrez. ? scripts atividades elabore frames para: natal, férias e casamento. atividades descreva a sua rotina diária a partir do momento em que você se levanta. note que você, via de regra, não pára para pensar em determinadas ações, elas já fazem parte do seu repertório de conhecimentos armazenados e vão sendo acionadas. atividades descreva o caminho que você percorre para chegar à sua escola ao à casa de um parente. figura 23</Page><Page Number="46">370 introdução à leitura uab/unimontes conjunto de conhecimentos sobre modos estereotipados de agir . aparecem na forma de termos ou expressões que aparentam incoerência mas, por serem fórmulas prontas, utilizadas em situações pré-determinadas, a falta de coesão é apenas aparente. em termos de linguagem, ilustram os scripts, por exemplo, os rituais religiosos (batismo, casamento, missa), as fórmulas de cortesia, as práxis jurídicas, etc. ? superestruturas ou esquemas textuais à medida que vamos entrando em contato com os diversos tipos de textos, e que fazemos comparações entre eles, vamos construindo um conjunto de conhecimentos sobre essa diversidade. a esse conjunto de conhecimentos é que koch e travaglia (1999), denominam superestruturas ou esquemas textuais. c) conhecimento partilhado mesmo que seja prat icamente impossível assimi lar conhecimentos de uma mesma forma, no caso de produtor e receptor de textos, é preciso que uma parcela dos conhecimentos adquiridos previamente e armazenados na memória seja comum a ambos. sobre conhecimento partilhado, koch e t ravaglia (1990.p. 64), afirmam: “os elementos textuais que remetem ao conhecimento partilhado entre os interlocutores constituem a informação “velha” ou dada, ao passo que tudo aquilo que for introduzido a partir dela constituirá a informação nova trazida pelo texto”. disso decorre que, para que um texto seja coerente é necessário que haja um equilíbrio entre informação dada e informação nova. a necessidade desse equilíbrio é porque se em um texto todas as informações são novas, ele se torna inteligível para o receptor que não o processará cognitivamente. por outro lado, se o texto contém apenas informações dadas, será considerado redundante e não preencherá o propósito comunicativo. para koch e t ravaglia (1990.p. 64), são consideradas informações dadas, aquelas que: a)constituem o co-texto, isto é, são recuperáveis a partir do próprio texto; b)aquelas que fazem parte do contexto situacional, isto é, da situação em que se realiza o ato de comunicação; c)aquelas que são de conhecimento geral em dada cultura; d)as que remetem ao conhecimento comum do produtor e do receptor . ao utilizarmos os nossos conhecimentos de mundo na leitura de</Page><Page Number="47">371 letras/português caderno didático - 1º período um texto, realizamos o que koch e t ravaglia (1990.p.65), chamam de inferência. os autores afirmam: sobre a coerência textual, koch e t ravaglia (1997), afirmam que: t exto incoerente é aquele em que o receptor (leitor ou ouvinte) não consegue descobrir qualquer continuidade de sentido, seja pela discrepância entre os conhecimentos ativados, seja pela inadequação entre esses conhecimentos e o seu universo cognitivo. t exto coerente é o que “faz sentido” para seus usuários, o que torna necessária a incorporação de elementos cognitivos e pragmáticos ao estudo da coerência textual. koch e travaglia. 1997. p.32). van dijk e kintsh (1983) apud koch e t ravaglia (1997), fazem referência a diversos tipos de coerência: semântica, sintática, estilística e coerência pragmática. a) coerência semântica ? local: diz respeito à relação entre significados dos elementos das frases em sequência em um texto. ? macroestrutura semântica: relação entre os significados dos elementos do texto como um todo. b) coerência sintática relativa aos meios sintáticos para expressar a coerência                semântica. dá-se no nível da estrutura superficial do texto e por meio das pistas linguísticas. (ex: uso dos pronomes e sons definidos). c) coerência estilística referente ao estilo ou registro definido pelo autor para escrever seu texto. ele pode optar por escolha lexical, comprimento e complexidade das frases conforme seu gosto/estilo. d) coerência pragmática sendo o discurso uma sequência de atos de fala condicionalmente relacionados, a coerência pragmática tem a ver como os atos de fala relacionados ao contexto situacional de uso. para que a coerência seja estabelecida, o leitor precisa contar com elementos exteriores ao texto. sendo assim, um texto pode se tornar incoerente pela dificuldade do leitor quase todos os textos que lemos ou ouvimos exigem que façamos uma série de inferências  para podermos compreendê-los integralmente. se assim não fosse [...]. na verdade, todo texto assemelha-se a um iceberg – o que fica à tona, isto é, o que é explicitado no texto é apenas uma pequena parte daquilo que fica submerso, ou seja, implicitado. compete, portanto, ao receptor ser capaz de atingir os diversos níveis de implícito, se quiser alcançar uma compreensão mais profunda do texto que ouve ou lê.</Page><Page Number="48">372 introdução à leitura uab/unimontes em situar o assunto em seu conheci-mento e também por não conseguir inseri-lo em uma situação. a coerên-cia pragmática está, portanto, no nível mais profundo, o da compreen-são do processo de produção. pragmaticamente, princípi-os conversacionais, como os postula-dos por grice (1975), podem afetar o estabelecimento da coerência. para o autor , o princípio básico que rege a comunicação humana é o princípio da cooperação. os leitores/ouvintes sempre se assumem mutuamente cooperativos, isso significa que, ao lerem, acreditam no fato de que as ocorrências linguísticas devem ter sido feitas para serem coerentes.  do princípio da cooperação decorrem quatro máximas: a) máxima da quantidade: ofereça as informações necessárias. nem mais nem menos. b) máxima da qualidade: diga apenas aquilo que acredita ser verdadeiro, para o que há evidências adequadas. c) máxima da relação: seja relevante, pertinente. d) máxima do modo: seja o mais claro possível. as dificuldades de organização das idéias, na leitura de um texto, não se resumem à coerência. é certo que ela facilita bastante esse processo, mas não é suficiente para resolver todos os problemas. a coesão é outro fator que contribui para a compreensão dos textos. é o que veremos a seguir . ? coesão é comum dizer que a coesão é a manifestação linguística da coerência. costa val (1999) afirma: a) a coesão advém da maneira como os conceitos e relações subjacentes são expressos na superfície textual; b) a coesão é responsável pela unidade formal do texto e é construída por meio de mecanismos gramaticais e lexicais. halliday e hassan (apud koch, 1993) definem coesão como um conceito semântico referente às relações de significados que existem dentro de um texto. para eles a coesão se divide em: ? coesão gramatical – expressa parcialmente através da gramática - os pronomes anafóricos, os artigos, a elipse, a concordância, a correlação entre os tempos verbais, as conjunções etc.  ? coesão lexical – expressa parcialmente através do vocabulário - reiteração, substituição e associação. quais são os elementos exteriores ao texto que são exigidos para que essa ilustraçção seja entendida? pensando na história política recente do brasil, explique como o humor é construído nesses diálogos. atividades figura 24</Page><Page Number="49">leia a crônica abaixo de rubem braga . 373 letras/português caderno didático - 1º período crônica: deriva do latim chronica, que significava, no início da era cristã, o relato de acontecimentos em ordem cronológica. era, portanto, um breve registro de eventos. no século xix, com o desenvolvimento da imprensa, a crônica passou a fazer parte dos jornais. esses textos comentavam, de forma crítica, acontecimentos que haviam ocorrido durante a semana. tinham, portanto, um sentido histórico e serviam, assim como outros textos do jornal, para informar o leitor . essa prática foi trazida para o brasil na segunda metade do século xix e era muito parecida com os textos publicados nos jornais franceses. josé de alencar foi um dos escritores brasileiros a produzir esse tipo de texto nesse período . com o passar do tempo, a crônica brasileira foi, gradualmente, distanciando-se daquela crônica com sentido documentário originada na frança. ela passou a ter um caráter mais literário, fazendo uso de linguagem mais leve e envolvendo poesia, lirismo e fantasia. e a b g glossário f c meu ideal seria escrever ... rubem braga meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse -- "ai meu deus, que história mais engraçada!". e então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlutada, doente. que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria -- "mas essa história é mesmo muito engraçada!". que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher , a mulher bastante irritada com o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. o marido a leria e começaria a rir , o que aumentaria a irritação da mulher . mas depois que esta, apesar de sua má vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos. que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera a minha história chegasse -- e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário do distrito, depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aquelas pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse -- "por favor , se comportem, que diabo! eu não gosto de prender ninguém!" . e que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história. e que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa, na nigéria, a um australiano, em dublin, a um japonês, em chicago -- mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da china, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: "nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou por acaso até nosso conhecimento; é divina". e quando todos me perguntassem -- "mas de onde é que você tirou essa história?" -- eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi</Page><Page Number="50">374 introdução à leitura uab/unimontes diversos escritores brasileiros de renome escreveram crônicas: machado de assis, joão do rio, rubem braga, rachel de queiroz, fernando sabino, carlos drummond de andrade, henrique pongetti, paulo mendes campos, alcântara machado etc. ainda hoje há diversos escritores que desenvolvem esse gênero, publicando textos em jornais, revistas e sites. fonte: http://www.tvcultura.com.br /aloescola/literatura/cronica s/origem.htm dicas rubem braga (1913-1990) foi cronista, poeta, repórter , tradutor e crítico de artes plásticas. escreveu grandes obras como: casa do braga, o conde e o passarinho e t rês primitivos . t ornou-se conhecido do grande público ao escrever crônicas em jornais de grande circulação. por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: "ontem ouvi um sujeito contar uma história...". e eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro. (braga: 1967)  halliday e hassan (1976), em “cohesion in english”, obra clássica sobre o assunto, apresentam o conceito de coesão textual como uma concepção semântica que se refere às relações de sentido existentes no interior do texto e que o definem como texto. embora tratada como relação semântica, os autores afirmam que ela ocorre através do sistema léxico-gramatical. a coesão é, para esses autores, uma relação semântica entre um elemento no texto e um outro elemento que é crucial para sua interpretação. koch (1993) afirma: é possível afirmar , a partir da citação, que a coesão não é condição imprescindível para o estabelecimento da textualidade em um texto. observe o texto abaixo: se é verdade que a coesão não constitui condição necessária nem suficiente para que um texto seja um texto, não é menos verdade, também, que o uso de elementos coesivos dá ao texto maior legibilidade, explicitando os tipos de relações estabelecidas entre os elementos linguísticos que o compõem. canção do exílio simplificada lá? ah! sabiá ... papá ... maná ... sinhá ... cá? bah! josé paulo paes fonte: acd.ufrj.br/pead/tema07/coerenciaecoesao.html figura 25 para refletir</Page><Page Number="51">375 letras/português caderno didático - 1º período a partir da canção do exílio, de gonçalves dias, muitas outras foram escritas, algumas no mesmo tom da primeira, como a de casimiro de abreu, outras num sentido mais satírico, como a de murilo mendes. e esta, de josé paulo paes, que apresenta no título a palavra facilitada, serve para mostrar como um texto pode ser coerente, mesmo que lhe faltem elos coesivos que deveriam ligar as orações. na primeira estrofe, o sentido dos termos colocados em sequência transmite a idéia de que em outra terra tudo é muito bom. lá existem pássaros, alimentos, mulheres, tudo em abundância, esta subentendida nas reticências ao final de cada linha. a segunda e última estrofe, composta apenas de dois versos, exprime toda a decepção do poeta com a terra indicada pelo advérbio cá. a interjeição final - bah - traduz todo o desapontamento do narrador com esta outra terra. a coerência, a unidade de sentido, é percebida pela ordem como foram arranjadas as idéias, cada uma delas sumariamente contida numa única palavra. o que à primeira vista se apresenta como uma lista de palavras aparentemente sem sentido, pois não existe entre elas nenhum elo sintático, acaba por se revelar um texto coerente, em que autor fala de sua terra. canção do exílio minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá; as aves, que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá. nosso céu tem mais estrelas, nossas várzeas têm mais flores, nossos bosques têm mais vida, nossa vida mais amores. em cismar , sozinho, à noite, mais prazer eu encontro lá; minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá. minha terra tem primores, que tais não encontro eu cá; em cismar –sozinho, à noite– mais prazer eu encontro lá; minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá. não permita deus que eu morra, sem que eu volte para lá; sem que desfrute os primores que não encontro por cá; sem qu'inda aviste as palmeiras, onde canta o sabiá.  (dias, gonçalves: 1969) canção do exílio minha terra tem macieiras da califórnia onde cantam gaturamos de veneza. os poetas da minha terra são pretos que vivem em torres de ametista, os sargentos do exército são monistas, cubistas, os filósofos são polacos vendendo a prestações. a gente não pode dormir com os oradores e os pernilongos. os sururus em família têm por testemunha a gioconda. eu morro sufocado em terra estrangeira. nossas flores são mais bonitas nossas frutas mais gostosas mas custam cem mil réis a dúzia. ai quem me dera chupar uma carambola de verdade e ouvir um sabiá con certidão de idade! (mendes, murilo: 1994) dicas você pode ler a poesia de cassimiro de abreu nesse site: http://www.revista.agulha.n om.br/casi.html#cancao</Page><Page Number="52">376 é possível, também, a ocorrência de enunciados que muito embora apresentem sequenciamento coesivo, não cheguem a constituir texto por faltar a textualidade a ser estabelecida pela coerência. ex.: o enunciado é incoerente. há uma contradição ou falta de lógica entre as idéias, muito embora haja coesão marcada pelos mecanismos gramaticais. 3.2.2 fatores pragmáticos da textualidade os cinco fatores pragmáticos da textualidade são noções centradas nos usuários, têm a ver com a atividade de comunicação textual em geral, por parte tanto do produtor quanto do recebedor . a) intencionalidade a intencionalidade revela o esforço feito pelo produtor para estabelecer um discurso coerente e coeso a fim de cumprir o seu objetivo comunicativo em função do receptor . dessa forma, a intenção pode ser informar , impressionar , alarmar , convencer , pedir , defender , etc. a praxe acaba por estabelecer que, numa dada circunstância, tendo-se em mente determinada intenção ilocucional, deve-se compor o texto dessa ou daquela maneira. ex: observe a propaganda. o texto faz referência ao dia dos namorados e sugere que embrulhe o “passarinho” para presente numa cueca zorba. a expressão do passarinho mostra que ele está se sentindo muito bem dentro das cuecas zorba e ele foi desenhado com uma expressão facial que sugere uma mistura de ingenuidade e travessura. quem deve se sentir bem é o homem que usa as cuecas, representado na figura do passarinho. embaixo, há a frase “20 modelos para agradar todo tipo de passarinho”. portanto, o objetivo comunicativo desse anúncio é convencer o leitor de que as cuecas zorba são ideais para dar de presente ou usar no dia dos namorados.                     b) aceitabilidade a aceitabilidade é inerente ao receptor , que analisa e avalia o grau de coerência, coesão, utilidade e relevância do texto capaz de levá-lo a alargar os seus conhecimentos ou de aceitar a intenção do produtor . para “agora há pouco descobri que foram meus pais os remetentes da carta e o que me lembra que a vida para ser vivida intensamente precisa estar coerente com a razão humana.” (rocco: 1981). fonte: http://www.sciarts.org.br/ textos/txtcom_analzorba.asp figura 26 introdução à leitura uab/unimontes</Page><Page Number="53">377 letras/português caderno didático - 1º período tal, ele utiliza as pistas fornecidas pelo produtor , seu conhecimento de mundo, da situação, etc. segundo beaugrande &amp; dressler (1981), apud costa val (2004), a intencionalidade e a aceitabilidade são definidas como concernentes às atitudes, objetivos e expectativas do produtor e do recebedor/leitor , respectivamente. para os autores, produzir um texto que seja considerado coeso e coerente pelo leitor pode ser uma maneira de atingir os objetivos comunicativos desejados, e colaborar na construção da coesão e da coerência do texto do outro pode ser uma maneira de se engajar no projeto comunicativo dele. nesse processo de mão dupla, o produtor conta com a tolerância e o trabalho de inferência do recebedor na construção do sentido do texto. por outro lado, o recebedor , supondo coerência no texto e se dispondo a contribuir para construí-la, se orienta por conhecimentos prévios e partilhados, que são estabelecidos social e culturalmente, sobre os tipos de texto, as ações e metas possíveis em determinados contextos e situações. c) situacionalidade a situacionalidade é responsável pela adequação e relevância do texto ao contexto em que ele ocorre. ela pode ocorrer não só da situação para o texto, que é a interferência da situação comunicativa no processo de produção/recepção, mas também do texto para a situação, que são os reflexos do texto sobre a situação comunicativa. a situacionalidade exerce um relevante papel na construção da coerência, visto que, uma seqüência linguística considerada incoerente em uma situação pode ser coerente em outra. configura-se de elementos contextuais que favorecem a comunicação: espaço geográfico, o tempo, as relações existentes entre os interlocutores, o grau de conhecimento, etc. a adequação do texto à situação sociocomunicativa e ao contexto pode definir o sentido do discurso e, normalmente, orientar tanto a produção, quanto a recepção, afirmam beaugrande e dressler (1983) apud costa val (2004). as placas de trânsito, por exemplo, precisam dar uma informação rápida e eficiente. nesse contexto o objetivo comunicativo não seria atingido caso a informação fosse por meio de um extenso texto escrito. a placa acima quer dizer “junções sucessivas contrárias 1ª à esquerda”. imagina se no lugar da imagem viesse essa inscrição? d) informatividade. a informatividade não é entendida como uma característica do figura 27</Page><Page Number="54">texto em si, mas é avaliada em função das expectativas e conhecimentos dos usuários. a informatividade responde pela suficiência de dados no texto, ou seja, para ter informatividade, o texto tem que apresentar todas as informações necessárias, para que seja compreendido com o sentido que o produtor pretende. responde pelo grau de previsibilidade nas ocorrências no plano conceitual e no formal. a presença de apenas informação esperada / prevista em um texto faz com que ele tenha um baixo grau de informatividade, pois o que é informado torna-se óbvio para o leitor , não atingindo, assim, nenhum propósito comunicativo. se, por outro lado, ele contiver apenas informação inesperada, poderá parecer incoerente para o receptor , dificultando-lhe a compreensão. para beaugrande &amp; dressler (1983) apud costa val (2004), informatividade tem a ver com grau de novidade e previsibilidade: quanto mais previsível, menos informativo será o texto para determinado usuário, porque acrescentará pouco às informações que o recebedor já tinha antes de processá-lo. e vale também o inverso: quanto mais cheio de novidades, mais informativo. um determinado texto. isso quer dizer que os leitores tendem a rejeitar tanto os textos que têm, para eles, informatividade alta demais, porque são muito difíceis (ou impossíveis) de serem entendidos, quanto aqueles que lhes parecem óbvios, porque pouco lhes acrescentam. os autores afirmam que um grau mediano de informatividade seria o mais confortável, porque permitiria ao recebedor apoiar-se no conhecido para processar o novo. por outro lado, para os autores, funcionaria melhor um texto que alternasse passagens de baixa informatividade com passagens de alta informatividade, porque, no processamento desse texto, o recebedor teria que agir no sentido de alçar ou rebaixar informações, levando-as ao nível mediano, para integrá-las no sentido que está produzindo para o texto, e esse trabalho o manteria envolvido com o texto, interessado no texto. conclui-se, pois, que a informatividade não é pensada como característica absoluta nem inerente ao texto em si, mas como um fator a ser considerado em função dos usuários e da situação em que o texto ocorre. e) intertextualidade. costa val (2004) afirma que a intertextualidade mostra a interdependência dos textos entre si, tendo em vista que um texto só faz sentido quando é entendido em relação a outro texto. segundo a autora, “um discurso vem ao mundo numa inocente solitude, mas constrói-se através de um já-dito em relação ao qual ele toma posição”. ou seja, alguns textos só fazem sentido quando postos em relação a outros textos, que funcionam como seu contexto. desta forma, avaliar a 378 introdução à leitura uab/unimontes</Page><Page Number="55">379 letras/português caderno didático - 1º período intertextualidade pode significar analisar a presença dessa fala subliminar , de todos e de ninguém, nos textos estudados. como diz koch, essa “(inevitável) presença do outro naquilo que dizemos ou escrevemos”, ou seja, a intertextualidade, é um recurso argumentativo que pode estar explícito ou implícito, mas que certamente requer a ativação do texto-fonte na mente do leitor no intuito de orientar a compreensão daquilo que se lê. normalmente é possível destacar oito tipos de intertextualidade: ? epígrafe: constitui uma escrita introdutória a outra. normalmente aparece nas páginas opcionais de projetos, dissertações, teses, livros, artigos e em outros trabalhos acadêmicos. ? citação: é uma transcrição do texto alheio, geralmente marcada por aspas. ? paráfrase: é a reprodução do texto do outro com a palavra do autor . ela não se confunde com o plágio, pois o autor deixa claro sua intenção e a fonte. ? pastiche: o pastiche é uma recorrência a um gênero pode ser plágio, por isso tem sentido pejorativo. no classicismo era prática comum a ocorrência de pastiche o que não consistia desprestígio ou violação de direitos uma vez que a questão da originalidade e da autenticidade nas artes nasceu com o romantismo, cuja concepção artística era que a obra expressasse a subjetividade do autor . o pastiche insiste na norma a ponto de esvaziá-la, como acontece com o dramalhão, que leva o gênero drama às últimas consequências. ? t radução: implica em recriação de um texto. ? referência/alusão: machado de assis é mestre nesse tipo de intertextualidade. ele foi um escritor que visualizou o valor desse artifício no romance bem antes do modernismo. no romance dom casmurro, ele cita otelo, personagem de shakespeare, para que o leitor analise o drama de bentinho. ? paródia: é uma forma de apropriação do texto alheio em o autor , no lugar de endossar o modelo retomado, rompe com ele, sutil ou abertamente. ela perverte o texto anterior , visando à ironia ou à crítica. vimos que todo texto, seja ele literário ou não, é oriundo de outro, seja direta ou indiretamente. qualquer texto que faz referência a um assunto abordado em outros textos é exemplo de intertextualidade. como diz koch (2004:145), a “(inevitável) presença do outro naquilo que dizemos ou escrevemos”, ou seja, a intertextualidade é um recurso argumentativo que pode estar explícito ou implícito, mas que certamente requer a ativação do texto-fonte na mente do leitor no intuito ilustrando a intertextualidade e a b g glossário f c epígrafe: (do grego epi  em posição superior graphé  escrita) constitui uma escrita introdutória de outra. t odas as unidades do nosso caderno são introduzidas por uma epígrafe. dicas você terá oportunidade de estudar as diferentes formas de fazer citação na disciplina metodologia científica no 2º período do curso. aguarde!! dicas maiores detalhes sobre classicismo e romantismo você terá oportunidade de estudar na disciplina literatura em períodos subseqüentes do curso.</Page><Page Number="56">380 introdução à leitura uab/unimontes de orientar a compreensão daquilo que se lê. nos exemplos a seguir , percebe-se, claramente, que um dos objetivos dos produtores desses textos é que o leitor/ouvinte seja capaz de reconhecer a presença do intertexto pela ativação do texto-fonte em sua memória discursiva. assim, a construção dos sentidos estará parcialmente garantida pelo reconhecimento do texto-fonte que deu origem ao novo texto. no primeiro exemplo, um dos objetivos de maurício de sousa é mostrar o “grande dilema existencial” que a comilona personagem magali vive: comer ou não comer , eis a questão! a capa do gibi remete o leitor , imediatamente, ao texto-fonte: hamlet, de w. shakespeare: “t o be or not to be, that's the question!”, ou seja, “ser ou não ser , eis a questão!”. no s egundo exemp l o , o quadrinho de fernando gonsales – níquel náusea – retoma a fábula “a cigarra e a formiga”, por meio de uma paródia. o leitor necessita reconhecer o texto original para compreender a tirinha e perceber o humor . no terceiro exemplo, o anúncio publ i c i tár io ut i l i za a expr essão idiomática “ter o rei na barriga”, sugerindo que a mulher gestante ofereça ao seu bebê, a quem ela considera a pessoa mais importante (“rei”), produtos da marca e qualidade lillo. é impor tante ressal tar a diversidade de gêneros textuais presentes nos exemplos em análise: hq, capa de gibi, anúncio publicitário, fábula, dito popular e teatro clássico. isso comprova que os textos veiculados fonte: http://www.faccar .com.br/desletras/hist/ 2005_g/2005/textos/005.html figura 28 fonte: http://www.faccar .com.br/desletras/hist/2005_g/2005/textos/005.html figura 29 fonte: http://www.faccar .com.br/ desletras/hist/2005_g/2005/textos/005.html figura 30</Page><Page Number="57">381 letras/português caderno didático - 1º período socialmente requerem do leitor conhecimentos anteriores e que interajamos por meio de diversos gêneros discursivos. vejamos um exemplo de intertextualidade presente na pintura, mais precisamente as várias versões da famosa pintura de leonardo da vinci, mona lisa. note a original, primeira à esquerda e as demais, em que outros autores fizeram intertextualidade por meio da paródia.   um outro exemplo de paródia pode ser observado no poema de carlos drummond de andrade “no meio do caminho”, parodiado do soneto “nel mezzo del camin”, de olavo bilac que, por sua vez, remete ao primeiro verso da divina comédia, de dante alighiere: "nel mezzo del camin de nostra vita". drummond parodiou o título e imitou o esquema retórico do soneto de bilac, ou seja, em vez de parodiar o significado, promoveu uma paródia na forma: empenhou-se na imitação irônica da estrutura, reproduzindo apenas o quiasmo (repetição invertida) do texto. figura 31: mona lisa, leonardo da vinci. óleo sobre tela, 1503 figura 32: mona lisa, de marcel duchamp, 1919. figura 33:mona lisa, fernando botero, 1978 figura 34: mona lisa, propaganda publicitária fonte: wikipédia, a enciclopédia livre - http://pt.wikipedia.org/. no meio do caminho carlos drummond de andrade no meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra. nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas. nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho no meio do caminho tinha uma pedra. fonte: http://www.portrasdasletras.com.br/</Page><Page Number="58">382 introdução à leitura uab/unimontes a tradução de um texto literário implica em recriação, por isso, ela está no campo da intertextualidade. no artigo intertextualidade: um rio com discurso, o professor hélio consolaro, trabalha o seguinte poema de edgar a. poe: agora, vamos ler o mesmo poema traduzido por dois escritores da língua portuguesa. nel mezzo del camin olavo bilac cheguei. chegaste. vinhas fatigada e triste, e triste e fatigado eu vinha. tinhas a alma de sonhos povoada, e a alma de sonhos povoada eu tinha... e paramos de súbito na estrada da vida: longos anos, presa à minha a tua mão, a vista deslumbrada tive da luz que teu olhar continha. hoje, segues de novo... na partida nem o pranto os teus olhos umedece, nem te comove a dor da despedida. e eu, solitário, volto a face, e tremo, vendo o teu vulto que desaparece na extrema curva do caminho extremo. once upon a midnight dreary, while i ponde-red weak ande weary over many a quaint and curious volume of for-got- tem lore, while i modded, neraly napping, su-ddenly there came a tapping, as of some one gently rapping, rapping at may chamber door only this and nothing more. (edgar a. poe) numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste, vagos curiosos tomos de ciências ancestrais, e já quase adormecia, ouvi o que parecia o som de alguém que batia levemente a meus umbrais uma visita' eu me disse, 'está batendo a meus umbrais e só isto, e nada mais. numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste, vagos curiosos tomos de ciências ancestrais, e já quase adormecia, ouvi o que parecia o som de alguém que batia levemente a meus umbrais uma visita' eu me disse, 'está batendo a meus umbrais e só isto, e nada mais. t radução de fernando pessoa</Page><Page Number="59">383 letras/português caderno didático - 1º período hélio consolaro explica que “o poema é o mesmo, mas machado de assis traduziu do francês para o português, enquanto fernando pessoa partiu direto do inglês, por isso as traduções ficaram bem diferentes, embora a essência dele continue nos dois textos traduzidos”. quanto à paráfrase, um bom exemplo é o poema “oração” de jorge de lima. observe que o autor retoma explicitamente a oração ave maria e mantém-se fiel a ela, justapõe a figura de maria à da sua mãe, refere-se à hora do ângelus. em certo dia, à hora, à hora da meia-noite que apavora, eu caindo de sono e exausto de fadiga, ao pé de muita lauda antiga, de uma velha doutrina, agora morta ia pensando, quando ouvi à porta do meu quarto um soar devagarinho e disse estas palavras tais: 'é alguém que me bate à porta de mansinho: há de ser isso e nada mais'. t radução de machado de assis oração jorge de lima    “- ave maria cheia de graças...”    a tarde era tão bela, a vida era tão pura,    as mãos de minha mãe eram tão doces,    havia, lá no azul, um crepúsculo de ouro... lá longe...    “- cheia de graça, o senhor é convosco, bendita!”    bendita!    os outros meninos, minha irmã, meus irmãos    menores,    meus brinquedos, a casaria branca de    minha terra, a burrinha do vigário    pastando    junto à capela... lá longe...    ave cheia de graça    - ...”bendita sois entre as mulheres, bendito é o    fruto do vosso ventre...”    e as mãos do sono sobre os meus olhos,    e as mãos de minha mãe sobre o meu sonho,    e as estampas de meu catecismo    para o meu sonho de ave!    e isto tudo tão longe... tão longe... fonte: http://www.portrasdasletras.com.br ainda neste período você estudará intertextualidade na disciplina introdução à t eoria da literatura. aproveite bem as noções aqui estudadas para fazer a interdisciplinaridade. vale dizer que: “na literatura, a intertextualidade é uma constante, porque cada estilo de época se opõe ao anterior e retoma parte da estética passada. exemplos: o classicismo retomou a antigüidade clássica, assim fez também o arcadismo e o parnasianismo. o realismo combatia os excessos do romantismo, já este contrariava o formalismo dos clássicos”. hélio consolaro. http://www.portrasdasletras. com.br dicas</Page><Page Number="60">384 introdução à leitura uab/unimontes referências braga, rubem. a traição das elegantes. rio de janeiro: editora sabiá, 1967. costa val, maria da graça. redação e textualidade. 2. ed. são paulo: martins fontes, 2004. costa val, maria da graça. redação e textualidade. são paulo: martins fontes, 1999. dias, gonçalves. poesia. são paulo: agir , 1969. coleção nossos clássicos. halliday , m. a.; mcintosh, a. &amp; strevens, p . cohesion in english. london: longman, 1976. koch, ingedore grunfeld villaça; travaglia, luiz carlos. t exto e coerência. 5. ed. são paulo: cortez, 1997. koch, ingedore villaça. a coerência textual. 6. ed. são paulo: contexto, 1993. coleção repensando a língua portuguesa. marcuschi, luiz antonio. linguística do t exto: o que é, como se. faz. recife: universidade federal de pernambuco, 1983. mendes, murilo. poesia completa e prosa. (org.) luciana stegagno picchio. rj: nova aguilar , 1994. ricardo, cassiano. poesias completas. rio de janeiro: josé olímpio, 1957. rocco, maria thereza fraga. crise na linguagem: a redação no vestibular . são paulo: mestre fiorin, josé luiz; savioli, francisco platão. lições de texto: leitura e redação. 4 ed. são paulo: ática, 2004. fiorin, josé luiz; savioli, francisco platão. para entender o texto: leitura e redação. 11. ed. são paulo: ática, 1995. http://acd.ufrj.br/pead/tema07/coerenciaecoesao.html, consultado em out/2008. http://revistaescola.abril.com.br/edicoes/0206/aberto/palavras_novas.doc , consultado em out/2008. http://www.blognoticia.blogger .com.br , consultado em out/2008. http://www.portrasdasletras.com.br/, consultado em out/2008. http://www.revista.agulha.nom.br/casi.html#cancao, consultado em out/2008. http://www.tvcultura.com.br/aloescola/literatura/cronicas/origem.htm, consultado em out/2008.</Page><Page Number="61">4 unidade 4 o conhecimento prévio na leitura um leitor mais experiente percebe as palavras globalmente e advinha muitas outras, guiado pelo seu conhecimento prévio e por suas hipóteses de leitura. luiziana rezende parabéns! grandes desafios já foram vencidos. vamos ampliar nossos conhecimentos? seja bem vindo à unidade iv . apresentação da unidade considerando que uma boa leitura requer do leitor a utilização de conhecimentos adquiridos ao longo da vida. conhecimentos esses que se interagem proporcionando a compreensão do texto e não somente a sua decodificação, nessa unidade enfatizamos a importância do conhecimento prévio para a compreensão dos textos que lemos. são abordados os conhecimentos linguísticos, o conhecimento textual e o conhecimento de mundo de uma forma explicativa e ilustrada para facilitar o entendimento. sucesso! objetivos ? reconhecer a multiplicidade de processos cognitivos que constituem a atividade em que o leitor se engaja para construir o sentido de um texto escrito. ? aprimorar a própria capacidade de leitura para facilitar as ações na sociedade essencialmente escrita em que vivemos. ? adquirir subsídios para tornar-se um eficiente formador de leitores, preparando-se para uma educação de qualidade. ? demonstrar competência para a ativação de conhecimentos prévios na leitura de textos. 4.1 conhecimento prévio koch e t ravaglia (1997), ao se referirem à coerência, afirmam que uma multiplicidade de fatores (linguísticos, discursivos, cognitivos culturais e interacionais) concorrem para sua construção. correspondente a essa afirmação, kleiman (1989) quando diz que a leitura é um processo 385</Page><Page Number="62">interativo, pois resulta da interação de diversos níveis de conhecimentos, denomina o conjunto de conhecimentos que os sujeitos adquirem ao longo de suas vidas e que desempenham papel importante na compreensão do texto de conhecimento prévio, afirmando que ele pode ser linguístico textual e de mundo. sem o conhecimento de mundo sobre contos de fadas, não conseguiríamos fazer uma boa leitura da tirinha. ela nos remete ao fato de que as bruxas podem transformar alguém em sapo, ao mesmo tempo em que nos faz pensar que somente as princesas são capazes de transformar um sapo em príncipe. ou seja, a partir desse conhecimento de mundo em relação aos contos de fadas, podemos inferir que a namorada do personagem pode ser uma bruxa por tê-lo transformado em sapo ou por não ter conseguido transformá-lo em príncipe. 4.2 conhecimento prévio e leitura já vimos que a leitura não pode ser concebida única e exclusivamente como um processo de decodificação, pois a decodificação, não é o suficiente para que a compreensão se concretize. scott (1983), afirma: a leitura não é a habilidade de decodificar palavras, mas sim de se extrair o significado, o implícito e explícito do texto escrito. é um processo seletivo e ao mesmo tempo, um jogo de adivinhação psico-linguístico que envolve uma interação entre pensamento e linguagem. neste sentido, autor e leitor se interagem mediados pelo texto,atribuindo-lhe significados. koch afirma: a atividade de interpretação do texto deve sempre fundar-se na suposição de que o produtor tem determinadas intenções e de que uma compreensão adequada exige, justamente, a captação dessas intenções por parte de quem lê: é preciso compreender-se o querer dizer como um querer fazer . (koch, 2002 - 160). atividades antes de seguir a leitura do texto, pare e leia atentamente a tirinha. quais conhecimentos prévios ela exige do leitor para que seja entendida? figura 35 386 introdução à leitura uab/unimontes</Page><Page Number="63">dizemos então, que a leitura é um processo cognitivo que depende da participação do leitor , que atua dotado de sua própria “bagagem” cultural, participando também da construção do significado. nessa relação, o leitor torna-se participante da interação comunicativa que ocorre porque a leitura não se configura como um processo passivo. por exigir descoberta e re-criação, a leitura coloca-se como produção e sempre supõe trabalho do sujeito-leitor que, além de partilhar e (re)criar referenciais de mundo, transforma-se num produtor , em virtude da perspicácia da compreensão e de sua consciência crítica. sendo assim, o processo de leitura pressupõe a elaboração de hipóteses (previsões a respeito do texto) e o leitor observa os recursos visuais, gráficos e sonoros (título, ilustração, gráfico, silhueta, tipo de letra etc.), levanta uma série de hipóteses e começa a testá-las. para kleiman, (...) leitura implica uma atividade de procura pelo leitor , no seu passado de lembranças e conhecimentos, daqueles que são relevantes à compreensão de um texto, que fornece pistas e sugere caminhos, mas que certamente não explicita tudo o que seria possível explicitar . (kleiman, 1989:27), 4.2.1 conhecimentos linguísticos os conhecimentos linguísticos são os conhecimentos referentes à língua e que servem como pistas para ativação dos conhecimentos armazenados na memória. koch e t ravaglia (1999), afirmam que eles constituem o ponto de partida para a elaboração de inferências, ajudam a captar a orientação argumentativa dos enunciados. segundo os autores:  o conhecimento linguístico é o conhecimento de uso da língua nativa que cada indivíduo tem. se falamos melhor o português do que outra língua, leremos melhor em português do que em outra língua. t endo em vista essas considerações sobre conhecimento prévio e leitura, vejamos cada tipo de conhecimento. a ordem de apresentação desses elementos, o modo como se inter-relacionam para veicular sentidos, as marcas usadas para esse fim, as “famílias” de significação a que as palavras pertencem, os recursos que permitem retomar coisas já ditas e/ou apontar para elementos que serão apresentados posteriormente, enfim, todo o contexto linguístico o ou - co-texto – vai contribuir de maneira ativa na construção da coerência.(koch e travaglia.1999. p. 59). diz a lenda que rui barbosa, um dia, ao chegar a casa, ouviu um barulho estranho vindo do seu quintal. chegando lá, constatou haver um ladrão tentando levar seus patos de criação. aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, 387 letras/português caderno didático - 1º período</Page><Page Number="64">fica evidente que o ladrão não entendeu nada do que foi dito. 4.2.2 conhecimento textual o conhecimento textual diz respeito ao conhecimento dos diversos tipos de textos existentes e ao conhecimento de suas estruturas e formas de discurso, bem como de seus usos.  é o conhecimento textual que permite identificar a estrutura do texto cujo discurso pode ser classificado, por exemplo, em narrativo, descritivo e argumentativo. de acordo com essas marcas formais, o leitor se dispõe a ler ou não o texto. assim, muitas vezes os objetivos do leitor são determinados pelos tipos formais de textos. costuma-se dizer que saber ler somente um tipo e/ou gênero textual, não é um saber ler eficiente. além de reconhecer as marcas que diferenciam um texto de outro, o leitor precisar saber ler qualquer tipo de texto. ex: leia o texto novamente e reescreva-o de maneira que você acredita que o ladrão entenderia o que o escritor teria dito. atividades atividades leia os dois textos e reflita: qual a temática? em que eles se parecem? quais são as diferenças entre eles? em qual situação comunicacional cada um deles pode ser usado? surpreendendo-o ao tentar pular o muro com seus amados patos, disse-lhe: ___oh, bucéfalo anácrono! não o interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo ato vil e sorrateiro de profanares o recôndito de minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. se fazes isso por necessidade, transijo; mas se é para zombares da minha elevada prosopopéia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com minha bengala fosfórica bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à qüinquagésima potência que o vulgo denomina nada. e o ladrão confuso disse: ___doutor , eu levo ou deixo os patos? (damião, r. t .; henriques, a. 2000). decidi escrever-te uma carta de amor com as lágrimas que por ti derramo, com o coração que se desfaz aos poucos quando meus olhos dos teus sentem falta. amor meu coração já não consegue esconder nem sequer expressar o que sente por ti, aos poucos tua amizade cresceu, sorriu, venceu e em meu peito assentou como um colibri que pousa numa flor em busca do néctar . fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid23101 388 introdução à leitura uab/unimontes</Page><Page Number="65">389  ame logo aqui estou ainda que ferido a sua espera de abertos braços, coração rasgado, com um amor louco para ser dado, com força capaz de transpor esta era. encontrará no meu ninho anjo e fera. um homem, um amigo, namorado... quem sabe aquele mesmo outro amado... que está nos seus sonhos, oh minha bela! “não” a conheço ainda, mas já a quero forte. venha rápido como um vento do norte e de mim se aposse, minha senhora. não me deixe esperar mais, é você mesma que será meu amor , você que me queira. ame logo, meu brilho, minha aurora...! márcio adriano moraes 4.2.3 conhecimento de mundo o conhecimento de mundo, também conhecido como enciclopédico, trata-se do embasamento cultural, dos conhecimentos que cada um vai acumulando no cotidiano, nas experiências, vivências e aprendizagens. kleiman (1989) observa que "a leitura implica numa atividade de procura do leitor , no seu passado de lembranças e conhecimentos e sugere caminhos, mas que certamente não explicita tudo o que seria possível explicitar". assim, o que orienta o leitor , então, não é mais o sentido do texto, mas a direção e a elaboração do seu pensamento e a sua imagem do mundo estruturada através de esquemas na memória que determinam suas expectativas sobre a ordem natural das coisas. para realizar uma leitura eficiente, o leitor precisa compartilhar das informações que o autor empregou e aliar a própria visão de mundo à letras/português caderno didático - 1º período</Page><Page Number="66">390 realidade transmitida pelo texto. a cada leitura realizada, mais conhecimento prévio o leitor armazena, o que favorece a construção de sentidos dos textos. koch e t ravaglia (1999), afirmam que o conhecimento de mundo é adquirido à medida que vivemos, tomando contato com o mundo que nos cerca e experienciando fatos diversificados e que eles vão sendo armazenados na memória em blocos (conjuntos de conhecimentos) denominados modelos cognitivos. os autores citam cinco tipos de modelos cognitivos: ? os frames: blocos de conhecimentos armazenados sem ordenação: ex: para o frame restaurante (garçon, refeição, talheres, jantar ...); ? os esquemas: blocos de conhecimentos armazenados em seqüência causal ou temporal. ? os planos: bloco de conhecimentos sobre como agir para atingir determinado objetivo; ? os scripts: bloco de conhecimentos pré-determinados por exemplo rituais religiosos, formas de cortesia ou práxis jurídicas. ? as superestruturas ou esquemas textuais: blocos de conhecimentos referentes a tipos de textos. figura 36 introdução à leitura uab/unimontes</Page><Page Number="67">391 4.2.4 conhecimento partilhado um aspecto relevante no modo de interagir com um texto é o conhecimento partilhado entre autor (texto) e leitor . para realizar uma leitura eficiente, o leitor precisa compartilhar das informações que o autor empregou e aliar a própria visão de mundo à realidade transmitida pelo texto. sendo assim, mesmo que seja praticamente impossível assimilar conhecimentos de uma mesma forma, no caso de produtor e receptor de textos, é preciso que uma parcela dos conhecimentos adquiridos previamente e armazenados na memória seja comum a ambos. sobre conhecimento partilhado, koch e t ravaglia (1990.p. 64), afirmam: “os elementos textuais que remetem ao conhecimento partilhado entre os interlocutores constituem a informação “velha” ou dada, ao passo que tudo aquilo que for introduzido a partir dela constituirá a informação nova trazida pelo texto”. disso decorre que, para que um texto seja coerente é necessário que haja um equilíbrio entre informação dada e informação nova. a necessidade desse equilíbrio é porque se em um texto todas as informações são novas, ele se torna inteligível para o receptor que não o processará cognitivamente. por outro lado, se o texto contém apenas informações dadas, será considerado redundante e não preencherá o propósito comunicativo. para koch e t ravaglia (1990.p. 64), são consideradas informações dadas, aquelas que: ? aquelas que fazem parte do contexto situacional, isto é, da situação em que se realiza o ato de comunicação; ? aquelas que são de conhecimento geral em dada cultura; ? as que remetem ao conhecimento comum do produtor e do receptor . inferências ao utilizarmos os nossos conhecimentos de mundo na leitura de um texto, realizamos o que koch e t ravaglia (1990.p.65), chamam de inferência. os autores afirmam: ? constituem o co-texto, isto é, são recuperáveis a partir do próprio texto; quase todos os textos que lemos ou ouvimos exigem que façamos uma série de inferências para podermos compreendê-los integralmente. se assim não fosse [...]. na verdade, todo texto assemelha-se a um iceberg – o que fica à tona, isto é, o que é explicitado no texto é apenas uma pequena parte daquilo que fica submerso, ou seja, implicitado. compete, portanto, ao receptor ser capaz de atingir os diversos níveis de implícito, se quiser alcançar uma compreensão mais profunda do texto que ouve ou lê. (koch e travaglia, 1990, p.65) letras/português caderno didático - 1º período</Page><Page Number="68">referências kleiman, ângela. t exto e leitor: aspectos cognitivos da leitura. campinas: ática, 1989. damião, r. t .; henriques, a. curso de português jurídico. são paulo: atlas, 2000. koch, ingedore grunfeld villaça; travaglia, luiz carlos. t exto e coerência. 5. ed. são paulo: cortez, 1997. koch, ingedore villaça. a coerência textual. 6. ed. são paulo: contexto, 1993. coleção repensando a língua portuguesa. moraes, márcio adriano. ame logo. o norte. montes claros, 06 set. 2008. scott , michael. lendo nas entrelinhas. cadernos puc, nº. 16, 1983.p.101-24. http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid23101, consultado em out/2008. 392 introdução à leitura uab/unimontes</Page><Page Number="69">393 5 unidade 5 linguagem e leitura apresentação da unidade como já vimos até aqui, é possível afirmar que um texto apresenta várias possibilidades de leitura, entretanto, certamente não é qualquer possibilidade. certas interpretações se tornarão inaceitáveis se não forem observadas a coerência e a coesão entre os seus vários elementos, garantidas especialmente pelos fatores de textualidade. nessa unidade, serão tecidos comentários sobre as variadas possibilidades de leitura de um t exto. como recursos auxiliares a uma boa leitura, são apresentadas noções teóricas e atividades práticas referentes à denotação e conotação, sobre figuras de linguagem, metáfora e metonímia, funções da linguagem e sobre variação linguística. objetivos ? entender a variação linguística como característica da não uniformidade das línguas e como decorrente de fatores tais como o tempo, o espaço, o nível cultural e a situação em que um indivíduo se manifesta verbalmente; ? entender o caráter polissêmico das palavras da língua portuguesa; e ? destacar a importância do conhecimento de peculiaridades inerentes à língua para a boa a leitura de textos. 5.1 as possibilidades de leitura de um texto vamos ler a seguinte adaptação de uma fábula de esopo: a tartaruga e a lebre ? exercitar a habilidade de perceber os sentidos denotativo e conotativo no processo de leitura; arte: rogério doki / uol fonte: http://criancas.uol.com.br/historias/fabulas/noflash/lebre.jhtm</Page><Page Number="70">394 introdução à leitura uab/unimontes o primeiro ponto que devemos questionar quando lemos uma fábula é: trata-se de uma história de animais ou de gente? estudamos na escola, e lemos em textos e livros, que as fábulas são narrativas alegóricas, em prosa ou verso, cujos personagens são geralmente animais ou coisas. sua peculiaridade reside fundamentalmente na apresentação direta das virtudes e defeitos do caráter humano, ilustrados pelo comportamento antropomórfico dos animais. logo, a resposta para a pergunta inicial seria: trata-se de uma história de homens. mas como os estudiosos inferiram tais apontamentos? ao analisar a estruturas dessas histórias, eles concluíram que nos textos das fábulas há uma reiteração de traços semânticos, de elementos que compõem o significado das palavras e que nos obriga a ler o texto de uma determinada maneira. na fábula a tartaruga e a lebre, temos como personagens os dois animais do título, que poderia nos fazer pensar que se trata de um texto figura 37</Page><Page Number="71">395 letras/português caderno didático - 1º período sobre animais. no entanto, a eles são atribuídas atitudes próprias dos seres humanos (dizer , desafiar , aceitar , vencer , responder , aplaudir), qualidades e estados exclusivos dos homens (se gabar , mostrar desprezo, persistência, comemoração), formas de tratamento utilizadas nas interações interpessoais (ninguém, eu, você). t ais recorrências ao traço semântico humano desencadeiam um novo plano de leitura. se à primeira vista o plano de leitura é história de animais, à medida que elementos com o traço humano aparecem e se repetem, não se pode mais tomar o texto como uma narrativa de bichos. esses elementos impulsionam a um outro plano de leitura: uma história de homens. nesse novo plano, a lebre é o homem que se gaba de suas habilidades ou posses, subestima os que ele considera inferiores e acredita que ter uma habilidade ou bens basta para se conseguir êxito. e a tartaruga representa as pessoas que mesmo não tendo grandes habilidades ou recursos, são persistentes e perseverantes e, por isso, logram êxito em suas atividades. a reiteração de traços semânticos é que estabelece quais leituras devem ou podem ser feitas de um texto. portanto, a leitura não tem origem na intenção do leitor em interpretar o texto, mas está inscrita no texto e pode ser visualizada, como uma possibilidade. mas talvez seja cabível o questionamento: então um texto não pode aceitar múltiplas leituras? esse é um fator relevante. sim, o texto pode admitir várias interpretações, mas não todas ou qualquer uma. são inaceitáveis as leituras que não estiverem de acordo com os traços de significado recorrentes ao longo do texto. há textos que possibilitam mais de uma leitura, nos quais as mesmas figuras têm mais de uma interpretação segundo o plano de leitura em que forem analisados. as anedotas, as frases maliciosas, de duplo sentido, os textos humorísticos jogam com dois planos de leitura. neles, lê-se o que pertence a um plano em outro. veja, por exemplo: releia a fábula e responda: qual leitura possível de se fazer não estaria coerente com a reiteração dos traços semânticos do texto? atividades a luva e a calcinha um jovem estudante, ao passar em uma loja em são paulo, resolveu comprar um belo par de luvas para enviar a sua jovem namorada, ainda virgem, de família tradicional minei ra, a quem mui to respeitava. na pressa de embrulhar , a moça da loja cometeu um 'pequeno' engano, trocando as luvas por uma calcinha! o jovem, não notando a troca, enviou o presente via sedex junto com a seguinte carta: são paulo, 30 de maio de 2005. querida , sabendo que dia 12 próximo é o dia dos namorados,</Page><Page Number="72">396 introdução à leitura uab/unimontes resolvi te mandar este presentinho. embora eu saiba que você não costuma usar (pelo menos eu nunca te vi usando uma), acho que vai gostar da cor e do modelo, pois a moça da loja experimentou e, pelo que vi, ficou ótima. apesar de um pouco larga na frente, ela disse que é melhor assim do que muito apertada, pois a mão entra com mais facilidade e os dedos podem se movimentar à vontade. depois de usá-la, é bom virar do avesso e colocar um pouco de talco para evitar aquele odor desagradável. espero que goste, pois vai cobrir aquilo que breve irei pedir ao teu pai, além de proteger o local em que colocarei aquilo que você tanto sonha. um beijo (no lugar onde você irá usar o meu presente). ps: não espere eu retornar para estreá-la. quero que todos os meus amigos vejam você com ela. e depois esfregue na cara daquelas suas amigas invejosas, pois eu nunca vi nenhuma delas usando nada igual. fonte: http://fwd.urlcurta.com/a-luva-e-a-calcinha/ observe que, nesse texto, várias expressões serão inferidas em dois sentidos diferentes. quando o jovem escreve na carta “você não costuma usar”, “a moça da loja experimentou”, “um pouco larga na frente”, “é bom virar ao avesso” etc., ele se refere ao presente que escolheu: uma luva. entretanto, a namorada, quando receber o presente, entenderá que esses mesmos termos se referem à calcinha. os dois planos de leitura estão bem evidentes: no primeiro plano o sentido é construído com a idéia de que o presente comprado pelo noivo foi uma luva. entretanto, como a vendedora trocou o presente por uma calcinha, o plano de leitura que a namorada fará será de que as construções foram feitas relativas à calcinha. um caso bem particular , são os textos, poemas e músicas compostos durante o período de ditadura militar no brasil. para burlar a censura, os autores produziram textos que, aparentemente, falam de um tema, mas que trazem consigo elementos de protesto contra a situação política do país. leia a música abaixo: cálice gilberto gil/chico buarque – 1973 pai, afasta de mim esse cálice pai, afasta de mim esse cálice pai, afasta de mim esse cálice de vinho tinto de sangue fonte: http://www.chicobuarque.com.br/letras/calice_73.htm</Page><Page Number="73">397 letras/português caderno didático - 1º período como beber dessa bebida amarga t ragar a dor , engolir a labuta mesmo calada a boca, resta o peito silêncio na cidade não se escuta de que me vale ser filho da santa melhor seria ser filho da outra outra realidade menos morta t anta mentira, tanta força bruta como é difícil acordar calado se na calada da noite eu me dano quero lançar um grito desumano que é uma maneira de ser escutado esse silêncio todo me atordoa atordoado eu permaneço atento na arquibancada pra a qualquer momento ver emergir o monstro da lagoa de muito gorda a porca já não anda de muito usada a faca já não corta como é difícil, pai, abrir a porta essa palavra presa na garganta esse pileque homérico no mundo de que adianta ter boa vontade mesmo calado o peito, resta a cuca dos bêbados do centro da cidade t alvez o mundo não seja pequeno nem seja a vida um fato consumado quero inventar o meu próprio pecado quero morrer do meu próprio veneno quero perder de vez tua cabeça minha cabeça perder teu juízo quero cheirar fumaça de óleo diesel me embriagar até que alguém me esqueça cálice foi escrita em 1969 por chico buarque e gilberto gil, quando ambos estavam exilados. é um claro exemplo das tentativas de diversos artistas e intelectuais de burlar a intensa censura cultural que se estendeu durante o período da ditadura militar no brasil. o título já carrega consigo uma tentativa de camuflar a real mensagem. no decorrer da música o autor apresenta cálice em sua forma literal, como um recipiente usado – principalmente – para se beber vinho, delineando o plano de sentido do texto como uma prece de lamentação. com uma leitura mais cuidadosa pode-se perceber que, na verdade, a palavra possui a mesma sonoridade de “cale-se”, do verbo calar , que estaria se referindo a censura presente no período ditatorial, e que desencadeia um outro plano de leitura: o do protesto. portanto, no verso “pai, afasta de mim esse cálice [cale-se]”, o autor está, na verdade,</Page><Page Number="74">398 introdução à leitura uab/unimontes bradando sua indignação pelo fato de que, na ditadura houve a tentativa que calar os que falavam a verdade ou os que tentaram expressar sua opinião. um texto pode ter várias leituras e também jogar com leituras distintas para criar o efeito desejado. entretanto, o leitor não pode atribuir-lhe o sentido que bem entender . “o leitor cauteloso abandona interpretações que não estejam apoiadas no textos e em suas recorrências” (platão &amp; fiorin: 2004). 5.2 denotação e conotação estes dois conceitos são muito fáceis de entender se nos lembrarmos que duas partes distintas, mas interdependentes, constituem o signo linguístico: o significante ou plano da expressão - uma parte perceptível, constituída de letras e sons - e o significado ou plano do conteúdo - a parte inteligível, o conceito. por isso, numa palavra que ouvimos, percebemos um conjunto de letras e sons (o significante), que nos faz lembrar de um conceito (o significado). a denotação é justamente o resultado da união existente entre o significante e o significado, ou entre o plano da expressão e o plano do conteúdo. a conotação resulta do acréscimo de outros significados paralelos ao significado de base da palavra, isto é, um outro plano de conteúdo pode ser combinado ao plano da expressão. este outro plano de conteúdo reveste-se de impressões, valores afetivos e sociais, negativos ou positivos, reações psíquicas que um signo evoca. assim sendo, o sentido conotativo difere de uma cultura para outra, de uma classe social para outra, de uma época a outra. por exemplo, as palavras professor , instrutor e docente denotam praticamente a mesma coisa, mas têm conteúdos conotativos diversos, principalmente se pensarmos no prestígio que cada uma delas evoca. a palavra tem valor referencial ou denotativo quando é tomada no seu sentido usual ou literal, isto é, naquele que lhe atribuem os dicionários; seu sentido é objetivo, explícito, constante. ela designa ou denota determinado objeto, referindo-se à realidade palpável. além do sentido referencial, literal, cada palavra remete a inúmeros outros sentidos, virtuais, conotativos, que são apenas sugeridos, evocando outras idéias associadas, de ordem abstrata, subjetiva. denotação é a significação objetiva da palavra; é a palavra em "estado de dicionário"</Page><Page Number="75">399 letras/português caderno didático - 1º período denotação conotação  palavra com significação restrita palavra com significação ampla  palavra com sentido comum do dicionário palavra cujos sentidos  extrapolam o sentido comum palavra usada de modo automatizado palavra usada de modo criativo  linguagem comum linguagem rica e expressiva   o quadro abaixo sintetiza as diferenças fundamentais entre denotação e conotação: portanto, a denotação é a função representativa da linguagem mais próxima do real, isto é, a parte da significação da palavra que mais se aproxima de seu sentido próprio, e a conotação pode ser vista como as possibilidades da palavra de funcionar como exteriorização psíquica, ou seja, os muitos sentidos de uma palavra. sendo assim, pode-se dizer , que a significação total de uma palavra comporta a denotação e a conotação, o que dá à palavra um caráter polissêmico. conotação é a significação subjetiva da palavra; ocorre quando a palavra evoca outras realidades por associações que ela provoca dois rios (samuel rosa, lô borges e nando reis) o céu está no chão o céu que cai do alto é o claro, é a escuridão o céu que toca o chão e o céu que vai no alto dois lados deram as mãos como eu fiz também só pra poder conhecer o que a voz da vida vem dizer que os braços sentem e os olhos vêem fonte: http://letras.terra.com.br/skank/71463/ fonte: www.agenciapreview.com figura 38 quadro 3</Page><Page Number="76">400 introdução à leitura uab/unimontes que os lábios sejam dois rios inteiros sem direção o sol é o pé e a mão o sol é a mãe e o pai dissolve a escuridão o sol se põe se vai e após se pôr o sol renasce no japão como eu vi também só pra poder entender na voz da vida ouvi dizer que os braços sentem e os olhos vêem e os lábios beijam dois rios inteiros sem direção e o meu lugar é esse ao lado seu, meu corpo inteiro dou o meu lugar pois o seu lugar é o meu amor primeiro como o dia e a noite, as quatro estações observe, nas duas primeiras estrofes, as colocações utilizando a palavra céu:  o céu está no chão o céu que cai do alto  o céu que toca o chão  nesses versos, percebe-se o caráter conotativo  da palavra céu, que ganha novas possibilidades diferentes das que lhe são atribuídas num dicionário.    é o claro, é a escuridão  e o céu que vai no alto  já aqui, nota-se que a palavra céu  assume características inerentes ao seu significado próximo do real, caracterizando a denotação.    quadro 4</Page><Page Number="77">401 letras/português caderno didático - 1º período agora vamos analisar o uso da palavra sol nos seguintes versos: 5.3 as figuras de linguagem – metáfora e metonímia como já foi dito, toda e qualquer palavra é polissêmica e, além de seu sentido denotativo, pode apresentar-se com um de seus sentidos conotativos, constituindo uma figura de linguagem. a linguagem figurada dá-se a partir da metáfora ou da metonímia. a metonímia se fundamenta numa relação totalmente subjetiva, que se dá a partir de uma apreensão, já que consiste no emprego de um termo por outro, dada a relação de semelhança ou a possibilidade de associação entre eles, numa relação entre a significação denotativa e a figurada. as relações objetivas no emprego da metonímia podem ser de muitos outros tipos: entre a parte e o todo (também denominada “sinédoque”); entre o produto e a matéria; entre o agente e o resultado; entre o autor e a obra; entre o conteúdo e o continente; entre o abstrato e o concreto; etc. no exemplo abaixo, caetano veloso constrói as metonímias desse trecho da letra da música a partir da associação antitética: atividades procure ouvir a música dois rios, em cd, na internet ou peça à radio da sua cidade para toca-la. agora que você já percebeu que a letra foi composta como um jogo de conotação e denotação, escreva um texto explicitando quais os novos significados que foram atribuídos aos diversos termos conotativos que permeiam o texto.  o sol é o pé e a mão o sol é a mãe e o pai    se buscarmos a definição de sol  no dicionário, não encontraremos nenhuma alusão ao fato de poder significar pé, mão, mãe ou pai. portanto, temos nesses versos um sentido conotativo.   dissolve a escuridão  o sol se põe se vai  e após se pôr  o sol renasce no japão   nesses versos, entretanto, a palavras sol  assume características do significado real, caracterizando a denotação.    quadro 5 (...) onde queres o ato, eu sou o espírito; e onde queres ternura, eu sou tesão! onde queres o livre, decassílabo; e onde buscas o anjo, eu sou mulher! onde queres prazer , sou o que dói; e onde queres tortura, mansidão! onde queres o lar , revolução; e onde queres bandido, eu sou o herói! (...) caetano veloso fonte: http://letras.terra.com.br/caetano-veloso/44758/ procure a letra da música por completo na internet.  você pode visitar o sítio do cantor/compositor: http://www.caetanoveloso.c om.br se possível, ouça-a em cd ou mesmo pela internet. agora faça uma lista de todas as metonímias encontradas ao longo da letra explicitando quais foram as relações objetivas no emprego de cada metonímia. atividades</Page><Page Number="78">já a metáfora consiste na substituição de uma expressão por outra, cuja tonalidade afetiva se torna mais acentuada em virtude da sua transferência para um âmbito de significação que não lhe é particular . como nessa música de adriana calcanhotto, onde o sujeito afirma ser várias coisas que não são inerentes á sua condição de humano: daí, ser a metáfora utilizada na linguagem e, essencial e mormente, na poesia. essa importância da metáfora como força criadora da linguagem humana tem sido reconhecida desde aristóteles. encontramo-na como um artifício expressivo na poesia, como uma fonte de polissemia e sinonímia, como elemento enriquecedor de vocabulário e em tantas outras situações, na linguagem em geral. a metáfora é princípio básico de muitas outras figuras de linguagem, isto é, ela está sempre presente em todas as figuras de linguagem. alguns exemplos de metáforas especializadas ou figuras de pensamento: 1. antítese: é a figura que estabelece a oposição entre palavras ou idéias. a metáfora é um elemento de grande qualidade estilística e tem a função expressiva por excelência de colocar em destaque certos aspectos que o termo que seria próprio não seria capaz de expressar por si mesmo. 402 introdução à leitura uab/unimontes atividades visite o sítio da adriana calcanhotto (http://www.adrianacalcanh otto.com.br). vá na seção canções. leia a letra da música a fábrica do poema. leia novamente, com mais atenção e destaque todas as metáforas existentes na letra. (...) eu sou o sol da sua noite em claro, um rádio eu sou pelo avesso sua pele, o seu casaco se você vai sair o seu asfalto se você vai sair eu chovo sobre o seu cabelo pelo seu itinerário sou eu o seu paradeiro em uns versos que eu escrevo adriana calcanhotto fonte: http://www.adrianacalcanhotto.com.br/sec_ musicas_letra.php?id63 (...) me ame até correr , cair , se machucar , rolar pelo chão (...) pedro morais fonte: http://letras.terra.com.br/pedro-morais</Page><Page Number="79">2. gradação: é a figura na qual se estabelece um aumento (clímax) ou uma diminuição (anticlímax) gradual. 3. eufemismo: é a figura através da qual a realidade é suavizada com o uso de uma palavra ou expressão agradável. 4. ironia ou antífrase: é a figura cujo modo de exprimir-se consiste em dizer o contrário daquilo que se pensa ou sente ou vice-versa, com intenção depreciativa e sarcástica. 5 paradoxo: é a figura em que se chocam idéias antagônicas 403 letras/português caderno didático - 1º período se acaso me quiseres sou dessas mulheres que só dizem sim ( prostitutas) chico buarque fonte: http://www.chicobuarque.com.br /construcao/mestre.asp?pg (...) o mundo é uma flor e é o espinho viver é ser na multidão sozinho um passo para frente é outro abandonado no mundo uma ilusão de cada lado (...) pedro morais fonte: http://letras.terra.com.br/pedro-morais/789109/ mirem-se no exemplo daquelas mulheres de atenas geram pros seus maridos os novos filhos de atenas elas não têm gosto ou vontade nem defeito nem qualidade têm medo apenas não têm sonhos, só têm presságios o seu homem, mares, naufrágios lindas sirenas chico buarque http://www.chicobuarque.com.br/construcao/mestre.asp?pgmulheres amor é um fogo que arde sem se ver , é ferida que dói, e não se sente; é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer . luís de camões fonte: http://www.fisica.ufpb.br/romero/port/ga_lvc.htm#amo</Page><Page Number="80">6 hipérbole: é a figura que engrandece ou diminui de maneira exagerada a verdade das coisas; exagero de linguagem. 7. prosopopéia, personificação ou animismo: é a figura pela qual se dá vida ou características humanas a coisas e animais. alguns exemplos de metáforas especializadas ou figuras de palavras: 1. símile ou comparação: quando há comparação de coisas semelhantes. há sempre o conectivo do tipo “como”. 2. símbolo: quando um ser concreto assume, por convenção, o valor de um ser abstrato. olho em volta de mim. t odos possuem um afecto, um sorriso ou um abraço. ( alguém) só para mim as ânsias se diluem e não possuo mesmo quando enlaço. mario de sá carneiro fonte: http://users.isr .ist.utl.pt/cfb/vds/v261.txt branco como a cor da paz ao se encontrar rubro como o rosto fica junto a rosa mais querida é negra toda tristeza se há despedida na avenida é negra toda tristeza desta vida cartola e dalmo castelo fonte: http://letras.terra.com.br/cartola/806106/ 404 introdução à leitura uab/unimontes se paradoxo é a figura em que se chocam idéias antagônicas, qual seria então a diferença entre paradoxo e antítese, já que antítese é definida como a figura que estabelece a oposição entre palavras ou idéias? a diferença é simples: as oposições presentes na antítese são conciliáveis, ou seja, elas podem coexistir (existirem juntas). já as oposições presentes no paradoxo são inconciliáveis, ou seja, não podem coexistir! como exemplo retomemos a música de cada lado, de pedro morais, usada como exemplo na antítese. “o mundo é uma flor e é o espinho viver é ser na multidão sozinho” no primeiro verso, temos uma antítese, já que o mundo, na opinião do compositor , pode ser tanto uma flor (no sentido de ser belo e agradável) quanto um espinho (algo que pode machucar). já no segundo verso temos “ser na multidão sozinho”. como alguém que está no meio da multidão está sozinho? são idéias inconsiliáveis, que não coexistem, portanto paradoxo. para refletir bem te quis, bem te quis e ainda quero muito mais maior que a imensidão da paz e bem maior que o sol paulinho pedra azul fonte: http://letras.terra.com.br/paulinho-pedra-azul/1190960/ na ilha deserta o sol desmaia do alto do morro vê-se o mar papagaio discute com jandaia se o homem foi feito pra voar antônio carlos jobim fonte: http://www2.uol.com.br/tomjobim/ml_boto.htm</Page><Page Number="81">3. sinestesia: é a relação subjetiva entre percepções de sentidos diferentes. 4. perífrase: quando é utilizado um grupo de palavras em substituição a uma única palavra. 5. catacrese: é a figura na qual se verifica o uso de um determinado termo por falta de termo próprio; é uma metáfora desgastada que, por ser trivial, deixa de ser metáfora. estabelece comparação às situações em que são atribuídas, qualidades de seres vivos, a seres inanimados. para melhor compreensão das funções de linguagem, torna-se necessário relacioná-las com os elementos da comunicação. 5.4 funções da linguagem 405 letras/português caderno didático - 1º período seus olhos tão negros, tão belos, tão puros, têm meiga expressão, mais doce que a brisa, - mais doce que o nauta de noite cantando, - mais doce que a frauta quebrando a solidão . gonçalves dias fonte: http://www.casadobruxo. com.br/poesia/g/seusolhos.htm gosto de sentir a minha língua roçar a língua de luís de camões ( português) gosto de ser e de estar e quero me dedicar a criar confusões de prosódia e uma profusão de paródias que encurtem dores e furtem cores como camaleões caetano veloso fonte: http://letras.terra.com.br/caetano-veloso/44738/ minha morena venha pra cá, pra dançar xote se deite em meu cangote e pode cochilar tú és mulher pra homem nenhum botar defeito, por isso satisfeito contigo vou dançar vem cá cintura fina, cintura de pilão cintura de menina vem cá meu coração luiz gonzaga e zé dantas fonte: http://letras.terra.com.br/jose-roberto/950367/</Page><Page Number="82">entender a função da linguagem de determinado texto, contribui no processo de construção de significado durante a leitura. vamos entender como tais funções são exercidas dentro de textos. função emotiva (ou expressiva): centralizada no emissor , revelando sua opinião, sua emoção. nela prevalecem a 1ª pessoa do singular , interjeições e exclamações. é a linguagem das biografias, memórias, poesias líricas e cartas de amor . no ano de meus noventa anos quis me dar de presente uma noite de amor louco com uma adolescente virgem. lembrei de rosa cabarcas, a dona de uma casa clandestina que costumava avisar aos seus bons clientes quando tinha alguma novidade disponível. nunca sucumbi a essa nem a nenhuma de suas muitas tentações obscenas, mas ela não acreditava na pureza de meus princípios. t ambém a moral é uma questão de tempo, dizia com um sorriso maligno, você vai ver . era um pouco mais nova que eu, e não sabia dela fazia tantos anos que podia muito bem estar morta. mas no primeiro toque reconheci a voz no telefone e disparei sem preâmbulos: — é hoje. ela suspirou: ai, meu sábio triste, você desaparece vinte anos e volta só para pedir o impossível. recobrou em seguida o domínio de sua arte e me ofereceu meia dúzia de opções deleitáveis, mas com um senão: eram todas usadas. insisti que não, que tinha de ser donzela e para aquela noite. ela perguntou alarmada: mas o que é figura 39 406 elementos da comunicação funções da linguagem emissor: emite, codifica a mensagem função emotiva (ou expressiva) receptor: recebe, decodifica a mensagem função referencial (ou denotativa)  mensagem: conteúdo transmitido pelo emissor função apelativa (ou conativa) código: conjunto de signos usado na transmissão e recepção da mensagem função fática  referente: contexto relacionado a emissor e receptor  função poética  canal: meio pelo qual circula a mensagem  função metalinguística  obs.: as atitudes e reações dos comunicantes são também referentes e exercem influência sobre a comunicação quadro 6 introdução à leitura uab/unimontes</Page><Page Number="83">407 letras/português caderno didático - 1º período função referencial (ou denotativa): centralizada no referente, quando o emissor procura oferecer informações da realidade. objetiva, direta, denotativa, prevalecendo a 3ª pessoa do singular . linguagem usada nas notícias de jornal e livros científicos. que você está querendo provar a si mesmo? nada, respondi, machucado onde mais doía, sei muito bem o que posso e o que não posso. ela disse impassível que os sábios sabem de tudo, mas não tudo: virgens sobrando neste mundo só os do seu signo, dos nascidos em agosto. por que não encomendou com mais tempo? a inspiração não avisa, respondi. mas talvez espere, disse ela, sempre mais sabichona que qualquer homem, e me pediu nem que fossem dois dias para revirar o mercado a fundo. eu repliquei a sério que numa questão dessas, e na minha idade, cada hora é um ano. então não tem jeito, disse ela sem o menor fiapo de dúvida, mas não importa, assim é mais emocionante, merda, deixa que eu telefono em uma hora. gabriel garcia márquez t recho do livro memória de minhas putas tristes fonte: http://revistaepoca.globo.com/epoca/0,6993,ept991765-brasil encerra com chave de ouro m e l h o r p a r t i c i p a ç ã o n a s paraolimpíadas pequim (afp) — com duas medalhas, uma de ouro e uma de prata, no último dia de competições dos jogos paraolímpicos de pequim, a delegação do brasil encerrou sua participação na nona colocação no quadro de medalhas e garantiu o melhor desempenho do país em uma edição de paraolimpíadas, com 47 pódios. nesta quarta-feira, a seleção brasileira de futebol de cinco (para deficientes visuais) venceu a final contra a china por 2-1, de virada, e garantiu o 16º ouro do país em pequim. além disso, na maratona da classe t46 (para atletas amputados ou com má formação congênita), tito sena ficou com a prata, com o tempo de 2:30.49, atrás do mexicano mario santillan (2:27.04, novo recorde mundial). dessa maneira, o brasil encerrou os jogos paraolímpicos de pequim com 16 medalhas de ouro, 14 de prata e 17 de bronze, entre os 10 melhores do quadro de medalhas e superando o desempenho de atenas-2004, onde o país chegou 14 vezes ao lugar mais alto do pódio. assim como nos jogos olímpicos, a china liderou com folga o quadro de medalhas das paraolimpíadas, com 211 pódios (89 ouros, 70 pratas e 52 bronzes). fonte: http://afp.google.com/article/aleqm5jnusbxcwvk8rctmut sfg5ktsv5jw figura 40</Page><Page Number="84">408 introdução à leitura uab/unimontes função apelativa (ou conativa): centraliza-se no receptor; o emissor procura influenciar o comportamento do receptor . como o emissor se dirige ao receptor , é comum o uso de “tu” e “você”, ou o nome da pessoa, além dos vocativos e imperativos. usada nos discursos, sermões e propagandas que se dirigem diretamente ao consumidor . função fática: centralizada no canal, tendo como objetivo prolongar ou não o contato com o receptor , ou testar a eficiência do canal. linguagem das falas telefônicas, saudações e similares. “dizei-me, pregadores (aqueles com quem eu falo indignos verdadeiramente de tão sagrado nome), dizei-me: esses assuntos inúteis que tantas vezes levantais, essas empresas ao vosso parecer agudas que prosseguis, achaste-las alguma vez nos profetas do t estamento velho, ou nos apóstolos e evangelistas do t estamento novo, ou no autor de ambos os t estamentos, cristo? é certo que não, porque desde a primeira palavra do génesis até à última do apocalipse, não há tal coisa em todas as escrituras. pois se nas escrituras não há o que dizeis e o que pregais, como cuidais que pregais a palavra de deus? mais: nesses lugares, nesses textos que alegais para prova do que dizeis, é esse o sentido em que deus os disse? é esse o sentido em que os entendem os padres da igreja? é esse o sentido da mesma gramática das palavras? não, por certo; porque muitas vezes as tomais pelo que toam e não pelo que significam, e talvez nem pelo que toam. pois se não é esse o sentido das palavras de deus, segue-se que não são palavras de deus. e se não são palavras de deus, que nos queixamos que não façam fruto as pregações? basta que havemos de trazer as palavras de deus a que digam o que nós queremos, e não havemos de querer dizer o que elas dizem?! e então ver cabecear o auditório a estas coisas, quando devíamos de dar com a cabeça pelas paredes de as ouvir! verdadeiramente não sei de que mais me espante, se dos nossos conceitos, se dos vossos aplausos? oh, que bem levantou o pregador! assim é; mas que levantou? um falso testemunho ao texto, outro falso testemunho ao santo, outro ao entendimento e ao sentido de ambos. então que se converta o mundo com falsos testemunhos da palavra de deus? se a alguém parecer demasiada a censura, ouça-me. “ t recho do sermão da sexagésima, padre antônio vieira fonte: http://letras.terra.com.br/adriana-calcanhoto/75160/ figura 41</Page><Page Number="85">409 letras/português caderno didático - 1º período função poética: centralizada na mensagem, revelando recursos imaginativos criados pelo emissor . afetiva, sugestiva, conotativa, ela é metafórica. valorizam-se as palavras, suas combinações. é a linguagem figurada apresentada em obras literárias, letras de música, em algumas propagandas etc. chatear e encher um amigo meu me ensina a diferença entre “chatear“ e “encher“. chatear é assim: você telefona para um escritório qualquer na cidade. - alô! quer me chamar , por favor , o valdemar? - aqui não tem nenhum valdemar . daí a alguns minutos você liga de novo: - o valdemar , por obséquio. - cavalheiro, aqui não trabalha nenhum valdemar . - mas não é do número tal? - é, mas aqui não trabalha nenhum valdemar . mais cinco minutos, você liga o mesmo número: - por favor , o valdemar já chegou? - vê se te manca, palhaço. já não lhe disse que o diabo desse valdemar nunca trabalhou aqui? - mas ele mesmo me disse que trabalhava aí. - não chateia. daí a dez minutos, liga de novo. - escute uma coisa! o valdemar não deixou pelo menos um recado? o outro desta vez esquece a presença da datilógrafa e diz coisas impublicáveis. até aqui é chatear . para encher , espere passar mais dez minutos, faça nova ligação: - alô! quem fala? quem fala aqui é o valdemar . alguém telefonou para mim? (campos: 1983) figura 42 remix século xx composição: adriana calcanhoto / wally salomão armar um tabuleiro de palavras-souvenirs. apanhe e leve algumas palavras como souvenirs. faça você mesmo seu micro tabuleiro enquanto jogo lingüístico. babilaque, pop, chinfra, tropicália, parangolé, beatnick, vietcong, bolchevique, technicolor , biquini, pagode, axé, mambo, rádio,cibernética; figura 43</Page><Page Number="86">410 introdução à leitura uab/unimontes função metalinguística: centralizada no código, usando a linguagem para falar dela mesma. a poesia que fala da poesia, da sua função e do poeta, um texto que comenta outro texto. principalmente os dicionários são repositórios de metalinguagem. obs.: em um mesmo texto podem aparecer várias funções da linguagem. o importante é saber qual a função predominante no texto, para então defini-lo. 5.5 variação linguística a língua não é usada de modo homogêneo por todos os seus falantes. o uso de uma língua varia de época para época, de região para região, de classe social para classe social, e assim por diante. nem individualmente podemos afirmar que o uso seja uniforme. dependendo da situação, uma mesma pessoa pode usar diferentes variedades de uma celular , automóvel, buceta, favela, lisérgico, maconha, ninfeta, megafone, microfone, clone, sonar , sputinik, dada; sagarana, estéreo, subdesenvolvimento, existencialismo, fórmica, arroba, antiquarios, motossera, mega sena; cubofuturismo, biopirataria, dodecafônico, polifônico, naviloca, polivox, polivox, polivox, polivox... fonte: http://letras.terra.com.br/adriana-calcanhoto/75160/ oficina irritada carlos drummond de andrade eu quero compor um soneto duro como poeta algum ousara escrever . eu quero pintar um soneto escuro, seco, abafado, difícil de ler . quero que meu soneto, no futuro, não desperte em ninguém nenhum prazer . e que, no seu maligno ar imaturo, ao mesmo tempo saiba ser , não ser . esse meu verbo antipático e impuro há de pungir , há de fazer sofrer , tendão de vênus sob o pedicuro. ninguém o lembrará: tiro no muro, cão mijando no caos, enquanto arcturo, claro enigma, se deixa surpreender . (drummond: 2004)</Page><Page Number="87">411 letras/português caderno didático - 1º período só forma da língua. ao trabalhar com o conceito de variação linguística, estamos pretendendo demonstrar: que a língua portuguesa, como todas as línguas do mundo, ? que a variação linguística manifesta-se em todos os níveis de funcionamento da linguagem ; ? que a variação da língua se dá em função do emissor e em função do receptor ; ? que diversos fatores, como região, faixa etária, classe social e profissão, são responsáveis pela variação da língua; ? que não há hierarquia entre os usos variados da língua, assim como não há uso linguisticamente melhor que outro. em uma mesma comunidade linguística, portanto, coexistem usos diferentes, não existindo um padrão de linguagem que possa ser considerado superior . o que determina a escolha de tal ou tal variedade é a situação concreta de comunicação. ? que a possibilidade de variação da língua expressa a variedade cultural existente em qualquer grupo. basta observar , por exemplo, no brasil, que, dependendo do tipo de colonização a que uma determinada região foi exposta, os reflexos dessa colonização aí estarão presentes de maneira indiscutível. é importante observar que o processo de variação ocorre em todos os níveis de funcionamento da linguagem, sendo mais perceptível na pronúncia e no vocabulário. esse fenômeno da variação se torna mais complexo porque os níveis não se apresentam de maneira estanque, eles se superpõem. ? não se apresenta de maneira uniforme em todo o território brasileiro; "nenhuma língua permanece a mesma em todo o seu domínio e, ainda num só local, apresenta um sem-número de diferenciações.(...) mas essas variedades de ordem geográfica, de ordem social e até individual, pois cada um procura utilizar o sistema idiomático da forma que melhor lhe exprime o gosto e o pensamento, não prejudicam a unidade superior da língua, nem a consciência que têm os que a falam diversamente de se servirem de um mesmo instrumento de comunicação, de manifestação e de emoção." (celso cunha, em uma política do idioma) níveis de variação linguística figura 44</Page><Page Number="88">412 introdução à leitura uab/unimontes nível fonológico: por exemplo, o l final de sílaba é pronunciado como consoante pelos gaúchos, enquanto em quase todo o restante do brasil é vocalizado, ou seja, pronunciado como um u; o r caipira; o s chiado do carioca. nível morfo-sintático: muitas vezes, por analogia, por exemplo, algumas pessoas conjugam verbos irregulares como se fossem regulares: "manteu" em vez de "manteve", "ansio" em vez de "anseio"; certos segmentos s o c i a i s não r ea l i z am a concordância entre sujeito e verbo, o que ocorre com mais frequência se o sujeito está posposto ao verbo. há ainda, variedade em termos de regência: "eu lhe vi" ao invés de "eu o vi". nível vocabular: algumas palavras são empregadas em um sentido específico de acordo com a localidade. exemplos: em portugal diz-se "miúdo", ao passo que no brasil usa-se "moleque", "garoto", "menino", "guri"; as gírias são, tipicamente, um processo de variação vocabular . é proibido amarralo o cavalo neste localo figura 45 estava o gaudério em sua estância trabalhando quando olhou para o relógio e exclamou assustado: __a las frescas! tô mais atrasado que tartaruga em desfile de lebre! o fandango começa daqui a pouco, tchê! apressadíssimo, o gaúcho correu para a casa e no caminho falou pro guri que trabalhava na fazenda: __guri, encilha ligeiro um animal pra mim que eu tô louco de atrasado pro baile! e o menino fez o que o gaudério mandou. o gaúcho montou e se mandou correndo para chegar em tempo no baile. no caminho resolveu pegar um atalho que, diziam, tinha assombração. ele nem quis saber . de repente, no meio do mato, surgiu o diabo, o capeta em pessoa. o gaudério, mais branco que lenço de padre, disse: __coisa ruim! por favor não me mate, tchê! __calma, gaúcho - respondeu o tristonho - pelo contrário, vou te conceder três pedidos. peça o que quiser . __ah, é assim? pois então eu quero um rosto de galã de cinema, que a minha guaiaca fique cheia de dinheiro e quero um órgão sexual igual ao deste animal que estou montando.! __pode ir pro baile - disse o demo - vou te atender os desejos. e o gaudério chegou no fandango, atiçado. foi pro banheiro conferir o resultado dos pedidos. primeiro olhou no espelho e tava com o</Page><Page Number="89">tipos de variação linguística t ravaglia (1996), discutindo questões relativas ao ensino da gramática no primeiro e segundo graus, apresenta, com base em halliday, mcintosh e strevens (1974), um quadro bastante claro sobre as possibilidades de variação linguística, chamando a atenção para o fato de que, apesar de reconhecer a existência dessas variedades, a escola continua a privilegiar apenas a norma culta, em detrimento das outras, inclusive daquela que o educando já conhece anteriormente. existem dois tipos de variedades linguísticas: os dialetos (variedades que ocorrem em função das pessoas que utilizam a língua, ou seja, os emissores); os registros (variedades que ocorrem em função do uso que se faz da língua, as quais dependem do receptor , da mensagem e da situação). cada pessoa traz em si uma série de características que se traduzem no seu modo de se expressar: a região onde nasceu, o meio social em que foi criada e/ou em que vive, a profissão que exerce, a sua faixa etária, o seu nível de escolaridade. variação dialetal: variação regional, variação social, variação etária e variação profissional. ? a região onde nasceu (variação regional) - aipim, mandioca, macaxeira (para designar a mesma raiz); tu e você (alternância do pronome de tratamento e da forma verbal que o acompanha); vogais pretônicas abertas em algumas regiões do nordeste; o s chiado carioca e o s sibilado mineiro; ? o meio social em que foi criada e/ou em que vive; o nível de escolaridade (no caso brasileiro, essas variações estão normalmente inter-relacionadas (variação social): substituição do l por r (crube, pranta, prástico); eliminação do d no gerúndio (correndo/correno); troca do a pelo o (saltar do ônibus/soltar do ônibus); ? a profissão que exerce (variação profissional): linguagem médica (ter um infarto / fazer um infarto); jargão policial ( elemento / pessoa; viatura / camburão); ? a faixa etária (variação etária): irado, sinistro (termos usados pelos jovens para elogiar , com conotação positiva, e pelos mais velhos, com conotação negativa). 413 letras/português caderno didático - 1º período rosto do t om cruise. depois abriu a guaiaca e era dinheiro que não cabia mais. finalmente baixou a calça pra conferir o terceiro pedido: -guri de merda! me encilhou uma égua! fonte: http://coqueteldosolon.blogspot.com/</Page><Page Number="90">pelos exemplos apresentados, podemos concluir que há dialetos de dimensão territorial, social/profissional, de idade, de sexo, histórica. nem todos os autores apresentam a mesma divisão para estas variedades, sobretudo porque elas se superpõem, e seus limites não são bem definidos. cada pessoa traz em si uma série de características que se traduzem no seu modo de se expressar: a região onde nasceu, o meio social em que foi criada e/ou em que vive, a profissão que exerce, a sua faixa etária, o seu nível de escolaridade. variação de registro: grau de formalismo, modalidade de uso, sintonia: esse tipo de variedade que as línguas podem apresentar diz respeito ao uso que se faz da língua em função da situação em que o usuário e o interlocutor estão envolvidos. para se fazer entender , qualquer pessoa precisa estar em sintonia com o seu interlocutor e, isto é, facilmente observável na maneira como nos dirigimos, por exemplo, a uma criança, a um colega de trabalho, a uma autoridade. escolhemos palavras, modos de dizer , para cada uma dessas situações. t entar adaptar a própria linguagem à do interlocutor já é realizar um ato de comunicação. pode-se dizer que o nível da linguagem deve se adaptar à situação. as variações de registro podem ser de três tipos: grau de formalismo, modalidade e sintonia. cada tipo não aparece isolado, eles se correlacionam. 414 introdução à leitura uab/unimontes um político que estava em plena campanha, chegou a uma cidadezinha, subiu em um caixote e começou seu discurso: _____compatriotas, companheiros, amigos! encontramo-nos aqui convocados, reunidos ou ajuntados para debater , tratar ou discutir um tópico, tema ou assunto o qual é transcendente, importante ou de vida ou morte. o tópico, tema ou assunto que hoje nos convoca, reúne ou ajunta, é minha postulação, aspiração ou candidatura à prefeitura deste município. de repente, uma pessoa do público pergunta: _____escuta aqui, porque o senhor utiliza sempre três palavras para dizer a mesma coisa? _____ah, responde o candidato, pois veja meu senhor: a primeira palavra é para pessoas com nível cultural muito alto como os poetas, escritores, filósofos, etc. a segunda é para pessoas com um nível cultural médio como o senhor e a maioria dos que estão aqui. e a terceira palavra é para pessoas que têm um nível cultural muito baixo, pelo chão, digamos, como aquele bêbado ali jogado na esquina. de imediato, o bêbado se levanta cambaleando e responde: _____senhor postulante, aspirante ou candidato. (hic). o fato, circunstância ou razão de que me encontre em um estado etílico,</Page><Page Number="91">415 letras/português caderno didático - 1º período andrade, carlos drummond de. poesia completa. rio de janeiro: nova aguilar , 2004. campos, paulo mendes. chatear e encher . in: para gostar de ler . vol. 2. são paulo, ática, 1983. p. 35. fiorin, josé luiz; savioli, francisco platão. lições de texto: leitura e redação. 4 ed. são paulo: ática, 2004. halliday , m. a . ; mcintosh, a . &amp; strevens, p . as ciências lingüísticas e o ensino de línguas. petrópolis: vozes, 1974. travaglia, l. c. gramática e interação. são paulo: cortez, 1996. http://afp.google.com/article/aleqm5jnusbxcwvk8rctmut sfg5ktsv5jw, consultado em out/2008. http://coqueteldosolon.blogspot.com/, consultado em out/2008. http://foruns.ptgate.pt, consultado em out/2008. http://fwd.urlcurta.com/a-luva-e-a-calcinha, consultado em out/2008. http://letras.terra.com.br/adriana-calcanhoto/75160/, consultado em out/2008. http://letras.terra.com.br/caetano-veloso/44738/, consultado em out/2008. http://letras.terra.com.br/cartola/806106/, consultado em out/2008. http://letras.terra.com.br/jose-roberto/950367/, consultado em out/2008. http://letras.terra.com.br/paulinho-pedra-azul/1190960/, consultado em out/2008. bêbado ou mamado... (hic) não implica, significa, ou quer dizer que meu nível cultural seja ínfimo, baixo ou ralé mesmo... (hic). e com todo o respeito, estima ou carinho que o senhor merece... (hic), pode ir agrupando, reunindo ou ajuntando... (hic), seus pertences, coisas ou bagulhos... (hic) e encaminhar-se, dirigir-se ou ir-se diretinho à sua genitora, mãe biológica ou “puta” que o pariu. fonte: http://foruns.ptgate.pt referências</Page><Page Number="92">416 introdução à leitura uab/unimontes http://letras.terra.com.br/pedro-morais, consultado em out/2008. http://letras.terra.com.br/skank/71463/, consultado em out/2008. http://revistaepoca.globo.com/epoca/0,6993,ept991765-1655,00.html, consultado em out/2008. http://users.isr .ist.utl.pt/cfb/vds/v261.txt, consultado em out/2008. http://www.adrianacalcanhotto.com.br , consultado em out/2008. http://www.caetanoveloso.com.br , consultado em out/2008. http://www.casadobruxo.com.br/poesia/g/seusolhos.htm, consultado em out/2008. http://www.chicobuarque.com.br , consultado em out/2008. http://www.chicobuarque.com.br/letras/calice_73.htm, consultado em out/2008. http://www.fisica.ufpb.br/romero/port/ga_lvc.htm#amo, consultado em out/2008. http://www2.uol.com.br/tomjobim/ml_boto.htm, consultado em out/2008.</Page><Page Number="93">417 6 unidade 6 estratégicas de leitura parabéns! você chegou à última unidade da disciplina introdução à leitura. se você seguiu todas as recomendações, certamente já é um leitor bem mais eficiente. apresentação da unidade você percebeu que a todo o momento estamos produzindo e recebendo diferentes textos para situações também diferentes? ora realizamos deduções com base nos elementos explícitos e implícitos ora posicionamos crítica e coerentemente diante de um determinado texto. somos uma sociedade em que interagimos por meio de textos. por isso, dizemos que estamos inseridos em uma sociedade letrada, na qual temos domínios da linguagem que nos auxilia no processo de tentativa de comunicação entre os homens. assim, as estratégicas de leitura têm um relevante papel a exercer no processo de contato entre o texto e o leitor , tomando como ponto de referência os domínios da linguagem. levando em conta esta proposta de trabalho é muito importante que, ao longo desta unidade, você realize todas as dicas de atividade, pois elas têm como finalidade possibilitar outras impressões sobre a teoria que não estão contempladas aqui. para pensarmos um pouco sobre os atos de ler e de compreender , efetivados pelo leitor , esta unidade tem como objetivo: articular os conhecimentos sobre a linguagem, a língua, a atividade de leitura, o texto e seus fatores com a abordagem das questões referentes às estratégias de leitura específicas de cada gênero e tipo textual, sob a perspectiva das competências/habilidades. desenvolver estratégias de leitura para textos dados. para iniciar esta unidade, reflita sobre as indagações: a) quais leituras você já fez hoje? para responder relembre todas as suas atividades desde que se levantou até agora. se você foi à rua, lembre-se das placas que leu, dos anúncios publicitários, propagandas etc. b) você leu todos os textos da mesma forma? c) que tipos de texto você já produziu hoje/ lembre-se dos orais, escritos... objetivos ? ? atividades t ente mapear os diferentes gêneros textuais que chegam até você e os gêneros textuais que partem de você para outros, associando a finalidade e o modo de materialização de cada um. quais os gêneros textuais mais freqüentes utilizados por você? e quais os domínios da linguagem mobilizados pelos gêneros textuais utilizados por você?</Page><Page Number="94">6.1 pensando as estratégias de leitura  ao afirmarmos que a leitura é uma atividade ativa, criativa e produtiva, estamos levando em conta que ela é: a) ativa: devido ao fato de o leitor participar do processo de significação que inclui a consideração de conhecimentos prévios e partilhados, de múltiplos semióticos, como a imagem e, ainda, a moldura comunicativa na qual está inserido (o contexto de produção, os sujeitos envolvidos na ação de linguagem, as intenções comunicativas); b) criativa: pois se leva em conta a capacidade de inferências lexicais, de estratégias sócio-cognitivas que permitem depreender o sentido global do texto sem ter , necessariamente, que conhecer o significado de todas as palavras; c) produtiva: uma vez que a atividade de leitura é exigência para a inserção no mundo, isto é, ser capaz de ler o mundo nas e/ou por trás das diversas mensagens textuais. ao realizar a atividade do mapeamento dos gêneros textuais que são utilizados e recebidos por você ao longo do dia-a-dia (unidade i), você deve ter percebido a maneira como processamos, criticamos, constatamos e avaliamos as diversas informações que nos são apresentadas, produzindo sentidos para o que lemos. dito de outra maneira, agimos estrategicamente, tendo a possibilidade de dirigir e de auto-regular nosso próprio ato de ler e de compreender . o autor gilvan ribeiro (2002), ao escrever o boletim pedagógico de língua portuguesa, destaca que a produtividade da leitura busca cobrir um leque variado de possibilidades da ação de linguagem, não se fixando em um tipo específico de texto. assim, para ele, o que se pretende é ver a capacidade de o leitor se locomover entre textos que, ora cruzam imagem e palavra, ora privilegiam a imagem, ora estão centrados na palavra. t omemos como exemplo, o poema abaixo, em que a forma e a disposição das palavras retratam o sentido delas. a leitura tem o papel de possibilitar de viabilização do acesso aos bens culturais existentes, tanto do ponto de vista psicológico quanto sociológico, e seu aprendizado pretende, em geral, a adaptação do 418 introdução à leitura uab/unimontes atividades qual sua impressão ao visualizar este poema? o que te chamou mais atenção? figura 46</Page><Page Number="95">419 letras/português caderno didático - 1º período indivíduo ao meio ambiente, que muitas vezes não é o seu, conforme expõe martins: a leitura se manifesta como um pacto interativo, pois há uma importância significativa do leitor no ato da leitura. esse pacto é firmado à revelia do autor . assim, para de certeau (citado por chatier, 1984), o leitor desenvolve uma coerente relação no pacto, uma vez que, concentra em si o elemento de interdependência e de poder no jogo das predições, bem como das inferências fomentadas na leitura. assim, no poema t rem de ferro, de manuel bandeira, notaremos que as “sinalizações” do texto (leitura pausada) nos autorizam afirmar que, ao produzir o poema, manuel bandeira tentou retratar a imitação dos sons do trem de ferro. ao abordarmos as questões relativas às estratégicas de leitura, utilizaremos para exemplificação o texto o retorno do patinho feio, explorado pelas autoras ingedore villaça koch e vanda maria elias, no livro ler e compreender – os sentidos do texto.  se o conceito de leitura está geralmente restrito à decifração da escrita, sua aprendizagem, no entanto, liga-se por tradição ao processo de formação global do indivíduo, à sua capacitação para o convívio e atuações políticas, social, econômica e cultural. (martins, 1982, p. 22). para refletir ao ler o texto de manuel bandeira, percebemos que a disposição do poema e que as palavras utilizadas por ele nos levam a representar o som produzido pelo trem. quais as palavras que favorecem a reprodução do som?  trem de ferro foge, povo pra matar minha passa ponte sede café com pão passa poste oô... café com pão passa pasto vou mimbora vou café com pão passa boi mimbora passa boiada virge maria que foi passa galho não gosto daqui isso maquinista? da ingazeira nasci no sertão debruçada sou de ouricuri agora sim no riacho oô... café com pão que vontade agora sim de cantar! vou depressa voa, fumaça vou correndo corre, cerca oô... vou na toda ai seu foguista quando me que só levo bota fogo prendero pouca gente na fornalha no canaviá pouca gente que eu preciso cada pé de cana pouca gente... muita força era um oficiá muita força oô... muita força menina bonita oô... do vestido verde foge, bicho me dá tua boca atividades em uma folha, anote as impressões de cada fase das estratégicas de leitura, ao ler os textos aqui indicados.</Page><Page Number="96">420 introdução à leitura uab/unimontes  6.2 algumas estratégias de leitura a) seleção: ao ler o texto, a mente do leitor seleciona o que lhe interessa, pois nem tudo o que está escrito é igualmente útil. escolhemos alguns aspectos, chamados relevantes, e ignoramos outros, irrelevantes para o entendimento do texto. a) predição/antecipação: no processo de interação com o texto, é necessário que o leitor reporte não só ao co-texto (pistas textuais), mas também ao contexto (pistas extratextuais, a situação de interação imediata, o entorno sociopolítico-cultural), para que haja a construção das hipóteses investigativas na superfície textual. nesse sentido, durante a leitura, comprovamos se as antecipações estavam corretas ou não, sendo preciso o retorno e a reanálise do que foi lido. b) inferência: são os complementos informacionais que o leitor fornece ao texto a partir dos conhecimentos prévios: de mundo, linguístico e textual. c) auto-regulagem: é uma atividade permanente do leitor . consiste em fazer a mediação entre o que ele supõe (seleção, antecipação e inferência) e as respostas que vai obtendo através do texto. t rata-se de avaliar as antecipações e as inferências, confirmando-as ou antecipando-as com a finalidade de garantir a compreensão. d) autocorreção: quando as expectativas levantadas pela estratégia não são confirmadas, há um momento de dúvida. o leitor , portanto, repensa a hipótese, anteriormente, levantada e constrói outras, retomando as partes do texto para fazer as devidas correções.   as autoras simularam a maneira de como nós, leitores, nos embasamos nas estratégias de leitura, para executar o trabalho de construção de sentido. para tanto, elas recorreram ao miniconto, cujo título é o retorno do patinho feio, de marcelo coelho, publicado na folhinha da folha de são paulo.  ao depararmos com o título do miniconto, afirmam koch e elias, com a palavra retorno e a sua significação – regresso, volta –, logo, pensamos nas narrativas infantis, rememorando em nossos conhecimentos prévios a história do patinho feio com o qual o texto de marcelo coelho tece um diálogo de perto. assim, o nosso primeiro contato com o texto, tomando como ponto de partida as hipóteses motivadas pelo título, nos gera uma “curiosidade” textual em saber quais os aspectos comuns e diferentes entre o texto o retorno do patinho feio e o texto patinho feio.  prosseguindo a nossa atividade de leitura e de produção de sentido, notamos que, o trecho a seguir , apresenta-nos uma personagem (será a principal? pelo fato de ser mencionada no título e de aparecer em posição de destaque no início da história, inferimos que se trata da personagem principal): atividades anote as hipóteses levantadas por você. será que elas serão confirmadas ao longo da leitura do texto o retorno do patinho feio?</Page><Page Number="97">421 letras/português caderno didático - 1º período koch e elias (2006, p. 14) destacaram que “nossos olhos de leitores atentos apontam para uma oposição marcante no trecho em torno dos nomes alfonso x patinho feio, à qual subjazem outras oposições: presente x passado; riqueza x pobreza”. no quadro abaixo, elas traçaram um paralelo de destaque: a partir da relevante caracterização de alfonso, expressada pelas adjetivações que se referem à personagem e à sua moradia, em paralelo com a ausência de adjetivações da mesma natureza da de alfonso, quando o patinho era identificado como feio, percebemos que essas informações nos estimulam à formulação de novas antecipações. no trecho acima, a expressão – um dia – introduz uma situação-problema, que são particulares do gênero textual conto. ainda segundo koch e elias, nossa interação com o texto exige também outras hipóteses sobre o passado de alfonso (onde morava? como era esse lugar?) e sobre as prováveis ações do “mais belo cisne do lago príncipe das astúrias”, motivadas pelo sentimento de saudade expresso no enunciado: um dia, ele sentiu saudades da mãe, dos irmãos e dos amiguinhos da escola.                                               portanto, qual será a decisão de alfonso? voltará ao lugar de origem? reencontrará a mãe, os irmãos e amiguinhos de escola? continuando a leitura será possível verificar e confirmar (ou não) nossas hipóteses: o que você antecipou? você disse que ele voltaria? então, se disse que alfonso voltaria à sua origem, acertou. no segundo trecho, é possível alfonso era o mais belo cisne do lago príncipe de astúrias. t odos os dias, ele contempla sua imagem refletida nas águas daquele chiquérrimo e exclusivo condomínio para aves milionárias. mas alfonso não se esquecia de sua origem humilde. __pensar que, não faz muito tempo, eu era conhecido como o patinho feio... um dia, ele sentiu saudades da mãe, dos irmãos e dos amiguinhos da escola. alfonso patinho feio o mais belo cisne  o patinho feio lago príncipe de astúrias  ?  chiquérrimo e exclusivo condomínio para aves milionárias ?  quadro 7 voou até a lagoa do quaquenhá. o pequeno e barrento local de sua infância. a pata quitéria conversava com as amigas chocando sua quadragésima ninhada. alfonso abriu suas largas asas brancas. __mamãe! mamãe! você se lembra de mim?</Page><Page Number="98">quitéria levantou-se muito espantada. __se-se-senhor cisne... quanta honra... mas creio que o senhor se confunde... __mamãe...? __como poderia eu ser mãe de tão belo e nobre animal? não adiantou explicar . dona quitéria balançava a cabeça. __esse cisne é mesmo lindo... mas doido de pedra, coitado... alfonso foi então procurar a bianca. uma patinha linda do pré-primário. que vivia chamando alfonso de feio. __lembra de mim, bianca? gostaria de me namorar agora? he, he, he. 422 introdução à leitura uab/unimontes obter outras informações que nos auxiliam na caracterização entre alfonso x patinho feio. as informações adicionais complementaram o conteúdo do primeiro trecho da história, sendo destacadas, por koch e elias, no quadro por meio do negrito: no final do trecho, a pergunta: - mamãe! mamãe! você se lembra de mim?, cuja resposta ainda não sabemos exige novamente outras hipóteses. a resposta da mãe de alfonso será positiva ou negativa? vamos verificar nossas hipóteses na continuidade da nossa interação com o texto.  vamos ler: a atividade de leitura provoca em nós sentimentos, ansiedades, pois ela nos envolve em uma atmosfera de emoções. o que sentirá alfonso ao perceber que a pata quitéria se esqueceu? após o efeito do esquecimento na trama da história, o que poderá acontecer? o que fará o pobre alfonso? koch e elias destacaram como hipótese número um: voltará alfonso para o seu luxuoso condomínio? hipótese número dois: persistirá no seu intento de ser reconhecido e novamente aceito na comunidade? e quais hipóteses você antecipou, levando em conta seus conhecimentos e sua criatividade? iremos verificar (ou não) as duas hipóteses antecipadas pelas autoras? para isso, segue mais um trecho da história: cumpre notar que constantemente estamos acionando hipóteses para os diversos aspectos do texto, a cada pergunta, hipóteses são acionadas, a cada trecho que lemos utilizamos de forma interativa as alfonso patinho feio  o mais belo cisne  o patinho feio  lago príncipe de astúrias  lagoa do quaquenhá  chiquérrimo e exclusivo condomínio para aves milionárias o pequeno e barrento local de sua infância  quadro 8</Page><Page Number="99">423 letras/português caderno didático - 1º período estratégias de leitura. agora, qual será a resposta de bianca? qual será a reação à de alfonso? estamos torcendo para que sim ou para que não? veja a resposta da bianca: até agora, percebemos que a situação não está nada boa para alfonso. a pata quitéria e a patinha bianca deram a ele respostas negativas. o que acontecerá com alfonso? o que ele poderá fazer? você ficou surpreso com essa atitude de alfonso? ou já estava prevista em suas hipóteses? e agora, o bruxo resolverá o problema do alfonso? ou insistimos na hipótese de que nenhuma tentativa dará certo, devendo alfonso retornar ao seu luxuoso condomínio e esquecer de vez seu passado humilde? t erá a história um final (in)feliz? vamos ler , então: por fim, conseguimos ler o texto o retorno do patinho feio, fragmentado e articulado conforme simulação das autoras koch e elias.  leia o texto sem nenhuma interrupção: __deus me livre! está louco? uma pata namorando um cisne! aberração da natureza... alfonso respirou fundo. nada mais fazia sentido por ali. resolveu procurar um famoso bruxo da região. com alguns passes mágicos, o feiticeiro e astrólogo omar rhekko resolveu o problema. em poucos dias, alfonso transformou-se num pato adulto. gorducho e bastante sem graça. dona quitéria capricha fazendo lasanhas para ele. __cuidado para não engordar demais, filhinho. bianca faz um cafuné na cabeça de alfonso. o retorno do patinho feio alfonso era o mais belo cisne do lago príncipe de astúrias. t odos os dias, ele contempla sua imagem refletida nas águas daquele chiquérrimo e exclusivo condomínio para aves milionárias. mas alfonso não se esquecia de sua origem humilde. pensar que, não faz muito tempo, eu era conhecido como o patinho feio... um dia, ele sentiu saudades da mãe, dos irmãos e dos amiguinhos da escola. voou até a lagoa do quaquenhá. o pequeno e barrento local de sua infância. a pata quitéria conversava com as amigas chocando sua quadragésima ninhada. alfonso abriu suas largas asas brancas. __mamãe! mamãe! você se lembra de mim? quitéria levantou-se muito espantada. __se-se-senhor cisne... quanta honra... mas creio que o</Page><Page Number="100">424 introdução à leitura uab/unimontes para koch e elias (2006, p. 18), portanto, aplique as estratégias de leitura no texto menino cheio de coisas, de fernando bonassi, tendo por base a maneira como fizemos juntos ao ler o texto o retorno do patinho. na atividade de leitores ativos, estabelecemos relações entre nossos conhecimentos anteriormente constituídos e as novas informações contidas no texto, fazemos inferências, comparações, formulamos perguntas relacionadas com o seu conteúdo. senhor se confunde... __mamãe...? __como poderia eu ser mãe de tão belo e nobre animal? não adiantou explicar . dona quitéria balançava a cabeça. __esse cisne é mesmo lindo... mas doido de pedra, coitado... alfonso foi então procurar a bianca. uma patinha linda do pré-primário. que vivia chamando alfonso de feio. __lembra de mim, bianca? gostaria de me namorar agora? he, he, he. __deus me livre! está louco? uma pata namorando um cisne! aberração da natureza... alfonso respirou fundo. nada mais fazia sentido por ali. resolveu procurar um famoso bruxo da região. com alguns passes mágicos, o feiticeiro e astrólogo omar rhekko resolveu o problema. em poucos dias, alfonso transformou-se num pato adulto. gorducho e bastante sem graça. dona quitéria capricha fazendo lasanhas para ele. __cuidado para não engordar demais, filhinho. bianca faz um cafuné na cabeça de alfonso. __gordo... pescoçudo... bicudo... mas sabe que eu acho você uma gracinha? viveram felizes para sempre. fonte: coelho, marcelo. o retorno do patinho feio. folha de são paulo. 19. mar . folhinha, p. 8.  menino cheio de coisa vejam só: aos nove anos e três meses de idade, serginho está deitado embaixo das cobertas com uma calça de veludo de duzentos e vinte reais, camiseta de quarenta e cinco reais, tênis que pisca quando encosta no solo, óculos de sol com lentes amarelas, taco de beisebol, jaqueta de nálion lilás, boné da nike, bola de futebol de campo tamanho oficial, dois times de futebol de botão, cd dos t ribalistas, joystick, gameboy, uma caixa de bombom de cereja ao licor , dois sacos de jujuba, um quebra-cabeça de mil e quinhentas peças, um modelo em escala “f” cento e dezessete (desmontado), chocolate pra uma semana, três pacotes de batatinha frita (novidade, com orégano), dois litros de refrigerante com copo de canudinho combinando, quatro segmentos retos e quatro curvos de pista de autorama, dois trenzinhos (um de pilha e um de corda), controle dicas o contexto lingüístico do texto menino cheio de coisa nos orienta na construção da imagem do menino. porém, a leitura do texto demandará a (re)ativação de outros conhecimentos que temos armazenados em nossa memória. qual o propósito do autor do texto? como você aplicou as estratégias de leitura? qual a estratégia que, para você, foi mais relevante?</Page><Page Number="101">você notou que, ao interagirmos com os textos, trazemos conosco uma série de informações cognitivas que já é, por si só, o contexto. por isso, ao lermos o texto menino cheio de coisa, o autor fernando bonassi espera de seu leitor a avaliação da informação que consta no texto. na atividade de leitura, o autor do texto, o meio de veiculação do texto, o gênero textual, o título, a distribuição e a configuração de informações são aspectos que devem ser levados em conta no momento do processamento do sentido de um dado texto. a fim de exemplificar o que afirmamos, vamos ler o texto a seguir , prestando atenção na maneira como a mãe de anabela contextualizou a fala de sua filha sobre o casamento: 425 letras/português caderno didático - 1º período remoto, duas raquetes de pingue-pongue, duas canetas do mickey e nem adianta seu pai, do outro lado da porta trancada pelo menino emburrado, dizer que sua mãe já volta. fonte: bonassi, fernando. folha de são paulo, 12 mar . 2005. folhinha.  conversa de mãe e filha __manhê, eu vou me casar . __ah! o que foi? agora não, anabela. não está vendo que eu estou no telefone? __por favor , por favoooooor , me faz um lindo vestido de noiva, urgente? __pois é, carol. a t ati disse que comprava e no final mudou de idéia. foi tudo culpa da ... __mãe, presta atenção! o noivo já foi escolhido e a mãe dele já está fazendo a roupa. com gravata e tudo! __só um minutinho, carol. vestido de ... casar?! o que é isso, menina, você só tem dez anos? alô, carol? __me ouve, mãe! os meus amigos também já foram convidados! e todos já confirmaram presença. __carol, tenho de desligar . você está louca, anabela? vou já telefonar para seu pai. __boa! diz para ele que depois vai ter a maior festança. ele precisa providenciar pipoca, bolo de aipim, pé-de-moleque, canjica, curau, milho na brasa, guaraná, quentão e, se puder , churrasco no espeto e cuscuz. e diz para ele não se esquecer: quero fogueira e muito rojão pra soltar na hora do: “sim, eu aceito”. mãe? mãe? manhêê!!! caiu pra trás! vinte minutos depois. __acorda, mãe... desculpa, eu me enganei, a escola vai providenciar os comes e bebes. o papai não vai ter que pagar nada, mãe, acoooooorda. ô vida! que noiva sofre eu já sabia. mas até noiva de quadrilha.  para refletir koch e elias (2006, p. 66) afirmam que “o contexto permite preencher as lacunas do texto, isto é, estabelecer os “elos faltantes”, por meio de 'inferências-pontes'”.  reflita e mostre nos textos menino cheio de coisa e conversa entre mãe e filha a afirmação das autoras.</Page><Page Number="102">426 introdução à leitura uab/unimontes notamos na leitura do texto conversa de mãe e filha duas contextualizações acerca do casamento: a contextualização da mãe referente a um casamento socialmente construído e a contextualização da filha concernente a um casamento construído socialmente pela festa junina. assim, iniciamos a leitura do texto, levando em conta o contexto pressuposto pela mãe. porém, quando lemos os seguintes trechos: compreendemos o contexto a que a filha fazia referência. a distinção entre a perspectiva de ambos os casamentos só é possível, pelo fato de “nosso conhecimento de mundo nos dizer que esses componentes são comuns a uma festa junina e não a um enlace matrimonial tradicional” (koch e elias, 2006, p. 63).  nesta unidade, você percebeu como os aspectos da linguagem e da língua funcionam como ferramentas para a produção de sentidos. nessa medida, acionar as estratégias de leitura exige nossa competência em saber a composição, o conteúdo, o estilo, o propósito comunicacional e o modo de veiculação de um dado gênero textual. desse modo, chegou o momento de articularmos os conhecimentos que construímos juntos respeitantes à linguagem não-verbal e verbal. para isso, selecionamos o texto o mistério do velho casarão, de alberto filho, para que você aplique as noções aqui trabalhadas nesta disciplina sobre a leitura.. ele precisa providenciar pipoca, bolo de aipim, pé-de-moleque, canjica, curau, milho na brasa, guaraná, quentão e, se puder , churrasco no espeto e cuscuz. e diz para ele não se esquecer: quero fogueira e muito rojão pra soltar na hora do: “sim, eu aceito”. dicas você percebeu que, ao iniciar a leitura do texto conversa de mãe e filha, estávamos situados no contexto do dizer da personagem-mãe; depois, migramos de contexto, tendo em vista as pistas do próprio texto, situando nossa leitura no contexto da personagem-filha. nos acontecimentos do dia-a-dia, é notória a troca de contextos entre os interlocutores. por isso, observe em quais acontecimentos de seu dia-a-dia essa troca acontece com mais freqüência. quais os sentidos produzidos ou, até mesmo, quais os sentidos outros que emergem da troca dos contextos? não se esqueça de registrar as observações.   atividades explicite qual a composição, conteúdo, estilo, propósito comunicacional e o modo de veiculação do texto. se necessário, vá até a fonte para entender melhor o contexto. fonte: http://sitededicas.uol.com.b r/ct9_p1.htm</Page><Page Number="103">427 letras/português caderno didático - 1º período</Page><Page Number="104">428 introdução à leitura uab/unimontes</Page><Page Number="105">figura 47 referências bandeira, manuel. poesias completas. rio de janeiro: nova aguilar , 1940. bonassi, fernando. folha de são paulo, 12 mar . 2005. folhinha.  chatier, roger , a ordem dos livros: leitores, autores e biblioteca entre os séculos xiv e xvii, t rad. mary de priori, brasília: editora da unb, 1984. koch, ingedore villaça, elias, vanda maria. ler e compreender: os sentidos do texto. são paulo: contexto, 2006. martins, maria helena. o que é leitura? 7. ed. são paulo: brasiliense, 1982. ribeiro, gilvan p . boletim pedagógico de língua portuguesa. juiz de fora: caed, 2002. http://sitededicas.uol.com.br/ct9_p1.htm, consultado em out/2008. 429 letras/português caderno didático - 1º período</Page><Page Number="106"></Page><Page Number="107">prezado acadêmico (a)       esperamos que ao proporcionar o processo de ensino-aprendizagem referente aos elementos linguísticos, discursivos e enunciativos que compõem a estruturação de diferentes gêneros e tipos textuais, tenhamos contribuído de modo significativo para o desenvolvimento das habilidades e competências de leitura necessárias à constituição de sujeitos capazes de se posicionarem do ponto de vista filosófico, político, social, cultural, ético e estético, frente aos discursos que circulam na sociedade. o caminho para o alcance dessa finalidade teve início na unidade i quando, traçando um panorama sobre a ciência da linguagem, propusemos o estudo de aspectos referentes à linguagem, língua e fala e linguagem verbal e não-verbal. esperamos que você tenha compreendido que a linguagem e a língua são constitutivas de nossa identidade como seres humanos e como seres socioculturais, motivo pelo qual a linguagem se inscreve como sistema mediador de todos os discursos. daí, a importância do ensino de língua portuguesa. já na unidade ii, você teve oportunidade de refletir sobre a história do conceito de leitura, e de sua prática social, e perceber que ela veio, ao longo dos tempos, evoluindo em sua forma de apresentação. de uma prática antes proibida por seu sentido emancipador de idéias e de ideais, passou a ser uma prática democrática e socializante. objetivamos também, nas abordagens dessa unidade, que você tenha desenvolvido habilidades de percepção, observação, análise, comparação e síntese de mecanismos estruturais na organização das idéias que articulam o textual e entendido os mecanismos de produção de sentidos no processo de leitura de diferentes tipos e gêneros textuais. na unidade iii, discutimos os princípios constitutivos do texto e os fatores envolvidos em sua produção e recepção. esperamos que tenha ficado claro para você o que é texto e textualidade, quais as características que fazem com que um texto seja entendido como tal e não como um amontoado de frases. é importante ainda, que você tenha conseguido distinguir os fatores semântico-formais e os fatores pragmáticos de textualidade, tornando-se assim, um melhor leitor de tipos e gêneros de textos que circulam em nossa sociedade. você consegue reconhecer a multiplicidade de processos resumo 431</Page><Page Number="108">cognitivos que constituem a atividade em que o leitor se engaja para construir o sentido de um texto escrito? esse foi um dos temas abordados na unidade iv , que objetivou, ainda, que você aprimorasse sua própria capacidade de leitura para facilitar as ações na sociedade essencialmente escrita em que vivemos e adquirisse subsídios para tornar-se um eficiente formador de leitores, preparando-se para uma educação de qualidade. esperamos, também, que agora você demonstre competência para a ativação de conhecimentos prévios na leitura de textos. outras aptidões que esperamos que você tenha desenvolvido, e que são os objetivos da unidade v , foram: o exercício da habilidade de perceber os sentidos denotativo e conotativo no processo de leitura; o entendimento da variação linguística como característica da não uniformidade das línguas e como decorrente de fatores tais como o tempo, o espaço, o nível cultural e a situação em que um indivíduo se manifesta verbalmente; e a comprrensão do caráter polissêmico das palavras da língua portuguesa. por fim, na unidade vi, oferecemos instrumentação teórica e prática para que você seja capaz de articular eficientemente os conhecimentos sobre a linguagem, a língua, a atividade de leitura, o texto e seus fatores, com a abordagem das questões referentes às estratégias de leitura específicas de cada gênero e tipo textual, sob a perspectiva das competências/habilidades. acreditamos que o professor de língua portuguesa, deve ser conhecedor de teorias sobre leitura que tomam o leitor como sujeito ativo na construção de significados; sobre as estratégias para compreensão do texto lido; sobre a importância da ativação do conhecimento prévio; da leitura como produção de significados e sentidos tornando-se co-autor do texto; entre muitas outras teorias que possam interagir com sua prática. e, ainda, o professor tendo uma concepção interacionista da linguagem, compreenderá a importância da interlocução, do diálogo, de tomar o texto como lugar de interação dos sujeitos, para que assim possa conduzir um ensino inovador no sentido de poder ensinar ao aluno a ter objetivos de leitura. sendo assim, esperamos que essa disciplina seja apenas o início de uma longa jornada de estudos teóricos e, principalmente, de leitura. afinal, esperamos que você se apaixone pela leitura. quando isso acontecer , você verá que ela é sempre muito fiel. dorme com você, acorda com você e te acompanha o dia inteirinho, onde quer que você vá ou esteja. leia tudo que lhe aparecer pela frente. os grandes textos,os textos médios e os pequenos textos. a linguagem verbal, não-verbal, os gestos, as atitudes. leia você, seus familiares, seus colegas. lembre-se “o corpo fala” e ler é um “vício” muito gostoso. um grande abraço. 432 introdução à leitura uab/unimontes</Page><Page Number="109">básica costa val, maria da graça. redação e textualidade. 2. ed. são paulo: martins fontes, 2004. fiorin, josé luiz; savioli, francisco platão. lições de texto: leitura e redação. 4 ed. são paulo: ática, 2004. kleiman, ângela.leitura: ensino e pesquisa. 4. ed. campinas: pontes, 2000. complementar koch, ingedore grunfeld villaça; travaglia, luiz carlos. t exto e coerência. 5. ed. são paulo: cortez, 1997. paulino, graça et al. tipos de textos, modos de leitura. belo horizonte: formato editorial, 2001. (educador em formação). travaglia, l. c. gramática e interação. são paulo: cortez, 1996. andrade, carlos drummond de. contos plausíveis. rio de janeiro: j. olímpio, 1985. andrade, carlos drummond de. discurso de primavera &amp; algumas sombras. rio de janeiro: josé olympio, 1977. andrade, carlos drummond de. poesia completa. rio de janeiro: nova aguilar , 2004. alves, clair . a arte de falar bem. rio de janeiro: vozes, 2005. bandeira, manuel. poesias completas. rio de janeiro: nova aguilar , 1940. bonassi, fernando. folha de são paulo, 12 mar . 2005. folhinha.  braga, rubem. a traição das elegantes. rio de janeiro: editora sabiá, 1967. suplementar referências 433</Page><Page Number="110">campos, paulo mendes. chatear e encher . in: para gostar de ler . vol. 2. são paulo, ática, 1983. p. 35. cavalcante, berenice; starling, heloisa e eisenberg, josé eisenberg (org). decantando a república: inventário histórico e político da canção popular moderna brasileira. rio de janeiro: perseu abramo/nova fronteira, 2004. chartier, roger . a aventura do livro: do leitor ao navegador . t rad. por reginaldo de moraes. são paulo: unesp, 1998. costa val, maria da graça. redação e textualidade. 2. ed. são paulo: martins fontes, 2004. costa val, maria da graça. redação e textualidade. são paulo: martins fontes, 1994. damião, r. t .; henriques, a. curso de português jurídico. são paulo: atlas, 2000. de certeau, michel. in: chatier, roger , a ordem dos livros: leitores, autores e biblioteca entre os séculos xiv e xvii, t rad. mary de priori, brasília: editora da unb, 1984. descartes, rené. discurso do método. são paulo: nova cultural, 1996 dias, gonçalves. poesia. são paulo: agir , 1969. coleção nossos clássicos. eco, umberto. o nome da rosa, lisboa: difel, 2004. fiorin, josé luiz; savioli, francisco platão. lições de texto: leitura e redação. 4 ed. são paulo: ática, 2004. fiorin, josé luiz; savioli, francisco platão. para entender o texto: leitura e redação. 11. ed. são paulo: ática, 1995. halliday , m. a . ; mcintosh, a . &amp; strevens, p . as ciências lingüísticas e o ensino de línguas. petrópolis: vozes, 1974. halliday , m. a.; mcintosh, a. &amp; strevens, p . cohesion in english. london: longman, 1976. heckler, evaldo, back, sebad. curso de lingüística. são paulo: parábola editorial, 2002.  indurski, freda. reflexões sobre a linguagem: de bakhtin à análise do discurso. línguas einstrumentos lingüísticos, n. 4/5, p. 69-88. campinas: pontes, 2000 kleiman, ângela. t exto e leitor: aspectos cognitivos da leitura. campinas: ática, 1989. 434 introdução à leitura uab/unimontes</Page><Page Number="111">kleiman, ângela. t exto e leitor: aspectos cognitivos da leitura. 4. ed. campinas: ática, 1995. kleiman, ângela.leitura: ensino e pesquisa. 4. ed. campinas: pontes, 2000. koch, ingedore villaça, elias, vanda maria. ler e compreender: os sentidos do texto. são paulo: contexto, 2006. koch, ingedore villaça. a coerência textual. 6. ed. são paulo: contexto, 1993. coleção repensando a língua portuguesa. lajolo, marisa. do mundo da leitura para a leitura do mundo. são paulo, ática, 1993. lyons, john. introdução à lingüística t eórica. são paulo: editora nacional, 1979. marcuschi, luiz antonio. linguística do t exto: o que é, como se. faz. recife: universidade federal de pernambuco, 1983. marcushi, luiz antônio. gêneros t extuais: definição e funcionalidade. in: dionísio, ângela paiva et al. 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como sistema lingüístico necessário ao seu exercício na interlocução ou como instrumento do qual a linguagem se utiliza na comunicação. c) (  ) para que haja a construção de sentidos da parte do receptor é preciso dispor de algumas competências e habilidades lingüístico-discursivas como forma de “apropriar” da mensagem alheia. d) (  ) para saussure língua é a parte social da linguagem que, em forma de sistema, engloba várias possibilidades de sons existentes em uma comunidade. e) (  ) a língua se caracteriza como ato exterior ao indivíduo que, de acordo com os lingüistas, evolui de geração em geração. f) (  ) é possível afirmar que no interior de uma mesma língua não ocorrem variações. questão 02 observe a obra 'operários' de 1933 óleo/tela 150 x 205 cm, de uma das maiores pintoras brasileiras, t arsila do amaral. fonte: http://pessoal.educacional.com.br/up/4380001 439 figura 48: “operários”, . t arsila do amaral</Page><Page Number="116">marque a única alternativa incorreta. a linguagem não verbal da pintura permite ao leitor afirmar que: a) as pessoas retratadas aparentam tristeza/descontentamento. b) é uma pintura de época e retrata um momento histórico. c) a imagem ao fundo pode ser lida como sendo uma fábrica. d) há pessoas de várias etnias. e) o quadro tem pouco a dizer por falta da linguagem verbal. questão 03 de acordo com os pcn's, (1997: 23 ; 24), a linguagem é produto cultural e histórico, é constituída e utilizada de acordo com o povo que a utiliza em seus diversos contextos. é considerada como a capacidade humana de articular significados coletivos e compartilhá-los em ocasiões ou situações arbitrárias de representações que variam de acordo com as necessidades e experiências da vida em sociedade, procurando sempre manter um de seus fins, que é a produção de sentido. t endo em vista essa afirmação e os conhecimentos adquiridos na unidade i, elabore um parágrafo comentando as diversas possibilidades de variação da linguagem. ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ _____________________________________________________________ questão 04 leia o horóscopo: touro de 21/4 a 20/5 não deixe o nervosismo tomar conta de você. relaxe. procure observar a beleza que existe em seu caminho. desfrute dos doces momentos em sua intensidade. assim conseguirá eliminar as tensões do dia-a-dia e ser feliz. os astros indicam chances de sucesso profissional. cuide para que nenhuma oportunidade escape, pois isso lhe dará maior confiança e firmeza nas decisões difíceis.  contigo! 28/9/2006 440 introdução à leitura uab/unimontes</Page><Page Number="117">associe a segunda coluna de acordo com primeira de modo a obter uma correspondência correta entre os termos da primeira e suas identificações expressas na segunda. 1 - linguagem verbal (  ) 28/9/2006. 2 - linguagem não verbal (  ) os astros indicam chances de sucesso profissional. 3 - linguagem verbal e não verbal (  ) procure observar a beleza que existe em seu caminho. (  ) cuide para que nenhuma oportunidade escape, pois isso lhe dará maior confiança e firmeza nas decisões difíceis. (  ) contigo! 28/9/2006 441 letras/português caderno didático - 1º período</Page><Page Number="118"></Page><Page Number="119">1º período introdução à teoria da literatura</Page><Page Number="120">autores ilca vieira de oliveira departamento de comunicação e letras da universidade estadual de montes claros - unimontes. anelito de oliveira doutor em literatura brasileira pela universidade de são paulo - usp . atualmente é professor do departamento de comunicação e letras da universidade estadual de montes claros - unimontes. elcio lucas de oliveira doutor em estudos comparados de literaturas de língua portuguesa pela universidade de são paulo - usp . atualmente é professor do departamento de comunicação e letras da universidade estadual de montes claros - unimontes. doutorado em literatura comparada pela universidade federal de minas gerais - ufmg. atualmente é professora do</Page><Page Number="121">sumário da disciplina apresentação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 447 resumo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 497 referências básica, complementar e suplementar. . . . . . . . . . . . . . 499 atividades de aprendizagem - aa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 503 unidade i: discurso literário e discurso não literário . . . . . . . . . . . . 449 1.1 reflexões iniciais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 449 1.2 o amor como tema. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 454 1.3 o texto literário e a prática do professor . . . . . . . . . . . . . . . 463 1.4 referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 464 unidade ii: a especificidade do discurso literário . . . . . . . . . . . . . . 465 2.1 ficção e realidade. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 465 2.2 o conceito de literatura . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 466 2.3 a literatura e a obra literária. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 467 2.4 referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 469 unidade iii: as correntes críticas: diferentes perspectivas de leitura do texto literário. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 471 3.1 as correntes teóricas do século xix . . . . . . . . . . . . . . . . . . 472 3.2 as correntes teóricas do século xx. . . . . . . . . . . . . . . . . . . 473 3.3 a estética da recepção: o texto, o autor e o leitor . . . . . . . . . 476 3.3 o crítico e seu papel . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 477 3.4 referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 479 3.5 vídeos sugeridos para debate . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 479 unidade iv: intertextualidade: conceitos básicos . . . . . . . . . . 481 4.1 a i nt er t ex tua l i dade em out ras ar t es : l e i turas e interpretações. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 483 4.2 referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 185 4.5 vídeos sugeridos para debate . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 485 unidade v: a narrativa: a fixação das formas e suas mutações . . . . 486 5.1 a narrativa em poesia: estudo do poema épico . . . . . . . . . . 486 5.2 a narrativa em prosa: o romance, o conto, a novela e a crônica. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 488 5.3 referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 495</Page><Page Number="122"></Page><Page Number="123">apresentação 447 “chega mais perto e contempla as palavras. cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta, sem interesse pela resposta, pobre ou terrível, que lhe deres: t rouxeste a chave?” (carlos drummond de andrade, 2002, p. 118). a literatura? mas o que é a literatura? para que serve a literatura? como estudá-la? e como ensiná-la? estas são perguntas que você fará ao longo do estudo desta disciplina. com certeza são perguntas que não pretendemos responder imediatamente. como aluno, em processo de aprendizagem, essas dúvidas aparecerão, pois você vai querer uma “chave” para abrir todas as portas e obter uma resposta para todas as questões. no entanto, não temos uma resposta definitiva para essas perguntas num primeiro momento, pois levantaremos várias reflexões teóricas sobre a literatura até chegarmos às noções básicas para esse conceito. portanto, as reflexões teóricas realizadas no decorrer dessa disciplina não pretendem dar respostas para todas as indagações que o nosso objeto de estudo suscita, em nosso caso o texto literário. a teoria não tem a pretensão de dar os conceitos para que você organize e entenda os fenômenos que o preocupa. ela poderá, contudo, conduzi-lo a vários “questionamentos” e a levá-lo “desfazer postulados” que, muitas vezes, foram apresentados como verdades. a partir da ementa da disciplina, tomaremos como ponto de partida o estudo do texto literário tendo como base conceitos sobre o discurso literário e o não literário, levando em conta as conceituações teóricas sobre ficção e realidade, a especificidade da palavra literária e o conceito de literatura. depois de discutirmos os métodos, os conceitos e os propósitos da teoria da literatura, estudaremos as correntes críticas com suas diferentes concepções de análise do texto literário e as noções de intertextualidades. por fim, o nosso estudo privilegiará a estética da recepção: a dinâmica escritor-obra-contexto-leitor na produção do texto e a narrativa: ponto de vista, personagens, enredo, tempo espaço. a disciplina tem como objetivos: - estudar o texto literário com base em subsídios teóricos e críticos, adotando uma postura crítica e reflexiva; - fornecer uma abordagem do texto privilegiando suas relações</Page><Page Number="124">448 apresentação uab/unimontes com o autor , o leitor e o contexto de produção; - analisar textos literários e a emissão de juízos de valor sobre obras literárias e autores. - estudar a linguagem literária levando em conta os elementos extrínsecos e intrínsecos do texto; - estudar o texto literário identificando as possíveis relações de intertextualidade entre os textos; - discutir o conceito de literatura a partir de reflexões teóricas sobre o discurso literário e o não literário; - desenvolver no aluno a capacidade de ler e de interpretar um texto narrativo, observando as diferenças existentes entre o conto, o romance, a novela, a epopéia e a crônica. alunos do curso de letras, esta disciplina é muito importante para a sua formação teórica, crítica, interpretativa e reflexiva, pois ela apresentará instrumentos teóricos e metodológicos que poderão auxiliá-los, ao longo de todo o curso, no estudo da literatura. esta disciplina tem cinco unidades e cada unidade está dividida em subunidades. unidade 1: discurso literário e discurso não literário 1.1 reflexões iniciais 1.2 o amor como tema 1.3 o texto literário e a prática do professor unidade 2: a especificidade do discurso literário 2.1 ficção e realidade 2.2 o conceito de literatura 2.3 a literatura e a obra literária unidade 3: as correntes críticas: diferentes perspectivas de leitura do texto literário 3.1 as correntes teóricas do século xix 3.2 as correntes teóricas do século xx 3.3 a estética da recepção: o texto, o autor e o leitor 3.3 o crítico e seu papel unidade 4: intertextualidade: conceitos básicos 4.1 a intertextualidade em outras artes: leituras e interpretações unidade 5: a narrativa: a fixação das formas e suas mutações 5.1 a narrativa em poesia: estudo do poema épico 5.2 a narrativa em prosa: o romance, o conto, a novela e a crônica</Page><Page Number="125">449 1 unidade 1 discurso literário e discurso não literário dicas esta primeira unidade de nossa disciplina tem como objetivo problematizar o discurso literário e o discurso não literário. para que você possa compreender o que é um discurso literário é fundamental apresentarmos o conceito de literatura. a partir dele estabeleceremos as diferenças entre o discurso literário e o discurso não literário. para facilitar a compreensão dos conceitos teóricos, que utilizaremos no decorrer de nossa discussão, usaremos exemplos de textos literários de textos e não literários. 1.1 reflexões iniciais você, certamente, já ouviu médicos, advogados, engenheiros e outros profissionais dizendo “isso não existe na literatura” ou “isso está previsto na nossa literatura” ou mesmo “de acordo com nossa literatura”. certamente, você também já deve ter ouvido pessoas falando em “literatura de machado de assis” ou “literatura brasileira”, “literatura inglesa”, etc. essas pessoas estão falando da mesma coisa? não. por que usam a mesma palavra, então? o que é literatura para um médico? o que é literatura para um escritor? e o que é um escritor? muitas perguntas. e é perguntando mesmo que a gente se entende. vamos responder a todas pausadamente: primeira: o uso da palavra “literatura” por profissionais de várias áreas é um dos sinais da complexidade relativa à definição do que vem a ser literatura. inúmeros autores discutiram e continuam a discutir o que é literatura. em sentido amplo, literatura é tudo que se escreve sobre qualquer assunto e de qualquer forma. em sentido restrito, literatura é uma expressão artística. segunda: para um médico, literatura é tudo aquilo que se escreve sobre sua área, sobre as doenças e os tratamentos adequados, aquilo que está no seu manual de prática médica. da mesma forma, para um advogado, um engenheiro e outros profissionais, literatura é tudo que se escreve sobre suas respectivas áreas. o que está previsto na literatura de cada área tem valor e é respeitado por seus profissionais. t erceira: para um escritor , literatura é um tipo de produção textual que se distingue por não ter uma finalidade prática, uma utilidade específica na vida das pessoas. a literatura, nesse caso, é um objeto estético, ou seja, algo marcado pela vontade de revelar a beleza de coisas, situações, imagens, seres, etc. o texto literário é o texto regido pelo princípio da beleza, que não tem como proposta resolver quaisquer problemas pessoais ou coletivos. quarta: a palavra escritor se aplica, geralmente, àquele que se leia o texto “a literatura”, primeiro capítulo do livro o demônio da teoria: literatura e senso comum, de antoine compagnon. vá ao ambiente de aprendizagem e discuta com seu professor e colegas.</Page><Page Number="126">450 introdução à t eoria da literatura uab/unimontes dedica a escrever textos considerados de arte literária: poesia, crônica, conto, novela, romance, drama e comédia. t ambém é comum hoje em dia chamar de escritores aqueles que escrevem textos de crítica literária, ensaios sobre temas diversos e roteiros cinematográficos, etc. alguns preferem se referir ao escritor de poesia apenas como “poeta”, bem como preferem se referir aos escritores de romance, contos e novelas como “prosadores” ou “ficcionistas”.  a) chegando mais perto ao passar em revista a problemática da definição de literatura, antoine compagnon (1999) destaca o ponto de vista irônico de um dos mais importantes teóricos do século xx, o francês roland barthes: “a literatura é aquilo que se ensina”. de fato, nas aulas de literatura de um curso de letras não ensinamos nada sobre o vírus da dengue, sobre código penal, nem sobre projeto estrutural. ensinamos sobre poéticas e autores. começamos, no caso da literatura brasileira, pelas primeiras manifestações literárias, avançamos pelo barroco e chegamos até a contemporaneidade. abordamos, para esclarecer esses estilos, autores como josé de anchieta, gregório de matos, cláudio manoel da costa, machado de assis, cruz e sousa, carlos drummond de andrade, guimarães rosa, clarice lispector e augusto de campos. com base nos textos desses autores, procuramos mostrar , cada professor do seu jeito, que literatura, para a área de letras, é um discurso diferente. e, para compreendê-la, é preciso compreender o quê, no final das contas, faz essa diferença. não podemos avançar sem antes compreender o quê é discurso e por que chamamos literatura de discurso. claro: poderíamos dizer que a literatura é um texto diferente, é uma escrita diferente, é uma linguagem diferente etc. por que dizemos que a literatura é um discurso diferente? bem, discurso é um conceito mais utilizado atualmente em função, sobretudo, do prestígio adquirido nas três últimas décadas do século xx, no brasil, pela obra do filósofo e crítico literário russo mikhail bakhtin (1895/1975). t al como aparece na obra desse autor , o conceito de discurso é mais abrangente que os demais utilizados para compreender a literatura. mais abrangente, por exemplo, que o conceito de estilo, através do qual a estilística, uma das principais correntes críticas da modernidade, restringia o sentido da literatura à linguagem verbal. num dos vários ensaios em que teoriza sobre a literatura como discurso, afirma bakhtin: a forma e o conteúdo estão unidos no discurso, entendido como fenômeno social – social em todas as esferas da sua existência e em todos os seus momentos – desde a imagem sonora até os estratos semânticos mais abstratos. (bakhtin, 1993, p. 71). pontos de vista como esse estimularam e continuam estimulando uma compreensão inovadora da literatura, através da qual se supera a c a b f e g glossário literatura: derivado do radical littera – letra caráter alfabético – significa saber relativo à arte de escrever e ler , gramática, instrução, erudição.  c a b f e g glossário enunciado: o que um texto efetivamente diz, aquilo que corresponde apenas ao seu campo dizível, sua superfície; enunciação: o processo de dizer em que está envolvido todo texto, aquilo que constitui suas motivações contextuais e que não se expõe à superfície do texto.</Page><Page Number="127">451 visão dicotomizante que opunha forma e conteúdo e reduzia a problemática do sentido apenas ao enunciado. como discurso, a literatura é um amálgama de enunciado e enunciação. b) no cerne da questão faça uma leitura atenta do conto “um apólogo”, de machado de assis, que apresentamos a seguir . pesquisar , em dicionários de filosofia, o que é “logos” e suas diversas acepções ao longo da história ocidental. dicas  um apólogo era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:  por que está com esse ar , toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo? deixa-me, senhora. que a deixe? que a deixe, por quê? porque lhe digo que está com um ar insuportável? repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça. que cabeça, senhora? a senhora não é alfinete, é agulha. agulha não tem cabeça. que lhe importa o meu ar? cada qual tem o ar que deus lhe deu. importe-se com a sua vida e deixe a dos outros. mas você é orgulhosa. decerto que sou. mas por quê? é boa! porque coso. então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu? você? esta agora é melhor . você é que os cose? você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu? você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou afeição aos babados... sim, mas que vale isso? eu é que furo o pano, vou adiante puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando... letras/português caderno didático - 1º período</Page><Page Number="128">452 introdução à t eoria da literatura uab/unimontes       t ambém os batedores vão adiante do imperador . você imperador? não digo isso. mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. eu é que prendo, ligo, ajunto... estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. chegou a costureira, pegou o pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser . uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de diana para dar a isto uma cor poética. e dizia a agulha: então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima... a linha não respondia nada; ia andando. buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. a agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. e era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte; continuou ainda nesse e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile. veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. a costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. e enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando abotoando, acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe: ora agora, diga-me quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? vamos, diga lá. parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:  anda, aprende, tola. cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura.</Page><Page Number="129">453 letras/português caderno didático - 1º período o conto “um apólogo”, de machado de assis, é um exemplo de discurso literário. o que você viu ali não é uma situação comum, corriqueira, que vemos por toda parte. uma agulha conversando com um novelo! você, certamente, nunca testemunhou uma cena dessas. ou já? nós poderíamos, diante desse conto, simplesmente concluir que discurso literário é aquele que se caracteriza por uma situação absurda. mas não é só isso. aliás, é bom dizer logo que, em se tratando de literatura, é preciso sempre ir devagar . sim, o absurdo é um elemento importante do discurso literário. mas trata-se de um elemento conteudístico, que está ligado ao conteúdo, e o discurso literário, como acabamos de saber , não é uma questão apenas de conteúdo, mas também de forma. é um discurso diferente – também – por isso. do ponto de vista formal, o conto de machado se configura como um apólogo, um tipo de narrativa em que os personagens são seres irracionais ou coisas inanimadas. o apólogo traz sempre uma lição de moral. o que o “professor de melancolia” disse? o narrador cria uma situação para que, no final das contas, um ser “normal”, racional, possa dizer que tem “servido de agulha a muita linha ordinária!” o narrador se vale, portanto, de uma estratégia para viabilizar uma “lição de moral”. o primeiro aspecto a considerar , então, é que o discurso literário contém uma estratégia, que denuncia o fato de se tratar de uma construção. estratégia narrativa, no caso d“um apólogo”. em nome dessa estratégia, funcionam os demais aspectos do texto: ponto de vista, personagens, enredo, etc. estudaremos mais adiante cada um desses aspectos. atenhamo-nos, por enquanto, apenas àquilo que mais chama a nossa atenção: a questão lógica. aparentemente, o texto não tem lógica: uma relação entre seres inanimados. a lógica aparece mesmo no desfecho do conto. t oda a narrativa é um “trampolim” para o “professor de melancolia” emitir sua lição de moral. graças à narrativa, essa lição nos chega, ao final do texto, recheada de lógica, de razão. concordamos com ela. a razão é, de fato, um discurso, a manifestação do “logos”, palavra que, entre os gregos, significava justamente um discurso racional. faze como eu, que não abro caminho para ninguém. onde me espetam fico. contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça: t ambém eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária! (assis, 1995, p. 134-136).</Page><Page Number="130">454 introdução à t eoria da literatura uab/unimontes c) de volta ao começo voltemos ao começo. desta nossa unidade e da configuração do discurso literário na literatura brasileira. você não discorda, nem nós, que é fácil reconhecer o discurso literário em machado de assis e outros famosos autores da literatura brasileira. voltemos ao começo. desta nossa unidade e da configuração do discurso literário na literatura brasileira. você não discorda, nem nós, que é fácil reconhecer o discurso literário em machado de assis e outros famosos autores da literatura brasileira. mas, pensemos bem: se chegarmos a uma aula de t eoria da literatura e apenas exibirmos “um apólogo” como amostra de discurso literário, os alunos ficarão apenas com um “resumo da ópera”, isto é, com uma visão bastante sintética. o que queremos, contudo, é chegar a uma visão mais completa. 1.2 o amor como tema nesta subunidade, estudaremos um soneto de luís vaz de camões. a partir desse poema discutiremos o tema do amor e os elementos que definem o discurso literário. este é um dos mais famosos sonetos do poeta português luís vaz de camões. t em por tema o amor . detalhe temático importante, uma t ransforma-se o amador na coisa amada, por virtude do muito imaginar; não tenho logo mais que desejar , pois em mim tenho a parte desejada.  se nela está minha alma transformada, que mais deseja o corpo de alcançar? em si somente pode descansar , pois consigo tal alma está liada. mas esta linda e pura semidéia que como um acidente em seu sujeito, assim com a alma minha se conforma, está no pensamento como idéia; e o vivo e puro amor de que sou feito, como a matéria simples, busca a forma. (camões, 2001, p. 34).</Page><Page Number="131">455 letras/português caderno didático - 1º período “pista” para compreendermos o que é literatura. não é todo dia que alguém decide falar de amor , principalmente em público. a maioria das pessoas prefere falar de amor dentro de casa, dentro do carro, num quarto de motel, num banquinho de praça à meia luz, enfim, a sós. amor sempre foi e continua sendo um tema íntimo, um tabu, num certo sentido, reservado aos amantes, não é mesmo? é fácil discordar . ora, todo mundo fala de amor hoje em dia, pessoas se beijam pelas ruas, as novelas televisivas, filmes picantes, etc., etc. t udo isso significa que amor , de todo tipo, é permitido atualmente, que está tudo liberado. amor era um tabu, então, apenas na época de camões. assim, o soneto tem valor apenas para aquela época, o século xvi? não. quando chega a este ponto, a opinião sobre o conteúdo do soneto se torna problemática. vejamos por quê. apresentaremos nos próximos pontos, algumas reflexões esclarecedoras sobre o discurso literário e, logo em seguida, estabeleceremos diferenças entre o discurso literário e o filosófico. a) a intenção do discurso em primeiro lugar , o soneto não é apenas o que ele diz, mas também como ele diz e, ainda, o que ele não diz. o soneto é um discurso. e um discurso é sempre uma “resposta” a outros discursos, com os quais dialoga numa determinada época. os discursos “conversam” entre si. o que um discurso afirma é, exatamente, aquilo que outros discursos negam. não é assim numa conversa? alguém – um emissor – diz algo, que pode ser uma afirmação, uma interrogação ou uma exclamação. outro alguém – um receptor – responde algo, que pode ser uma confirmação ou uma negação do que foi dito. ninguém diz nada por acaso. ninguém fala “cas paredes”. pelo menos no bom uso das faculdades mentais. t udo que se diz – a mensagem – é marcado por uma intenção. ou seja: quando dizemos algo, queremos atingir um determinado objetivo. a literatura é marcada por uma intenção diferente da encontrada nos demais discursos. o objetivo que ela quer atingir , portanto, é outro. mas que intenção é essa? b) sensação de prazer a literatura tem a intenção proporcionar prazer ao leitor . esta não é sua única intenção, mas é a intenção primordial; digamos assim, a que vem em primeiro lugar . o poema de camões, por exemplo, quando foi escrito, pode não ter provocado nos leitores de sua época o mesmo efeito que nos causa hoje. no entanto, o leitor atual também pode sentir prazer ao ler esse soneto escrito há cinco séculos.</Page><Page Number="132">456 introdução à t eoria da literatura uab/unimontes a sensação de prazer e o sentimento de bem-estar são situações subjetivas, que não podemos visualizar claramente, pois se ligam ao mundo interior do sujeito. por isso mesmo, o que dá prazer a alguns, pode não dar prazer a outros, o que faz algumas pessoas se sentirem bem, pode não fazer a outras. alguns leitores sentem prazer em ler poesia, outros sentem prazer em ler romance e há também aqueles que sentem prazer apenas em ler notícias, relatórios científicos, receita de culinária, etc., etc. como o poeta decide, então, aquilo que vai dar prazer ao leitor? na verdade, o poeta, ou o produtor de texto literário em geral, não sabe. e isso não chega a se tornar um problema para o poeta porque, para o seu trabalho, a intenção é que conta mais. assim, a intenção de dar prazer conta mais do que questões como o que é o prazer , o que é o bem-estar , o que provoca as duas situações nas pessoas. a literatura é um discurso diferente porque está interessada na “aesthesis”, naquilo que está no fundo da sensação de prazer . a intenção primordial da literatura é estética. o soneto de camões celebra essa intenção estética da literatura. uma celebração à maneira da poesia, que é um discurso diferente dentro da literatura. isso mesmo: a literatura é um discurso diferente; a poesia é um discurso diferente dentro desse discurso. há outros discursos diferentes na literatura. falaremos a respeito deles mais adiante. por enquanto, pensemos apenas na intenção da literatura em geral, exemplificada pelo soneto de camões, “pai” da nossa expressão literária em língua portuguesa.  c) tema e forma o amor constitui o tema do soneto, mas a razão constitui a sua forma. estamos no classicismo, na época em que a racionalidade era considerada fundamental. e racionalidade era sinônimo de equilíbrio. esse equilíbrio se traduz na utilização, pelo poeta, da forma soneto. o soneto é uma das formas clássicas de composição poética, praticada em todas as épocas pela maioria dos poetas, nas literaturas mais divulgadas do ocidente (francesa, inglesa, italiana, espanhola alemã, portuguesa, etc.). até na atualidade o soneto é praticado. essa composição poética consiste em 14 versos, distribuídos em quatro estrofes, sendo duas de quatro versos e duas de três versos. estrofe é o nome que se dá a cada conjunto de versos. estrofe de quatro versos é chamada de quarteto, enquanto estrofe de três versos é chamada de terceto. do tempo de camões até início do século xx, o soneto era realizado, normalmente, com extremo rigor formal. esse rigor se</Page><Page Number="133">457 letras/português caderno didático - 1º período caracterizava, sobretudo, pela uniformização dos versos em termos fônicos e sintáticos. o que é isso? versos com um mesmo ritmo e com uma mesma métrica. isorrítmicos e isométricos, portanto. ficou ainda mais complicado? vamos por partes. “iso” quer dizer igual: versos com um ritmo e uma métrica iguais, então. ritmo, em poesia, é alternância das sílabas métricas no tempo. neste caso, no tempo da pronúncia, enquanto estamos pronunciando cada verso. repitamos o primeiro verso do soneto vagarosamente: t rans for ma -seoa ma dor na coi saa ma da sentimos uma delicada diferenciação a se processar à medida que nossa pronúncia vai-se efetivando. algumas sílabas se distanciam, alongam-se e se destacam, enquanto outras se comprimem, escondem-se: t rans for ma -seoa ma dor na coi saa ma da sintaticamente, ou seja, no que diz respeito à ordem das palavras, o verso fica assim na nossa mente. mas, fonicamente, no que diz respeito aos sons das palavras, este mesmo verso fica assim: t rans for ma -seoa ma dor na coi saa ma da ou seja: algumas sílabas soando mais alto que as outras. à medida que se alongam e se comprimem, essas sílabas expõem a primazia do som, do aspecto fônico, em detrimento da grafia, das letras. sentimos o ritmo. e sentimos, no fundo, algo mais que isso: sentimos uma determinada organização rítmica, uma ritmação construída por um poeta. sentimos a métrica. d) a métrica métrica, em poesia, é a organização das sílabas de acordo com uma convenção literária, não gramatical, com vistas a obter um efeito estético, algo capaz de dar mais prazer durante a leitura. uma sílaba métrica não é, necessariamente, uma sílaba gramatical. a escansão, como se determina o processo de medir os versos, baseia-se no ritmo, no aspecto sonoro, portanto. do ponto de vista sintático, o verso de camões: “t ransforma-se o amador na coisa amada” t em 14 sílabas, ficando assim dividido: t rans for ma se o a ma dor na coi sa a ma da</Page><Page Number="134">458 introdução à t eoria da literatura uab/unimontes do ponto de vista métrico, não só esse verso, mas todos os demais do soneto têm 10 sílabas. para senti-las, basta pronunciar o texto em voz alta e ficar com os ouvidos “ligados”. contam-se apenas as tônicas, as que se ressaltam. a última – “da” – não conta, por ser átona. as sílabas tônicas são as sílabas fortes, ou acentuadas. as sílabas átonas são as fracas. a contagem deve ser feita considerando a sílaba tônica da última palavra do verso. com 10 sílabas em cada verso, o soneto é uma composição decassilábica, formada por versos decassílabos. de acordo com seu número de sílaba, cada verso é denominado: ? monossílabo, com 01 sílaba; ? díssilabo, com 02 sílabas; ? t rissílabo, com 03 sílabas; ? t etrassílabo, com 04 sílabas; ? pentassílabo, com 05 sílabas; ? hexassílabo, com 06 sílabas; heptassílabo, com 07 sílabas; ? octossílabo, com 08 sílabas; ? eneassílabo, com 09 sílabas; ? decassílabo, com 10 sílabas; ? endecassílabo, com 11 sílabas; e ? alexandrino, com 12 sílabas. e) o ritmo e a rima para que um poema tenha ritmo, não é necessário que seja metrificado. t odo poema tem ritmo, independente de suas sílabas serem ou não metrificadas. o ritmo pode decorrer da métrica, ou seja, do tipo de verso escolhido pelo poeta. ele pode resultar ainda de uma série de efeitos sonoros ou jogo de repetições. o poema reúne o conjunto de recursos que o poeta escolhe e organiza dentro de seu texto. cada combinação de recursos resulta em novo efeito. por isso, cada poema cria um novo ritmo. (goldstein, 2002, p. 12). independente também de ter rima, outro componente formal importante no tempo de camões, e que continua a ser importante nos dias de hoje, todo verso tem ritmo. ? t ransforma-se o amador na coisa amada, por virtude do muito imaginar; não tenho logo mais que desejar , pois em mim tenho a parte desejada.</Page><Page Number="135">459 letras/português caderno didático - 1º período o que é a rima? vejamos como se desenvolve a primeira estrofe do soneto: o primeiro e o último versos terminam em “-ada”, enquanto o terceiro e o quarto terminam em “-ar”. t emos aqui, portanto, uma repetição de sons semelhantes. é a rima. há muitos tipos de rima: interna, externa, consoante, toante, cruzada, emparelhada, interpolada, misturada, aguda, grave, esdrúxula, rica e pobre. no caso dessa estrofe do soneto de camões, as rimas são: 1. externas (sons semelhantes no final dos versos); 2. consoantes (vogais e consoantes semelhantes); 3. emparelhadas e interpoladas (esquema abba: a rimas a são interpoladas, as b são emparelhadas); 4. agudas e graves (agudas: formadas por palavras agudas ou oxítonas – imaginar/desejar; graves: formadas por palavras graves ou paroxítonas – amada/desejada); 5. pobres (pelo critério gramatical: formadas por palavras de uma mesma classe gramatical: amada/desejada (adjetivo), imaginar/desejar (verbo); pelo critério fônico: formadas por sons que se igualam a partir da vogal tônica: amada/desejada - “a” (tônica), imaginar/desejar – “a” (tônica)). f) pensando o ritmo percebemos a rima. percebemos a métrica. e percebemos, agora, que ambos contribuem para a configuração do ritmo do soneto, bem como das demais composições poéticas. desde o início do século xx, com o estabelecimento do modernismo em literatura, o ritmo passou a ser considerado um dos principais elementos da expressão poética, uma das maiores referências de poeticidade. t ornou-se, então, objeto de muita polêmica fomentada por poetas e teóricos da literatura. a razão dessa polêmica está em duas questões: ? a visão genérica, “metafórica”, de ritmo, que entende o ritmo como tudo que alterna; ? e a associação de ritmo a métrica. com o intuito de apresentar uma abordagem científica do problema, ossip brik (1971, p. 131-139), um dos principais nomes da corrente crítica conhecida como formalismo russo, escreveu, no período que vai de 1920 a 1927, um ensaio intitulado “ritmo e sintaxe”. vamos ler a seguir alguns trechos desse texto de o. brik para voltarmos com outros olhos ao soneto de camões?</Page><Page Number="136">460 introdução à t eoria da literatura uab/unimontes t recho 1: “geralmente, chama-se ritmo a toda a alternância regular; e não nos interessa a natureza do que o alterna. o ritmo musical é a alternância dos sons no tempo. o ritmo poético é a alternância das sílabas no tempo. o ritmo coreográfico, a alternância dos movimentos no tempo”. t recho 2: “apoderamo-nos até mesmo de domínios vizinhos: falamos da alternância rítmica dos botões sobre o colete, da alternância rítmica do dia e da noite, do inverno e do verão”. t recho 3: “esse emprego imagético, artístico, não seria perigoso se se isolasse nos domínios da arte. mas, seguidamente, tentamos construir sobre essa imagem poética a teoria científica do ritmo. t entamos, por exemplo, provar que o ritmo das obras artísticas (verso, música, dança) nada mais é do que uma conseqüência do ritmo natural: o ritmo das palpitações do coração, o ritmo do movimento das pernas durante a caminhada. fazemos aqui a transferência de uma metáfora para a terminologia cientifica”. t recho 4: “o ritmo como termo científico significa uma apresentação particular dos processos motores. é uma apresentação convencional que nada tem a ver com a alternância natural nos movimentos astronômicos, biológicos, mecânicos, etc. o ritmo é um movimento apresentado de uma maneira particular”. t recho 5: “devemos distinguir rigorosamente o movimento e o resultado do movimento. se uma pessoa salta sobre um terreno lamacento de um pântano e nele deixa suas pegadas, a sucessão dessa busca em vão ser regular , não é um ritmo. os saltos têm freqüentemente um ritmo, mas os traços que eles deixam no solo não são mais que dados que servem para julgá-los. falando cientificamente, não podemos dizer que a disposição das pegadas constitui um ritmo. o poema imprimido num livro também não oferece senão traços do movimento. somente o discurso poético e não o seu resultado gráfico pode ser apresentado como um ritmo”. t recho 6:  “essa diferenciação de noção tem importância não somente acadêmica, mas também, e sobretudo, prática. até agora, todas as tentativas para encontrar as leis do ritmo não tratavam do movimento apresentado sob uma forma rítmica, mas das combinações de traços deixados por esse movimento”.</Page><Page Number="137">461 letras/português caderno didático - 1º período t recho 7: “os estudiosos do ritmo poético perdiam-se no verso, dividindo-o em sílabas, medindo-o e tratando de encontrar as leis do ritmo nessa análise. de fato, todas essas medidas e sílabas existem não por si mesmas, mas como resultado de um certo movimento ritmico. não podem dar senão indicações sobre esse movimento rítmico do qual resultam. o movimento rítmico é anterior ao verso. não podemos compreender o ritmo a partir da linha do verso; ao contrário, compreender-se-á o verso a partir do movimento rítmico”. vemos, através desses sete trechos, que o ritmo não é uma questão simples. mas não é essa constatação que nos surpreende. já suspeitávamos. há algo mais surpreendente. o que nos surpreende é, em primeiro lugar , o significado que o autor atribui ao ritmo, conforme aparece no trecho 4. o significado científico de ritmo. o ritmo não é qualquer movimento, mas sim um movimento apresentado de maneira particular . então, cientificamente falando, o ritmo, na poesia, não é qualquer movimento. não é o movimento que encontramos na superfície do texto. em segundo lugar , o que nos surpreende é a definição de ritmo como sendo algo anterior aos versos, às palavras que formam o poema. o ritmo é o discurso poético. os versos são resultados do movimento rítmico. podemos dizer , assim, que o ritmo ocupa uma função causal na poesia, é responsável por determinados efeitos. então, são essas questões que fazem com que o soneto de camões seja um discurso diferente, um discurso literário? não só essas. essas são questões básicas, que se colocam no centro da problemática da forma. há as questões que caracterizam a problemática do conteúdo. juntas, essas questões constituem a problemática da poesia ao longo dos tempos, levada às últimas conseqüências na modernidade. detenhamo-nos um pouco agora na problemática do conteúdo no soneto de camões. o que se coloca em questão é a relação entre sujeito e objeto, segundo um parâmetro neoplatônico. de acordo com esse parâmetro, baseado na filosofia do grego platão, havia dois mundos: um das idéias – ideal – e outro das coisas – real. o mundo das idéias teria primazia sobre o das coisas, que seria um mundo desfigurado. distante quase vinte séculos de platão, que viveu no século v antes de cristo, camões segue a moda do seu tempo, que era a de praticar uma poesia idealista. assim, no plano ideal é possível o sujeito se transformar no seu objeto de desejo por um esforço mental, pelo “muito imaginar”. o sujeito (o amador) é alma, uma dimensão ideal, com o que se explica sua possibilidade de transformação. não um limite físico, real. o objeto do desejo (a coisa amada) também é alma, uma dimensão igualmente ideal, o que acentua a pertinência da transformação. uma alma se satisfaz com outra alma, de tal forma que o corpo, que é regido pela alma, não tem mais o que desejar , deve dar-se também</Page><Page Number="138">462 introdução à t eoria da literatura uab/unimontes por satisfeito. compreensível, em termos de sistema de pensamento platônico. t odavia, camões é poeta, e essa sua condição acaba por desestabilizar esse mesmo sistema, como vemos nos tercetos. o que se diz, nos quartetos, não é algo completo, muito menos perfeito, é uma “semidéia”, ainda insuficiente enquanto “idéia”. como tal, essa “semidéia” constitui, efetivamente, um “acidente” no sujeito que a cultiva, ou seja, naquele que está pensando. a “semidéia” é aquilo que ainda não está suficientemente organizado como idéia, que carece de fundamentação. os adjetivos “linda” e “pura”, com que essa “semidéia” é caracterizada, evidenciam a contradição que marca o discurso poético. sendo “linda” e “pura”, a “semidéia”, que consiste na conversão anímica (de alma) de sujeito em objeto, é e não é, ao mesmo tempo, uma idéia, no sentido forte, platônico. é idéia no pensamento, ou seja, no mundo ideal, e não é idéia no mundo das coisas, na vida comum. vivente, o poeta habita o mundo das coisas, onde o amor , o sentimento, o distingue. t ambém. razão (idéia) e emoção (amor) constituem o poeta como duas faces de uma mesma “moeda”, o que explica a contradição do seu discurso. de um lado, alma; de outro, matéria. de um lado, platão; de outro, camões. de um lado, filosofia; de outro, poesia. fundamentos diferentes, épocas diferentes, autores diferentes e discursos diferentes. o soneto nos mostra de maneira clara, no plano do conteúdo, como se processa a diferença da literatura em relação a um discurso mais próximo, que é a filosofia. t rata-se de uma delicada diferença, em termos de conteúdo. difícil, por isso mesmo, de se perceber . percebe-se mais facilmente essa diferença em termos de forma: na filosofia, a prosa; na poesia, o verso. vejamos como agatão, o poeta que aparece no diálogo “o banquete”, de platão, fala do amor: digo eu então que de todos os deuses, que são felizes, é o amor , se é lícito dizê-lo sem incorrer em vingança, o mais feliz, porque é o mais belo deles e o melhor . ora, ele é o mais belo por ser tal como se segue. primeiramente, é o mais jovem dos deuses, ó fedro. e uma grande prova do que digo ele próprio fornece, quando em fuga foge da velhice, que é rápida evidentemente, e que em todo caso, mais rápida do que devia, para nós se encaminha. de sua natureza amor a odeia e nem de longe se lhe aproxima. com os jovens ele está sempre em seu convívio e ao seu lado; está certo, com efeito, o antigo ditado, que o semelhante sempre do semelhante se aproxima. (platão, 1991, p. 27). é óbvia a diferença entre esse discurso e o de camões no que diz respeito à forma, naturalmente. aqui, prosa; lá, verso. t odavia, em relação ao conteúdo, não é tão óbvia essa diferença, ainda que pareça. t rata-se de</Page><Page Number="139">463 letras/português caderno didático - 1º período  dois discursos que exploram, essencialmente, um mesmo tema: o amor . não podemos esquecer que o discurso não é apenas o que se diz, mas como se diz e também o que não se diz.  há uma proximidade entre agatão e camões no que diz respeito ao tema, ao que se diz: o amor . t ambém vemos uma proximidade no que diz respeito ao que não dizem: não negam o amor , por exemplo. como os dois dizem, por outro lado, é o traço mais diferente. agatão procura explicar o que é o amor . camões enuncia um efeito do amor . a questão do filósofo é a causa. a questão do poeta é o efeito. para elucidar a causa, o filósofo argumenta. para demarcar o efeito, o poeta expressa. a poesia consiste na expressão. a filosofia consiste na argumentação. mas, à medida que argumenta, o filósofo também expressa, não? expressa, claro, no sentido de que comunica. t odavia, a expressão, no caso da poesia, significa um fim. a expressão é uma finalidade da poesia. por isso é que, ao analisar um poema, procuramos entender seus elementos expressivos. a musicalidade, que é efeito do ritmo, é um desses elementos. outro é a plasticidade, que se alcança através de imagens. ao ler um poema, ouvimos e vemos coisas inusitadas, que nem pensávamos que existissem. ouvimos e vemos. a poesia desperta nossos sentidos: o auditivo, o visivo. e nisso reside também uma das grandes diferenças do discurso poético em relação ao discurso filosófico. 1.3 o texto literário e a prática do professor nesta subunidade, apresentaremos uma breve reflexão sobre o discurso literário e a prática do professor na sala de aula. caro aluno, não basta apresentarmos a diferença entre o discurso literário e o discurso não literário; é preciso que você tenha fundamentos teóricos e metodológicos para realizar a leitura e a interpretação de um texto literário. para isso, é importante que você saiba as diferenças básicas entre a composição de cada texto, podendo discutir isso com os seus colegas. o texto literário é diferente de outros tipos de textos, tais como: os informativos, os opinativos, os didáticos, etc. o discurso literário poderá ser encontrado na poesia e na prosa como foi apresentado nas subunidades: 1.1. reflexões iniciais e 1.2. o amor como tema. para se ler um texto é preciso observar o contexto de sua produção, circulação e recepção. não se pode ler um poema como se lê uma crônica ou a reportagem de um jornal, pois os textos apresentam diferenças em sua constituição que podem ser visívéis na forma, na linguagem e no conteúdo. o conto “um apólogo”, de machado de assis, estudado anteriormente na subunidade 1.1. reflexões iniciais, foi escrito num dicas assista ao filme: “narradores de javé”, de eliane caffé. vá ao ambiente de aprendizagem e discuta com o seu professor .</Page><Page Number="140">464 introdução à t eoria da literatura uab/unimontes determinado momento, lido e recebido por uma comunidade de leitores do século xix, e continua sendo lido por nós, leitores do século xxi, que continuamos a atribuir-lhe sentido. a chave para abrir a porta correta da leitura de qualquer texto, o leitor poderá encontrar a partir da interpretação que envolve a recepção do texto. o repertório do leitor é importante no processo de significação do texto literário. o leitor também deve estar aberto à sedução que todo texto literário oferece através de sua forma, estrutura e linguagem. muitas vezes o leitor encontra dificuldades para ler e interpretar o discurso literário, exatamente porque ele não consegue estabelecer as diferenças básicas entre tipos de discurso e textos lidos. diante disso, é preciso procurar meios de despertar em nossos alunos o gosto pela leitura do texto literário. mas, para neles despertar esse prazer , você, como futuro professor de literatura, deverá, antes de tudo, ampliar seu próprio repertório de leituras. aguiar e silva, vitor manuel. t eoria da literatura. 4. ed. coimbra: almedina, 1982. assis, machado de. várias histórias. rio de janeiro; belo horizonte: garnier , 1995. bakhtin, mikhail. questões de literatura e de estética (a teoria do romance). 3. ed. são paulo: hucitec/editora da unesp , 1993. brik, ossip. ritmo e sintaxe. in: eikhembaum et alli. t eoria da literatura: formalistas russos. porto alegre: globo, 1971. camões, luís vaz de. sonetos. são paulo: martim claret, 2001. compangon, antoine. o demônio da teoria: literatura e senso comum. belo horizonte: ed. ufmg, 1999. goldstein, norma. versos, sons, ritmos. 13. ed. são paulo: ática, 2002. platão. banquete. t rad. josé cavalcante de souza. 5. ed. são paulo: editora nova cultural, 1991. dicas leia o cap. 2: “o sistema semiótico literário” do manual de t eoria literária, de vitor manuel aguiar e silva, p. 41-171. a leitura desse capítulo será fundamental, porque você encontrará vários conceitos que te levarão a compreender melhor as diferenças entre o discurso literário e o discurso não literário. referências</Page><Page Number="141">465 2 unidade 2 a especificidade do discurso literário   esta unidade tem como objetivo discutir a especificidade do discurso literário como um fenômeno de origem cultural, que se manifesta através de criação do poeta e/ou escritor . t ambém daremos continuidade a algumas reflexões que realizadas anteriormente, na unidade 1: o discurso literário e o discurso não literário. o literário é uma das manifestações culturais, mas nem sempre toda manifestação cultural é literária. diante disso, faz-se necessário saber que o literário é sempre ficção, mas nem sempre um texto ficcional é literário. para direcionar a nossa reflexão sobre a especificidade do discurso literário, buscaremos nesta unidade o aprofundamento de alguns questionamentos já feitos anteriormente: afinal de contas o que é o literário? o que caracteriza o texto como literário? por que alguns textos são considerados literários em alguns momentos e em outros não? por que um texto é ficcional, mas não é literário? que relação existe entre o texto literário e o contexto histórico-cultural? 2.1 ficção e realidade na presente subunidade, trataremos dos conceitos de ficção e de realidade. a literatura se realiza com palavras e o artista, quando cria ou inventa, deve respeitar os limites da existência; poderá recorrer a formas e entes que de fato existem e recombinar tais formas e entes de modo que crie o inexistente. dizer que uma agulha pode conversar com o novelo é algo absurdo, conforme exposto pelo conto “um apólogo”, de machado de assis, texto reproduzido integralmente na unidade 1: o discurso literário e o discurso não literário. a agulha e o novelo passam a ter existência exclusivamente verbal. o poema “autopsicografia”, de fernando pessoa, pode nos ajudar a compreender melhor o que é “ficção” e “realidade”. apresentamos o poema abaixo: c a b f e g glossário “ficção: é derivado do latim fingere, que tem os sentidos mais diversos de compor , imaginar , até a fábula mentirosa, o fingimento”. (hamburger, 1986, p. c a b f e g glossário “fingere: vem do latim e autopsicografia o poeta é um fingidor . finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente.</Page><Page Number="142">466 introdução à t eoria da literatura uab/unimontes o poema de fernando pessoa se chama “autopsicografia”; define o poeta como um “fingidor”. o poeta como fingidor não pode ser visto como um mentiroso, mas como um “criador” ou “inventor”. o poeta ou escritor é quem “formata” ou “modela” a “palavra”; é aquele que dá forma à realidade ficcional ou poética. a partir do conto “um apólogo”, de machado de assis, e do soneto “t ransforma-se o amador na coisa amada”, de camões, já estudados na unidade1: o discurso literário e o discurso não literário, você pôde observar que, ao analisarmos a “forma” e o “conteúdo” desses dois textos, procuramos demonstrar que ambos apresentam alguns elementos que os caracterizam como discurso literário. cabe aqui ressaltarmos que, mesmo que o texto apresente a forma que poderá defini-lo como literário, por exemplo conto e poema (gênero e estilo), a forma ficcional não se define pelos gêneros e pelos estilos. definir o ficcional a partir da forma não basta para a literatura. o texto literário precisa da forma para existir , e mais ainda do “imaginar”. o poeta/escritor é aquele que dá forma às palavras através do seu processo de “criação” e “imaginação”; a partir do real, ele cria um mundo imaginário e/ou ficcional. 2.2 o conceito de literatura nesta subunidade, traremos algumas reflexões do teórico antoine compagnon sobre o conceito de literatura. em seu estudo o demônio da teoria: literatura e o senso comum, compagnon levanta várias questões sobre a literatura e o literário; em busca de uma definição satisfatória para a literatura, chega mesmo a defini-la em seu sentido amplo como: literatura é tudo o que é impresso (ou mesmo manuscrito), são todos os livros que a biblioteca contém (incluindo-se aí o que se chama literatura oral, doravante consignada). essa acepção corresponde à noção clássica de “belas-letras” as quais compreendiam tudo o que a retórica e a poética podiam produzir , não somente a ficção, mas também a história, a filosofia e a ciência, e, ainda, toda a eloqüência. (compagnon, 1999, p. 31). c a b f e g glossário “o nome literatura é, certamente, novo (data do início do século xix; anteriormente, a literatura, conforme a etimologia, eram as inscrições, a escritura, a erudição, ou o conhecimento das letras”. (compagnon, 1999, p. 30). e os que lêem o que escreve, na dor lida sentem bem, não as duas que ele teve, mas só a que eles não têem. e assim nas calhas de roda gira, a entreter a razão, esse comboio de corda que se chama o coração. (pessoa, s/d, p. 104).</Page><Page Number="143">467 letras/português caderno didático - 1º período e no sentido restrito, antoine compagnon nos apresenta o seguinte conceito: a literatura (fronteira entre o literário e o não literário) varia consideravelmente segundo as épocas e as culturas. separada ou extraída das belas-letras, a literatura ocidental, na acepção moderna, aparece no século xix, com o declínio do tradicional sistema de gêneros poéticos, perpetuados desde aristóteles. (compagnon, 1999, p. 32). o teórico francês ainda expõe um sentido moderno para o termo, e afirma que: o sentido moderno de literatura (romance, teatro e poesia) é inseparável do romantismo, isto é, da afirmação da relatividade histórica e geográfica do bom gosto, em oposição à doutrina clássica da eternidade e da universalidade do cânone estético. restrita à prosa romanesca e dramática, e à poesia lírica, a literatura é concebida, além disso, em suas relações com a nação e com a sua história. a literatura, ou melhor , as literaturas são, antes de tudo, nacionais. (compagnon, 1999, p. 32). o termo literatura, usado para designar bibliografia ou texto escrito, denomina também certo tipo de obras que teriam algo em comum com as que são aceitas como literárias, apresentando caráter estritamente estético e ficcional. considerar como literatura poemas, dramas e romances porque os mesmos foram escritos por grandes escritores ou pelo fato de pertencerem uma determinada nação deve ser questionado pelos estudiosos da literatura. 2.3 a literatura e a obra literária nesta subunidade, será explorada a relação direta entre as obras e a literatura, afinal, quando surge o conceito de literário? roland barthes, ao estudar a retórica antiga, atribui a górgias de leontium (483-374 a.c.) a primazia de “ter submetido a prosa ao código retórico, propagando-a como discurso erudito, objeto estético, 'linguagem soberana', antepassado da 'literatura'” (barthes, 1975, p. 152). para barthes, é na idade média que ocorre a “fusão da retórica com a poética”, já que então os poetas são grandes retóricos e as artes retóricas são artes poéticas: “esta fusão é capital, pois está na origem da idéia de literatura” (barthes, 1975, p. 155-6). as citações acima oferecem pretexto para a indagação: o que nos leva a considerar determinado texto como literário? iúri t yniánov (1973) ilustra essa questão ao nos lembrar que “uma carta para um amigo de derjavine é um fato da vida social; na época de karamzine e de pushkin, a mesma carta amigável é um fato literário.” (tynianov , 1973, p.109).</Page><Page Number="144">468 introdução à t eoria da literatura uab/unimontes para esse formalista russo, a questão surge devido às diferentes funções que o texto assume em variadas épocas e de suas correlações com aquilo que está então definido como série literária ou mesmo como série extra-literária, também variável de acordo com seu tempo. portanto, as controvérsias aludidas por t ynianov derivam das diferentes delimitações com as quais cercamos o campo do literário. já eikhenbaum (1973) destaca as modificações que esse conceito veio a sofrer com o surgimento de novos gêneros: a partir dos meados do século xviii e sobretudo no século xix, o romance toma uma outra característica. a cultura livresca desenvolve as formas literárias de estudos, de artigos, de narração de viagem, de lembranças, etc. a forma epistolar permite as descrições detalhadas da vida mental, da paisagem observada, dos personagens, etc. [ ] a forma literária de notas e lembranças dá livre curso às descrições ainda mais detalhadas dos usos, da natureza, dos costumes, etc. (eikhenbaum, 1973, p.159). mas é ainda o mesmo t ynianov quem faz a necessária separação sistêmica entre obra e série, ao concluir que “a obra literária constitui-se num sistema e que a literatura igualmente se constitui em outro” (tynianov , 1973, p.107). assim, o leitor poderá provisoriamente concluir que a questão levantada não se resolve pela definição da extensão do campo da literatura, mas sim através do conhecimento da especificidade que qualifica um texto como literário ou não. esse problema surge tão logo reconhecemos que mesmo um texto pretensamente concebido como artístico (romance, poema, etc.) pode se revelar bem pouco literário no decorrer de sua leitura. ao comentar das literarische kunstwerk, de roman ingarden, anatol rosenfeld (1976, p.17) nota que, na análise das obras literárias, o diferencial surge nas “zonas onde podem encontrar-se os valores estéticos”. aqui deparamo-nos com um modificador importante: segundo rosenfeld, embora a intenção fundamental de ingarden seja a de fazer “uma 'anatomia essencial' das 'belas-letras' e mesmo das obras literárias no sentido mais amplo”, este filósofo não deixa de manter como ponto de referência para a análise das obras o “horizonte estético” (rosenfeld, 1976, p.17). essa constatação nos faz retornar ao texto de roland barthes anteriormente citado, no qual se chega à conclusão de que a prosa pôde fazer-se literatura (e a retórica teoria da arte literária) somente após a elevação daquela à categoria de “objeto estético”. está claro que barthes não quis generalizar , no sentido de que toda e qualquer obra em prosa tenha valor estético. a constatação que faz é que, embora inicialmente apreendida na oralidade como “decorativa”, a prosa auferiu um brilho suplementar ao ser construída a partir da techne (técnica) argumentativa da retórica, que pressupunha o desenvolvimento de habilidades específicas para sua melhor execução (barthes, 1975, p. 152), ou seja, determinadas obras passaram a se distinguir das demais devido a esse</Page><Page Number="145">469 letras/português caderno didático - 1º período acréscimo de valor . a articulação acima alinhavada nos possibilita concluir que é justamente pela avaliação estética de um determinado texto que chegamos ao seu valor literário; o que se confirma, num sentido mais amplo, nas seguintes palavras de luigi pareyson (1993): se não há obra que, embora não explicitamente artística, não seja forma, o próprio ato com que se aprecia e avalia como obra faz com que ela seja avaliada e apreciada como forma: a avaliação estética coincide com a apreciação específica sem porém identificar-se com ela. considerar o valor prático e especulativo de uma obra moral ou de pensamento significa também considerar o valor estético, porque significa reconhecer que só com um esforço de invenção e produção foi possível chegar a realizar a obra, i. é, só como forma ela é e pode ser obra, e precisamente obra moral e de pensamento. (pareyson, 1993, p. 22-3). como você pode perceber , a literatura como objeto de estudo suscita uma série de reflexões; esse assunto apresenta muita discussão e, apesar disso, não encontramos uma resposta definitiva, pois não há conteúdos exclusivos da literatura, muito menos avesso ao seu domínio. diante disso, o que podemos afirmar é que, em algumas épocas, os textos literários privilegiaram certos temas e uma determinada maneira de representá-los. por exemplo, no século xv , é muito recorrente o tema do amor ligado ao idealismo platônico e aos mitos greco-latinos, que apresentamos através do estudo do poema de camões, na primeira unidade. se o conteúdo é uma escolha de determinada época e autor , não pode ser o único critério utilizado para estabelecer as diferenças entre um texto literário e não literário. querer dizer que o literário é ficção e o não literário realidade pode ser um problema, pois o texto literário pode interpretar determinada realidade, mas faz isso de maneira indireta. na terceira unidade, “as correntes críticas: diferentes perspectivas de leitura do t exto literário”, será feita uma reflexão importante sobre as diferentes abordagens teóricas e metodológicas utilizadas pelos críticos para ler , interpretar e analisar um texto literário. você poderá observar que esses teóricos definirão seu objeto e estudo e método do texto literário a partir de um conceito de literatura. e o conceito de literatura será retomado desde a poética de aristóteles, e a república de platão; desde a antiguidade até a contemporaneidade. dicas caro aluno, a leitura da poética, de aristóteles, e dos capítulos v e x da república, de platão (veja referência na bibliografia complementar do curso), o ajudarão a compreender os primeiros conceitos expostos pelos dois filósofos sobre literatura, representação mimética, ficção e realidade. outro texto que será muito importante é o capítulo “a cicatriz de ulisses”, de mimesis, de auerbach. nesse texto, você encontrará uma reflexão sobre o processo de representação na ficção literária. referências aguiar e silva, vitor manuel. t eoria da literatura. 4. ed. coimbra: almedina, 1982. barthes, roland. “a retórica antiga”. in : cohen, jean et alii (orgs.). pesquisas de retórica. faltou o tradutor . petrópolis, vozes, 1975.</Page><Page Number="146">470 introdução à t eoria da literatura uab/unimontes castro, manuel antônio de. o acontecer poético: a história literária. 2. ed. rio de janeiro: antares, 1982. compangon, antoine. o demônio da teoria: literatura e senso comum. faltou o tradutor . belo horizonte: ed. ufmg, 1999. eikenbaum, b. sobre a teoria da prosa. in: toledo, dionísio de oliveira (org.). t eoria da literatura: formalistas russos. org., apresentação e apêndice. porto alegre: editora globo, 1973, p. 157-158. hamburger, kate. a lógica da criação literária. 2. ed. são paulo: perspectiva, 1986. pareyson, luigi. estética: t eoria da formatividade. t rad. ephraim ferreira alves. petrópolis: vozes, 1993. pessoa, fernando. o eu profundo e os outros eus: seleção poética. rio de janeiro: nova fronteira, [s.d.]. rosenfeld, anatol. estrutura e problemas da obra literária.são paulo: perspectiva, 1976. tynianov , j. “da evolução literária”. in: toledo, dionísio de oliveira (org.). t eoria da literatura: formalistas russos. org., apresentação e apêndice. porto alegre: editora globo, 1973.</Page><Page Number="147">471 3 unidade 3 as correntes críticas c a b f e g glossário interdisciplinar: comum a duas ou mais disciplinas ou ramos do conhecimento. c a b f e g glossário método: vem do grego méthodos, de meta - e hodós, estrutura-se a idéia de caminho para e por onde. c a b f e g glossário crítica: a palavra crítica vem do grego krinein, cuja acepção primeira é “separar para distinguir”. a presente unidade tem como objetivo discutir as diferentes concepções críticas. como sabemos, o texto literário não pode ser estudado sem que o crítico se sustente teoricamente. é necessário ressaltar ainda que o texto literário traz em si, explícita ou implicitamente, uma teoria. a teoria da literatura, disciplina que nos fornece elementos para a análise do texto literário, deve estar aberta às multiplas dimensões de seu objeto de estudo, por isso tem um caráter interdisciplinar . o diálogo que essa disciplina estabelece com outras disciplinas, tais como: a história, a geografia, a sociologia, a lingüística, a antropologia e a psicanálise é importante para a construção de preceitos teóricos da teoria da literatura. a teoria da literatura, a partir do momento que apresenta os instrumentos de análise do seu objeto de estudo, explicita o método que deverá utilizar em seu processo investigativo. para que o poema, o romance, o conto, a epopéia, etc. sejam lidos, analisados e interpretados é preciso que o crítico defina as linhas de sua abordagem da obra literária. assim, para “separar ou distinguir” um texto de outro é preciso que o método seja definido pelo crítico. o método utilizado pelo crítico pode ser a partir de uma atitude normativa ou descritiva. roberto acízelo de souza afirma que “a atitude normativa diz o que a literatura deve ser e como deve ser julgada; a atitude descritiva diz o que ela é e que explicações prováveis lhe são apropriadas.” (souza, 2007, p.15). o autor esclarece ainda que não se deve pensar “que todas as construções teóricas surgidas correspondem puramente ao tipo  normativo ou tipo descritivo” (souza, 2007, p.15), pois as teorias não se reduzem a modelos esquemáticos. mas podemos estabelecer um quadro histórico para facilitar a compreensão do que seria o modelo normativo e o descritivo. sobre o modelo normativo e o descritivo podemos apresentar o seguinte resumo: a) na época clássica grega, com platão e aristóteles (v – iv a.c.) tem-se modelos normativos, mas predominava uma investigação interpretativa mais aberta. b) na antiguidade, depois da época clássica, o modelo teórico normativo se impõe tanto na grécia quanto em roma. c) o normativismo continua sendo utilizado pelos teóricos, na idade média, principalmente com o auxílio da retórica e o aparecimento da arte e da técnica de compor versos dos poetas ligados à poesia lírica, que se originou na corte da provença e se desenvolveu do século xi ao xiii. d) no fim do século xvi até o século xviii, com a descoberta da poética de aristóteles, os teóricos adotarão uma postura normativa, apesar</Page><Page Number="148">472 introdução à t eoria da literatura uab/unimontes de o texto de aristóteles apresentar um modelo de investigação mais aberto. nesse período, a poética influenciou diversos tratados e modelos de composição poética que tinham um tom normativo e deveriam ser seguidos pelos poetas. e) no século xix, o romantismo colocorá um fim nos preceitos e normas dos tratadistas clássicos. os escritores românticos têm como fio condutor a liberdade de criação e de expressão. com isso, a reflexão sobre literatura se afasta do normativismo, orientando-se para atitudes mais especulativas, daí o surgimento de vários movimentos teóricos. apresentaremos na próxima subunidade as teorias que se consolidaram no século xix e que direcionaram a sistematização, a investigação e a avaliação da crítica literária. 3.1 as correntes téoricas do século xix na presente subunidade, trataremos das correntes teóricas do século xix. no oitocentos, com a superação da poética e da retórica, surgem alguns modelos de estudo da obra literária com uma postura mais voltada para os elementos extratextuais. o estudos críticos passam a levar em conta a vida do autor , os fatores que dão origem à obra e as interpretações do leitor . apresentaremos, a seguir , modelos de leituras da obra de acordo com algumas correntes teóricas da época. a) crítica biográfica a crítica biográfica se desenvolveu nas primeiras décadas do século xix e tem como principal crítico sainte-beuve (1804-1868) que utiliza o método biográfico para estudar a obra literária. o método biográfico usa o processo de descrição e procura explicar os elementos da obra através da vida do autor . dessa forma, o crítico considera os elementos extratextuais para analisar o texto literário. b) crítica determinista esta corrente crítica teve como sustentação a teoria do positivismo de augusto comte. o crítico da literatura procurou aplicar à literatura os métodos das ciências naturais: da biologia, da física e da química. o estudo do texto literário passou a levar em conta os elementos externos a ele, identificados com a vida do homem e o meio no qual o texto teve origem, centrando nos fatores políticos, econônicos, sociológicos, ideológicos tidos como determinantes da organização dos textos. hippolyte t aine (1828-1893) se destacou nessa tendência, principalmente como precursor da sociologia da literatura. para t aine, o meio, a raça e o momento são fatores que determinam a criação literária.</Page><Page Number="149">473 letras/português caderno didático - 1º período c) a crítica impressionista a crítica impressionista é uma corrente oposta à postura científica e objetiva do determinismo. essa tendência centrava seu estudo na subjetividade do leitor . para ler o texto literário, o crítico não precisava de instrumentos metodológicos, pois poderia agir livremente. um dos principais representantes franceses dessa tendência foi anatole france. 3.2 as correntes teóricas no século xx nesta subunidade, serão abordados as correntes teóricas e os movimentos poéticos no século xx, os quais trazem novos métodos de leitura, interpretação e crítica do texto literário. no início do século 20 tem-se o formalismo russo e o new criticism, correntes teóricas que abolem as tendências do século xix, responsáveis por uma leitura historicista, psicológica e biográfica da literatura. os teóricos acreditavam que o método utilizado pelas correntes críticas do século xix não apresentavam um teor científico, pois as leituras das obras consideravam os elementos extratextuais. apresentaremos a seguir as escolas e movimentos teóricos que se desevolveram desde o início do século xx até a atualidade. a) o formalismo russo é uma corrente teórica que surge com os formalistas russos, que apresentaram um novo método de estudo do texto literário, salientando que o crítico deveria se preocupar com a literariedade da literatura. a tendência formalista privilegia a linguagem do texto, dessa forma sua análise crítica está baseada em princípios lingüísticos. para estudar a obra literária os críticos se voltam para os elementos internos ao texto, se opondo à definição da literatura como documento, representação do real ou expressão do autor . os teóricos roman jakobson, boris eichenbaum e victor chklovsky orientaram os estudos literários para as questões relacionadas à forma e à técnica. assim, os formalistas russos utilizam um método de análise do texto baseado nos princípios de literariedade. b) o new criticism o new criticism marca um momento importante da crítica literária no mundo e surgiu nos estados unidos a partir dos anos 20 do século passado. esse momento propõe romper com a crítica baseada no critério subjetivo, desenvolvida através da corrente impressionista e da crítica de jornal (comentários) e institui a crítica “científica” ou metodológica e epistemológica. a nova crítica tem como método de análise do texto literário o significado do próprio texto, e não de um contexto histórico, biográfico (autor do texto) e leituras interpretativas feitas pelos leitores. para refletir para os formalistas o que caracteriza uma obra literária? qual o método de leitura utilizado pelos teóricos formalistas?</Page><Page Number="150">474 o crítico deveria ler o texto literário como um “cientista”, assumindo uma postura objetiva, jamais demonstrando qualquer tipo de envolvimento com o objeto de análise. o crítico não deve se preocupar com a intenção do autor , pois a “obra é o próprio testemunho do autor” (soares, 1985, p.102) e nem com as origens e o efeito que uma obra produz em seus leitores. c) a fenomenologia a fenomenologia surge com os estudos teóricos de edmund husserl (1859-1938) no início do século xx. a teoria da fenomenológica de husserl, posteriormente à fenomenologia de heidegger , apresenta uma postura antifilológica. para antoine compagnon, o pensamento de schleiermacher representa: a posição filológica (ou antiteórica) mais sólida, determinando rigorosamente a significação de uma obra pelas condições às quais ela respondeu em sua origem, e sua compreensão pela reconstrução de sua produção original. segundo esse princípio, a história pode, e deve, reconstituir o contexto original; a reconstrução da intenção do autor é a condição necessária e suficiente de determinação do sentido da obra. (compagnon, 1999, p.60). a fenomenologia busca evitar o problema da separação sujeito objeto, ocorre a “substituição do cogito cartesiano, enquanto consciência reflexiva, presença a si e disponibilidade ao outro, pela intencionalidade, como ato de consciência que é sempre consciência de alguma coisa, compromete a empatia do intérprete que era a hipótese do círculo hermenêutico.” (compagnon, 1999, p. 62). para a fenomenologia não existe a prioridade de verificar a “primeira recepção” da obra e do “querer-dizer” do autor . o texto não deve ser estudado a partir de uma posição filológica; pois o significado do texto ultrapassa os limites de sua origem histórica. é preciso esclarecer que o sentido do texto não pode ser reduzido ao sentido que ele tem para o seu autor (intenção do autor) e seus contemporâneos (primeira recepção), mas deve ainda acrescentar a história de sua crítica por todos os leitores de todas as idades, sua recepção no passado e no presente. o leitor passa a ser peça fundamental na interpretação de uma obra literária, pois é aquele capaz de ler um texto e apresentar sentidos para ele de acordo com sua formação de leitor . nesse processo de leitura e interpretação de um texto, o leitor vai preenchendo os vazios deixados pelo texto (wolfgang iser e stanley fish). já a “estética da recepção” (hans robert jauss) é uma outra versão da fenomenologia orientada para o leitor . na subunidade: “a estética da recepção: o texto, o autor e o leitor”, deste caderno, estudaremos a teoria da recepção e discutiremos os conceitos postulados pelos teóricos, observando principalmente os seguintes aspectos: o dicas assista aos filmes: “sociedade dos poetas mortos” e “finding forrester (encontrando forrester)”. vá ao ambiente de aprendizagem e discuta com seu professor e colegas os dois filmes. introdução à t eoria da literatura uab/unimontes</Page><Page Number="151">letras/português caderno didático - 1º período processo de recepção do texto ao longo da história literária e o papel do leitor no processo de interpretação da obra. d) o estruturalismo o estruturalismo se originou em oposição à fenomenologia: ao invés de discutir a experiência, a meta era identificar as estruturas subjacentes ao texto (as estruturas da linguagem, da psique, da sociedade). o estruturalismo traz herança do movimento formalista e se configura nos anos 50-60 na frança. os pesquisadores foram influenciados pela teoria da linguagem de ferdinand de saussure e desenvolveram pesquisas diversas sobre a análise do texto literário. o texto literário passa a ser estudado como estrutura verbal; as leis foram buscadas na lingüística e, a partir delas, os teóricos criaram modelos de análise da narrativa. os trabalhos dos teórico roland barthes e tzvetan t odorov se destacaram no estudo das estruturas narrativas. é importante ressaltar que o estruturalismo se desenvolveu primeiro nos estudos da antropologia, com claude lévis-strauss e depois nos estudos literários e culturais (roman jakobson, roland barthes, gérard genette), na psicanálise (jacques lacan), na história intelectual (michel foucault) na teoria marxista (louis althusser). as teorias desses pensadores franceses foram importadas e colocadas em prática na inglaterra, nos estados unidos, no brasil e em vários países no final das décadas 60 e 70. e) o pós-estruturalismo posteriormente ao estruturalismo, os teóricos roland barthes, michel foucault e lacan foram identificados como pós-estruturalistas, ou seja, eles tinham ido além do estruturalismo. o que é relevante dizer é que esses pensadores reconheceram “a impossibilidade de descrever um sistema significativo coerente e completo, já que os sistemas estão sempre mudando”. (culler, 1999, p.121). isto quer dizer que a análise do texto literário feita a partir da estrutura verbal não dava conta de estudar o texto literário, por isso rompe com a noção de totalidade do sujeito. o pós-estruturalismo é usado para se referir aos discursos teóricos nos quais há uma “crítica das noções de conhecimento objetivo e de um sujeito capaz de conhecer”. as teorias feministas, as teorias psicanalíticas, os marxismos e historicismos contemporâneos participam do pós-estruturalismo. o pós-estruturalismo também serviu para nomear a descontrução e os trabalhos de jacques derrida, que ganhou destaque com a crítica da noção de estrutura. 475 para refletir : qual deve ser a atitude do crítico diante de um texto? que tipos de crítica existem na atualidade?</Page><Page Number="152">476 introdução à t eoria da literatura uab/unimontes 3.3 a estética da recepção: o texto, o autor e o leitor nesta subunidade, trataremos da teoria da recepção. agora, o nosso propósito é identificar os conceitos definidores dessa teoria, o que faremos mediante o estudo dos seguintes tópicos: o texto e o contexto de produção, o autor , o leitor e a sua formação e o processo de recepção do texto. a teoria da estética da recepção tem como principais representantes hans robert jauss e wolfgang iser . os dois teóricos foram influenciados pela fenomenologia de husserl, pela estética de roman ingarden e pela hermenêutica de gadamer . na aula inaugural na universidade de constança, na alemanha, em 1967, o teórico hans robert jauss expôs a conferência história da literatura como provocação à teoria literária. essa conferência foi considerada depois como manifesto da estética da recepção, e “é conhecida como 'provocação' e começa pela recusa rigorosa dos métodos de ensino de história da literatura, considerados tradicionais e, por isso, desinteressantes.” (zilberman, 1989, p.9). o que a análise do teórico jauss propunha era denunciar “a fossilização da história da literatura, cuja metodologia estava presa a padrões herdados do idealismo ou do positivismo do século xix. somente pela superação dessas orientações seria possível promover uma nova teoria da literatura, fundada no 'inesgotável reconhecimento da historicidade'”. (zilberman, 1989, p.9). as linhas metodológicas que orientaram os estudos literários dos pensadores contemporâneos de jauss, apesar de apresentarem divergências entre si, tinham em comum o fato de a historia não ser considerada no momento de análise do texto literário. no texto “a estética da recepção: colocações gerais”, de hans robert jauss, que se encontra no livro a literatura e o leitor: textos de estética da recepção, de luiz costa lima (1979), jauss nos apresenta a teoria da recepção com o seguinte comentário: via então a oportunidade de uma nova teoria da literatura, exatamente não no ultrapasse da história, mas sim na compreensão ainda não esgotada da historicidade característica da arte e diferenciadora de sua compreensão. urgia renovar os estudos literários e superar os impasses da história positivista, os impasses da interpretação, que apenas servia a si mesma ou a uma metafísica da “écriture”, e os impasses da literatura comparada, que tomava a comparação como um fim em si. (jauss, 1979, p. 47). diante disso, jauss repudia os estudos imanentistas do texto e propõe uma teoria que desloca o eixo de análise do texto para a análise da experiência do leitor ou da “sociedade de leitores” de um determinado momento histórico, pois para jauss, o leitor é peça fundamental na atualização da obra. para refletir caro aluno, você pode assistir outra vez ao filme “finding forrester (encontrando forrester)”, sugerido na subunidade “as correntes t eóricas do século xx”, porque ele também traz alguns pontos sobre a recepção de uma obra literária por parte de um leitor ou de uma comunidade de leitores.</Page><Page Number="153">477 letras/português caderno didático - 1º período no texto “a interação do texto com o leitor”, wolfang iser afirma que o leitor diante dos vazios do texto, isto é, dos espaços abertos para as múltiplas possibilidades de comunicação, encontrará “pontos de indeterminação”, como é designado por ingarden, ou a “consciência imaginativa do leitor”. o leitor como uma entidade que interage com o texto, preenchendo suas lacunas é apresentado por iser como um “leitor ideal”, pois o texto literário é um universo controlado pela “estrutura objetiva” que pede ao leitor para obedecer às suas instruções. assim, o “leitor ideal” propõe um modelo de leitura para o leitor real. iser comenta que a interação fracassa exatamente quando: as projeções mútuas dos participantes não sofrem mudança alguma ou quando as projeções do leitor se impõem independentemente do texto. o fracasso significa o preenchimento do vazio exclusivamente com as próprias projeções. (iser, 1979, p.88). iser enfatiza que o leitor , diante do texto ficcional, deverá se comportar como um “viajante”, que a todo instante se pergunta se a formação de sentido que está fazendo é adequada, pois o leitor deverá testar o seu horizonte de expectativa, ou seja, por à prova sua capacidade de preencher os pontos de indeterminação, porque o texto nunca se apresenta todo ao leitor . assim como o “viajante”, o leitor , ao perceber um aspecto do texto, relaciona a parte que leu com o restante e tem uma noção do todo. 3.4 o crítico e seu papel para iniciar a presente subunidade, apresentaremos como texto motivador de nossa reflexão o seguinte comentário de machado de assis sobre a crítica. para o mais importante escritor e crítico da literatura brasileira no século xix, exercer a crítica, afigura-se a alguns que é uma fácil tarefa, como a outros parece igualmente fácil a tarefa de legislador; mas para a representação literária, como para a representação política, é preciso ter alguma coisa mais que um simples desejo de falar à multidão. infelizmente é a opinião contrária que domina, e a crítica, desamparada pelos esclarecidos, é exercida pelos incompetentes. (assis, 1984, p. 87). o fragmento de texto acima, retirado do texto “ideal do crítico”, de machado de assis, nos conduz a refletir sobre o papel do crítico diante do seu objeto de estudo: o texto literário. para atuar como crítico o estudioso da literatura deve se sustentar teoricamente, pois a tarefa não é fácil, como diz machado, exatamente porque o crítico deve ter competência para dar sua opinão sobre obras e autores. o ato de criticar um determinado texto não pode ser visto como depreciativo, pois muitas vezes achamos que a opinião explicitada por um crítico sobre determinada obra é um julgamento negativo. apesar de a dicas .leia o capítulo “helena: um caso de leitura”, do livro estética da recepção e história da literatura, de regina zilberman, p. 74-98. vá ao ambiente de aprendizagem e discuta com seu professor . dicas .faça uma pesquisa na revista veja e selecione uma matéria que apresente um estudo crítico sobre um texto literário; avalie a linguagem adotada pelo crítico e a visão que ele apresenta sobre o objeto de estudo por ele selecionado.</Page><Page Number="154">dicas introdução à t eoria da literatura uab/unimontes 478 disciplina ter um caráter científico, o crítico, ao atuar , não deve visar a exatidão, pois o modelo de leitura de um texto é uma forma de interpretar o texto, ou seja, é um caminho que será tomado por um crítico em seu momento de estudo do texto. e não significa que a interpretação feita por esse crítico seja única e verdadeira, pois existem outras possibilidades de leitura e interpretação do texto. mas o crítico não pode cair no erro e achar que qualquer leitura interpretativa que ele faça de um texto é pertinente, pois a liberdade concedida ao interprete tem limites. o teórico umberto eco, em seu texto “a poética da obra aberta”, discute essa liberdade de interpretação que o leitor tem diante do texto, apontando os limites que são concedidos pelo próprio texto. assim escreve umberto eco sobre a abertura da obra: o leitor do texto sabe que cada frase, cada figura se abre para a multiformidade de significados que ele deverá descobrir; inclusive, conforme seu estado de ânimo, ele escolherá a chave de leitura que julgar exemplar , e usará a obra na significação desejada (fazendo-a reviver , de certo modo, diversa de como possivelmente ela se lhe apresentara numa leitura anterior). mas nesse caso “abertura” não significa absolutamente “indefinição” da comunicação, “infinitas” possibilidades da forma, liberdade de fruição; há somente um feixe de resultados fruitivos rigidadamente prefixados e condicionados, de maneira que a reação interpretativa do leitor não escape jamais ao controle do autor . (eco, 2001, p. 43). cabe esclarecer que a obra apresenta uma “abertura”, dando ao leitor certa liberdade de interpretação, mas traz em si “controle”, pois nem todas as leituras são pertinentes. na concepção de umberto eco, a obra literária pode ser interpretada de diferentes maneiras, sem perder sua configuração original. o leitor de um texto literário atua como o intérprete de uma composição musical, isto quer dizer que a obra apresenta um sistema de significados que está aberto a múltiplas interpretações, no entanto apresenta limites que não permitem qualquer tipo de “experiência subjetiva”. o leitor deve ficar atento em relação a alguns elementos que podem auxiliá-lo na interpretação de uma obra, observar o momento em que a obra foi escrita, levando em conta também alguns fatores que são importantes, tais como: a recepção da obra, a comunidade de leitores, a linguagem da obra, os elementos intratextuais e extratextuais. é preciso que o leitor saiba o lugar de onde o crítico fala, e para quem ele fala. é fundamental ter em mente isso. o crítico, para emitir uma opinião sobre uma obra e um autor , deve ter consciência desse ato. dicas vá ao ambiente de aprendizagem e discuta com seu professor e colegas os conceitos propostos por umberto eco sobre a “abertura” e o “fechamento” da obra. como se processa a liberdade de leitura de um texto? e como se caracteriza essa liberdade interpretativa? para refletir o crítico não deve achar que sua via de acesso ao texto é única, pois existem outros estudos que são tão importantes quanto o feito por ele. leia o capítulo: “a periodização literária”, de t eoria da literatura, de victor manual aguiar e silva e discuta com seu professor no ambiente de aprendizagem. o estudo desse capítulo será muito importante, pois te ajudará a compreender melhor os períodos literários e a metologia utilizada pelos historiadores para definir esses períodos literários.</Page><Page Number="155">479 letras/português caderno didático - 1º período referências aguiar e silva, vitor manuel. t eoria da literatura. 4. ed. coimbra: almedina, 1982. assis, machado de. ideal do crítico. in: crônicas – crítica – poesia – teatro. org, introdução, revisão de texto e notas de massaud moisés. são paulo: cultrix, 1984. compangon, antoine. o demônio da teoria: literatura e senso comum.belo horizonte: ed. ufmg, 1999. culler, jonathan. t eoria literária: uma introdução. t rad. sandra vasconcelos. são paulo: beca produções culturais, 1999. eco, umberto. obra aberta. 8. ed. são paulo: perspectiva: 2001. fonseca, rubem. romance negro, feliz ano novo e outros contos. rio de janeiro: ediouro, 1996. lima, luiz costa. a literatura e o leitor: textos da estética da recepção. rio de janeiro: paz e t erra, 1979. perrone-moisés, leyla. inútil poesia: e outros ensaios breves. são paulo: companhia das letras, 2000. perrone-moisés, leyla. t exto, crítica, escritura. 3. ed. são paulo: companhia das letras, 2005. perrone-moisés, leyla. altas literaturas: escolha e valor na obra crítica de escritores modernos. são paulo: companhia das letras, 1998. soares, angélica maria santos. a crítica. in: samuel, rogel (org.). manual de teoria literária. petrópolis: vozes, 1985. souza, roberto acízelo de. t eoria da literatura. 10. ed. são paulo: ática, 2007. zilberman, regina. estética da recepção e história da literatura. são paulo: ática, 1989. você pode assistir ao programa “entrelinhas” da tv gerais. esse programa apresenta estudos sobre obras literárias e entrevistas com importantes críticos literários. nas edições do programa você encontrará estudos sobre a literatura brasileira e outras literaturas. assistir ao programa será importante para sua formação crítica, pois você poderá obter informações importantes sobre estudos de textos literários e a forma como os textos são abordados. dicas .a leitura do capítulo teórico: “a poética da obra aberta”, do livro obra aberta, de umberto eco, é importante para você compreender o significado do processo de leitura e interpretação de uma obra literária. o texto “que fim levou a crítica?” de leyla perrone-moisés, do livro: inútil poesia: e outros ensaios breves também te ajudará a compreender o tipo de crítica que temos na atualidade e o papel que o crítico exerce no meio literário. o conto “romance negro”, de rubem fonseca. vídeos sugeridos para debate</Page><Page Number="156">480 introdução à t eoria da literatura uab/unimontes os filmes: “sociedade dos poetas mortos” e “finding forrester (encontrando forrester)” discutem formas de se ler um texto literário. em “sociedade dos poetas mortos”, o professor repudia a análise de uma obra que abordasse somente os elementos internos, considerados como a linguagem e a literariedade e procura valorizar uma leitura que tomasse como importante as impressões do leitor . o filme “encontrando forester” traz uma série de reflexões sobre a crítica que se faz sobre uma obra, o que o autor pensa sobre os leitores e as leituras de sua obra, a recepção da obra e o lugar que um autor ocupa na literatura de um país, questões sobre fonte, influência e originalidade (reescrita e plágio).</Page><Page Number="157">481 4 unidade 4 a intertextualidade: conceitos básicos c a b f e g glossário intertextualidade: é a superposição de um texto a outro. na elaboração de um texto literário, é a absorção e transformação de uma multiplicidade de outros textos. c a b f e g glossário dialogismo: vem do grego dialogismós e significa a arte do diálogo. nesta unidade estudaremos a intertextualidade com base nos conceitos fundamentais da teoria do dialogismo. t em-se como objetivo: a) o estudo do texto literário com base nos pressupostos teóricos de julia kristeva, mikhail bakhtin e laurent jenny; b) conduzir o aluno a identificar os elementos intertextuais que foram recuperados por um texto no momento da reescrita; c) estudar o texto com a concepção de que a “palavra literária” se constitui através do diálogo entre diversas escrituras: a do escritor , do destinatário (ou personagem), do contexto histórico e cultural em que o o texto foi produzido e o momento de leitura. a teoria da intertextualidade foi concebida recentemente por julia kristeva a partir das reflexões e proposições apresentadas em problemas da poética de dostoiévisk, de mikhail bakhtin, teórico que construiu sua teoria com base na obra do escritor fiódor m. dostoiévski. para essa integrante da crítica francesa, “todo texto se constrói como um mosaíco de citações, todo o texto é absorção e transformação de um outro texto” (kristeva, 1967, p. 72), ou seja, todo texto absorve e transforma uma multiplicidade de outros textos. a prática da intertextualidade e sua constatação é antiga como a própria produção dos textos, pois a relação existente entre textos da mesma natureza ou de naturezas diferentes e entre o texto e o contexto sempre existiu desde a antigüidade. na odisséia, de homero, texto da antigüidade grega, já encontramos o uso do processo intertextual, isso acontece exatamente porque o autor insere e desenvolve em seu texto épico mitos e narrativas presentes nas sociedades primitivas. diante de tudo que já foi escrito o leitor poderá perguntar: será que existe algo original? o conceito de intertextualidade apresentado por julia kristeva contribuiu de forma significativa para que os estudos sobre fonte e influência fossem renovados. se a velha concepção de influência apresentava o processo intertextual como uma dívida de um texto em relação a outro texto, a teoria da intertextualidade reconfigura tais conceitos, como laurent jenny em seu ensaio “a estratégia da forma” esclarece, pois a intertextualidade tomada em sentido estrito não deixa se prender com a crítica das fontes: a intertextualidade designa não uma soma confusa e misteriosa de influências, mas o trabalho de transformação e assimilação de vários textos, operando por um texto centralizador , que detém o comando do sentido. (jenny , 1979, p.14). assim, o que era tido como uma relação de dependência passa a ser entendido como um processo natural e contínuo de reescrita do texto. o autor resgata um texto anterior , apropriando-se dele de alguma forma (por exemplo, reescrevê-lo de maneira passiva ou destruí-lo). isso nos leva a perguntar: qual foi o motivo que conduziu o autor a recuperar o texto para refletir o que é um texto original? existe texto original? o que demarca a originalidade de um texto?</Page><Page Number="158">482 introdução à t eoria da literatura uab/unimontes anterior em seu processo de criação? e como se processa o diálgo entre o texto e outros contextos? as formas como ocorrem os procedimentos intertextuais são diversas, existem intertextualidades explícitas como: a citação, o plágio e a simples alusão ou reminiscência. mas também existe a intertextualidade implícita, mais difìcil de ser percebida pelo leitor , pois requer desse leitor um horizonte de leituras bem mais amplo. muitas vezes o leitor não compreende a citação de um texto ou de uma referência sobre um determinado contexto ou fato histórico em um texto, exatamente porque é preciso ter conhecimento da obra citada ou do contexto para entender o diálogo estabelecido pelo autor do texto. apresentaremos um fragmento do capítulo 5 do romance o grande mentecapto, de fernando sabino. observe como se processa a intertextualidade entre textos e contextos a partir da narrativa a seguir: t entasse eu descrever com precisão histórica todos os lances das manobras, e me sentiria perdido como fabrice del dongo na batalha de waterloo. muito trabalho já me custou recolher depoimentos de veteranos de guerra e antigos moradores dos locais onde se travaram as batalhas, que me permitissem reconstituir a participação de viramundo naquela gerra incruenta e sem quartel, que se não chegou a manchar de sangue o solo de minas, marcou indelevelmente a sua história com o ferrete do heroísmo e da glória, graças à bravura do nosso mentecapto. quisera, para poder narrar as cenas épicas por ele vividas no campo de luta, o gênio de um t ostoi, que, com muito menos, recriou em páginas imortais as façanhas de pedro besukov na batalha de borodino! (sabino, 2008, p.121). ao examinar o fragmento desse romance escrito na segunda metade do século xx, o leitor observará que o escritor fernando sabino estabelece um diálogo com textos e contextos da segunda metade do século xix. para compreender o motivo das citações explícitas, expostas pelo texto de sabino, e por qual motivos esses textos e contextos são recuperados é preciso ter em mente que o escritor atualiza, renova e reinventa o texto anterior . ocorre uma tranposição de sentidos dos textos e contextos do século xix para um novo texto e contexto dessa narrativa no século xx. o narrador questiona a sua capacidade de relatar os fatos históricos e os atos heróicos do seu personagem, mentecapto; demonstra também como se sente diante de narrativas de grandes escritores do século xix, como t ostoi. no texto de fernando sabino encontramos um diálogo intertextual com outas literaturas e outros contextos históricos. a narrativa traz em seu tecido as leituras realizadas pelo escritor . o que ficou são fragmentos dessas leituras absorvidas através da memória. com a capacidade criativa e inventiva, o escritor fernando sabino cria o seu texto a partir de outros textos. dicas .leia o texto “t exto, intertextualidade e intertexto”, vitor manuel de aguiar e silva. vá ao ambiente de aprendizagem e discuta com seu professor os seguintes conceitos: intertextualidade, discurso dialógico e originalidade. para refletir as bachianas, de villa lobos, retomam as peças de j. sebastian bach. você pode ouvi-las e tentar perceber o que o compositor brasileiro conseguiu “recuperar” e “transformar” a partir das obras de bach.</Page><Page Number="159">483 letras/português caderno didático - 1º período 4.1 a intertextualidade em outras artes para identificar a intextextualidade em textos é preciso levar em conta a extensão de leituras que o leitor já possui, pois quanto mais lemos, mais fácil será percebermos a presença de uns textos em outros e maior será a compreensão da leitura. muitas vezes o sentido da obra está no diálogo que existe entre o novo texto e o texto anterior . o leitor conseguirá perceber em um determinado texto uma série de fragmentos de outros textos que, certamente, foram lidos, assimilados e transformados pelo autor no momento da reescrita. laurent jenny adverte que as “transformações intertextuais comportam sempre uma modificação de conteúdo.” (jenny , 1979, p. 31). por isso, é importante ressaltar que em outras modalidades artísticas, na pintura e na música, por exemplo, podemos encontrar a mesma relação emtre obras. apresentaremos a seguir duas telas, uma de leonardo da vinci e outra de marcel duchamp. observe como a segunda retoma a primeira e a reelabora: tela i                         tela ii existem músicas, filmes e novelas que são compostos a partir de textos literários (contos, romances e poemas). a música “monte castelo”, de renato russo, estabelece um diálogo com o poema “o amor é fogo que arde sem se ver”, de camões, e com fragmentos da bíblia. o filme “o vestido”, de paulo thiago, apresenta uma leitura do poema “o caso do vestido”, de carlos drummond de andrade. outro filme importante é “outras histórias”, de pedro bial, em que ocorre também uma releitura de contos do livro primeiras histórias, de guimarães rosa. figura 1: la gioconda (mona lisa) leonardo da vinci (1503-06) fonte: arte.laguia2000.com figura 2: l.h.o.o.q. - marcel duchamp - 1919 fonte: www.exibart.com</Page><Page Number="160">484 introdução à t eoria da literatura uab/unimontes caro aluno, você encontrará vários filmes que apresentam releituras de obras literárias; diante disso, é preciso ter clareza que, quase sempre, os filmes e as novelas criadas a partir dos textos literários se distanciam dos textos originais, pois os cineastas ou autores de telenovelas fazem sua leitura da obra original e produzem um “novo” texto destinado a um outro tipo de público, muitas vezes distante culturalmente e historicamente do público ao qual a obra foi destinada primeiramente. a passagem de um sistema de significantes a outro é um trabalho intertextual nomeado como “verbalização” por laurent jenny; também pode ser encontrado constantemente em nossos escritores. o poeta carlos drummond de andrade na série “arte em exposição”, do livro farewell (1996), conseguiu escrever trinta e três poemas a partir de telas de importantes pintores. em pequenas composições apresenta uma síntese de cada tela para o seu leitor . t em-se, assim, um processo intertextual no trabalho realizado pelo poeta mineiro. veja a seguir como no poema “o grito” drummond faz uma leitura da tela de munch: texto i                             texto ii dicas você pode ler todos os poemas da série “arte em exposição”, do livro farewell, de carlos drummond. após a leitura dos poemas faça uma pesquisa sobre todas as telas, em sites da internet, e vá ao ambiente de aprendizagem e discuta com seu professor e colegas. dicas .vá ao ambiente de aprendizagem e discuta com seu professor o poma de drummond e a tela de munch. fonte: interimbelgrado.blogspot.com figura o grito. edvard munch (1893) o grito (munch) a natureza grita, apavorante. doem os ouvidos, dói o quadro. (andrade, 2002, p.1400).</Page><Page Number="161">485 letras/português caderno didático - 1º período vídeos sugeridos para debate andrade, carlos drummond de. poesia completa. rio de janeiro: nova aguilar , 2002. aguiar e silva, vitor manuel. t eoria da literatura. 4. ed. coimbra: almedina, 1982. assis, josé maria machado de. missa do galo: variações sobre o mesmo tema. rio de janeiro: josé olympio, 2008. bakhtin, mikhail. problemas da poética de dostoievski. t radução de paulo bezerra. 2. ed. rio de janeiro: forense universitária, 1997. ferreira, aurélio buarque de holanda. novo aurélio século xxi: o dicionário da língua portuguesa. 3. ed. rio de janeiro: nova fronteira, 1999. jenny , laurent. a estratégia da forma. in: intertextualidades. “poétique”: revista de teoria e análise literárias. t rad. clara crabbé rocha. coimbra, almedina, 1979. n. 27. kristeva, júlia. a palavra, o diálogo e o romance. in: semiótica do romance. lisboa: arcádia, 1967. mendes, nancy maria. intertextualidades: noções básicas. in: paulino, graça; walty , ivete. t eoria da literatura na escola. belo horizonte: editora lê, 1994. perrone-moisés, leyla. inútil poesia: e outros ensaios breves. são paulo: companhia das letras, 2000. perrone-moisés, leyla. t exto, crítica, escritura. 3. ed. são paulo: companhia das letras, 2005. sabino, fernando. o grande mentecapto. 71. ed. rio de janeiro: record, 2008. assista aos filmes: “o vestido”, de paulo thiago, “outras histórias”, de pedro bial, “dom” (baseado no romance dom casmurro, de machado de assis) e “a cartomante” que também é baseado no conto “a cartomante”, de machado. referências dicas leitura dos contos “missa do galo”, de machado de assis, e “missa do galo”, de lygia fagundes t elles. o texto de lygia está no livro missa do galo: variações sobre o mesmo tema – vide assis (2008) nas referências – que traz outras releituras do mesmo conto de machado, efetuadas por outros autores. vale a pena lê-los também, observando o que cada escritor repetiu e inovou no momento em que faz uma releitura de um texto escrito no século xix. outras sugestões de leituras de contos, romances e poemas: “o espelho”, de machado de assis, e “o espelho”, de guimarães rosa. o romance dom casmurro, de machado de assis, e amor de capitu, de fernando sabino. esaú e jacó, de machado de assis, e dois irmãos, de milton hatoum. essas leituras sugeridas poderão ampliar seu horizonte, contribuindo para sua formação acadêmica.</Page><Page Number="162">486 introdução à t eoria da literatura uab/unimontes 5 unidade 5 a narrativa: a fixação das formas e suas mutações nesta última unidade de nossa disciplina estudaremos a narrativa literária. nosso objetivo neste módulo é discutir os tipos de narrativas, tais como: a epopéia, o romance, o conto, a novela e a crônica. para o estudo da narrativa é preciso levar em conta os conceitos de gênero, por isso, em nosso estudo, trataremos também da conceituação do gênero narrativo e das suas transformações ao longo da história literária. 5.1 a narrativa em poesia: estudo do poema épico nesta subunidade, trataremos do poema épico. estamos acostumados a relacionar o gênero narrativo aos textos em prosa, porém, em seus primórdios, por volta dos séculos ix e viii a.c., é na forma poética que a narrativa surge no corpo dos poemas épicos homéricos ilíada e odisséia, primorosos entrelaces de relatos míticos, lendas, rituais de fertilidade e contos populares, aventuras exemplares das paixões, amores e lutas pelo poder entre deuses, titãs, semideuses, ciclopes, demônios e seres humanos elevados à glória por meio de feitos heróicos. o poema épico tem raízes no mytho, forma antiga de narrativa originada nas tradições rituais sacra e popular de determinado grupo ou povo ágrafo, que confiava a guarda de seu passado à memória (mnemosyne), individual e coletiva, histórias difundidas através de inspiradas palavras cantadas (musas) pelos poetas anônimos, que percorriam o mundo então conhecido à volta do mar mediterrâneo. nesta comunidade agrícola e pastoril anterior à constituição da pólis e a adoção do alfabeto, o aedo (i.e., o poeta-cantor) representa o máximo poder da tecnologia de comunicação. t oda a visão de mundo e consciência de sua própria história (sagrada e/ou exemplar) é, para este grupo social, conservada e transmitida pelo canto do poeta. (torrano, 1995, p. 16). t erá sido homero um desses poetas mendicantes, que, cego, viveu entre os séculos ix e viii a.c.? não se sabe ao certo. como querem alguns estudiosos, homero talvez sequer tenha realmente existido. mas aristóteles tecera elogios a ele: “homero, merecedor de louvores por tantos outros títulos, é, ainda, o único poeta que não ignora o que deve fazer em seu próprio nome. o poeta deve falar em seu nome o menos possível, pois não é nesse sentido que é um imitador .” (aristóteles, 1995, p. 47). aqui nos interessa destacar é o que quase todos os estudos confirmam: na formação arcaica da poesia épica grega convergiram diversos cantos até então submersos na memória e no imaginário daquelas gentes, transmitidos por aquele que detinha um efetivo poder , o poeta. ele, com seu canto, ultrapassava todas as distâncias espaciais e temporais, chegando inclusive a superar o poder dos basileîs (reis e nobres locais).</Page><Page Number="163">487 essa extrema importância que se confere ao poeta e à poesia repousa em parte no fato de o poeta ser , dentro das perspectivas de uma cultura oral, um cultor da memória (no sentido religioso e no da eficiência prática), e em parte no imenso poder que os povos ágrafos sentem na força da palavra e que a adoção do alfabeto solapou até quase destruir . (torrano, 1995, p. 17). apesar da densa sedimentação lentamente depositada no fundo que se convencionou chamar tradição, é certo que as narrativas orais sofreram necessária reelaboração no processo de sua cristalização na forma escrita, o que resultou na transposição dos mitos primitivos em mitos literários. (cf. brunel, 1998, p. 730-5). t ambém para sérgio motta, “a síntese épica possibilitou a união da esfera da existência à esfera da arte” (motta, 2008, p. 29). na poética, aristóteles afirma que a epopéia, o poema trágico, a comédia e o ditirambo diferem entre si, pois “imitam ou por meios diferentes, ou objetos diferentes, ou de maneira diferente e não a mesma.” (aristóteles, 1995, p. 19). assim, embora busque estabelecer as diferenças entre estas modalidades, aristóteles associa todas elas à imitação, dado que imitar “é natural ao homem desde a infância” e “todos [os homens] têm prazer em imitar” (aristóteles, 1995, p. 21-2). este é, portanto, um dos principais atributos da arte poética, que difere da atividade do historiador , já que “a obra do poeta não consiste em contar o que aconteceu, mas sim coisas quais podiam acontecer , possíveis no ponto de vista da verossimilhança ou da necessidade”. (aristóteles, 1995, p. 28). há, no entanto, distinção entre as imitações realizadas nas diferentes espécies da poesia. a imitação efetuada por personagens em ação é própria do drama (tragédia e comédia), e, conforme assinala platão no livro iii d'a república (1999, p. 86), na epopéia ocorre tanto imitação quanto “narração pelo próprio poeta”. segundo gérard genette, há três distintas acepções para o termo narrativa: ? “designa o enunciado narrativo, o discurso oral ou escrito que assume a relação de um acontecimento ou de uma série de acontecimentos”; ? “designa a sucessão de acontecimentos, reais ou fictícios, que constituem o objecto desse discurso e as suas diversas relações de encadeamento, de oposição, de repetição, etc.”; e ? “designa, ainda, um acontecimento: já não, todavia, aquele que se conta, mas aquele que consiste em que alguém conte alguma coisa: o acto de narrar tomado em si mesmo.” (gennete, 1979, p. 23-4). no primeiro sentido destacado por genette, o mais famoso poema épico da língua portuguesa, os lusíadas, é um adequado exemplo, já que consiste num discurso escrito que se propõe a narrar a viagem de vasco da gama às índias, ou seja, fazer o relato de “uma série de acontecimentos”. letras/português caderno didático - 1º período</Page><Page Number="164">a própria sucessão dos acontecimentos que a partir dessa primeira estância vem encadeada por camões exemplifica a segunda acepção de narrativa segundo genette. para o terceiro tipo de narrativa acima aludido, é exemplar a estância 3 do canto iii d'os lusíadas, quando vasco da gama, atendendo à solicitação do rei de melinde, passa a narrar a história e os feitos de portugal, ou seja, “consiste em que alguém conte alguma coisa: o acto de narrar tomado em si mesmo”. 5.2 a narrativa em prosa: o romance, o conto, a novela e a crônica na presente subunidade, faremos a exposição de características diferenciais entre o romance, o conto, a novela e a crônica. nestes tempos ditos pós-modernos, é evidente que a consideração do hibridismo não se restringe ao estudo das identidades culturais, penetra decisivamente em as armas e os barões assinalados, que, da occidental praia lusitana, por mares nunca de antes navegados, passaram ainda além da t aprobana, em perigos e guerras esforçados mais do que prometia a força humana, e entre gente remota edificaram novo reino, que tanto sublimaram; (camões, 1999, p. 79). 488 introdução à t eoria da literatura uab/unimontes promptos estavam todos escuitando o que o sublime gama contaria; quando, despois de um pouco estar cuidando, alevantando o rosto, assi dizia: - mandas-me, ó rei, que conte declarando de minha gente a grão genealogia, não me mandas contar estranha história, mas mandas-me louvar dos meus a glória. (camões, 1999, p. 94). dicas .ler n'os lusíadas (canto iii, estâncias 118 a 135) o episódio de inês de castro, aquela “que depois de ser morta foi rainha”, e identificar as acepções narrativas que nesse conjunto de estâncias aparecem.</Page><Page Number="165">489 letras/português caderno didático - 1º período outros campos das contraditórias relações sociais e culturais do iniciante século xxi. no âmbito dos estudos dos gêneros literários, o caráter híbrido destes foi identificado já pelos românticos. victor hugo, no seu famoso prefácio para a obra cromwell, “[...] condena a regra da unidade de tom e a pureza dos gêneros literários em nome da própria vida, de que a arte deve ser a expressão” (aguiar e silva, 1976, p. 216). assim, embora conscientes de que o estabelecimento de diferenciações entre os gêneros literários seja deveras complicado e, no mais das vezes, inadequado, será necessário aqui neste nosso estudo minimamente apresentar as partimentações da narrativa em prosa nas formas de romance, conto, novela e crônica. é o que intentaremos fazer nas subunidades a seguir . a) o romance: a forma e suas t ransformações vitor manuel de aguiar e silva, na abertura do capítulo 10 de sua teoria da literatura, por inteiro dedicado ao gênero de maior relevância no atual sistema literário, assim diz: “na evolução das formas literárias, durante os últimos três séculos, avulta como fenômeno de capital magnitude o desenvolvimento e a crescente importância do romance”. e acrescenta ao final do mesmo parágrafo: “o romancista, de autor pouco considerado na república das letras, transformou-se num escritor prestigiado em extremo, dispondo de um público vastíssimo e exercendo uma poderosa influência nos seus leitores”. (aguiar e silva, 1982, p. 639). forma literária moderna, antes de ganhar significado literário, na idade média o vocábulo romance designava “língua vulgar , a língua românica que, embora resultado de uma transformação do latim, se apresentava já bem diferente em relação a este idioma” (aguiar e silva, 1982, p. 640). posteriormente, composições em versos de cunho narrativo em língua vulgar iriam receber a mesma denominação. embora aguiar e silva afirme que “o romance não tem verdadeiras raízes greco-latinas”, outros autores entendem diferente. para massaud moisés (2000, p. 159), “como decorrência, a epopéia, considerada, na linha da tradição aristotélica, a mais elevada expressão de arte, cede lugar a uma forma burguesa: o romance” (aguiar e silva, 1982, p. 640). e sergio motta afirma: a ficção grega entra [...] como formadora de um padrão narrativo idealizante, enquadrada no formato da estória romanesca, cujo elo embrionário se forjou, ainda num período não literário, durante a passagem do mito à lenda e conto popular , propagando-se a partir do período literário da narrativa em prosa grega, em duas grandes ramificações medievais: a forma secular das histórias de cavalaria e paladinismo e a forma religiosa das lendas dos santos. por ser idealizante, e, portanto, assentada sobre um modelo de personagem marcada por uma determinação e integridade indestrutíveis na busca do seu ideal [o herói], a</Page><Page Number="166">490 introdução à t eoria da literatura uab/unimontes ficção grega funcionará como fonte paradigmática, por representar a consolidação da narrativa ficcional em prosa, no ocidente, e expressar as bases matriciais de um padrão romântico de narrativa –busca, fatores reaproveitados, depois, pela forma emergente do romance. (motta, 2006, p.109). com o advento do dom quixote (1605), de miguel de cervantes, o modelo idealizado do herói conhecerá sua mais famosa paródia, mescla de ironia e sátira em inversão picaresca, que cede passagem ao tipo do anti-herói já esboçado em vida de lazarillo de t ormes (1554), de autor anônimo, e vida de guzmán de alfarache (1559-1604), de mateo alemán. a importância dessa personagem é realçada na citação a seguir: o pícaro, pela sua origem, pela sua natureza e pelo seu comportamento, é um anti-herói, um eversor dos mitos heróicos e épicos, que anuncia uma nova época e uma nova mentalidade – época e mentalidade refractárias à representação artística operada através da epopéia ou da tragédia. através de sua rebeldia, do seu conflito radical com a sociedade, o pícaro afirma-se como um indivíduo que tem consciência da legitimidade da sua oposição ao mundo e que ousa considerar , em desafio aos cânones dominantes, a sua vida mesquinha e reles como digna de ser narrada. ora o romance moderno é indissociável desta confrontação do indivíduo, bem consciente do carácter legítimo da sua autonomia, com o mundo que o rodeia (aguiar e silva, 1982, p. 645). a partir de então ampliar-se-iam as “possibilidades combinatórias numa gama de associações com a forma romance” (motta, 2006, p.109). no entanto, a predominância da estética clássica até o século xviii refutará com desprezo o desprestigiado romance, de carater fabuloso e inverossímil, literatura ao gosto das mulheres e dos ignorantes. dessas suas características primárias, o romance irá aos poucos se transformando, e, mais que somente contar uma história, passará a observar e analisar as paixões e sentimentos humanos em suas manifestações exteriores e psicológicas, satirizar a sociedade e a política, ou mesmo prestar-se a elucubrações filosóficas. o avanço social da burguesia e o crescimento do público leitor combinaram muito bem com o novo momento dessa narrativa, que resulta no incremento da atividade editorial, que facilita a entrada de novos autores e obras no mercado dos livros, nem sempre de bom gosto ou qualidade. surge também a publicação seriada dos romances em folhetins. o abandono das rígidas regras da antiguidade clássica facilita a hibridização dos gêneros, e a sensibilidade um tanto quanto melancólica e desiludida do homem europeu no início do século xix busca escape no exótico, no terror , no tétrico e no melodrama. em meados do século xix, gustave flaubert eleva a lapidação narrativa a um grau dificilmente alcançado, com o desvelamento dos processos mentais, labirínticos e íntimos de sua famosa personagem madame bovary, no confronto com a dura realidade. os tempos já</Page><Page Number="167">491 letras/português caderno didático - 1º período anunciam o fim do romantismo, substituído pelo realismo e naturalismo na segunda metade do século xix, que trariam para dentro da literatura os estudos científicos dos condicionamentos e determinismos morais, biológicos e sociais. (cf. aguiar e silva, 1982, p. 646-652). nas décadas finais do século xix, o romance já havia se consolidado como principal gênero narrativo das artes literárias. especificar e descrever os diversos aspectos característicos do gênero romance seria material para um longo estudo. na t eoria da literatura de aguiar e silva, que consta da bibliografia básica, há um desenvolvimento bastante alentado iniciado pela apresentação da classificação tipológica do romance, no qual se destacam: romance de ação ou de acontecimento, romance de personagem e romance de espaço. em seguida, aguiar e silva estuda a personagem no romance: “a personagem constitui um elemento indispensável da narrativa romanesca. sem personagem, ou pelo menos sem agente, como observa roland barthes, não existe verdadeiramente narrativa”, e comenta, na seqüência, que, “dentre as personagens possíveis de um romance, há uma que se particulariza pelo seu estatuto e pelas suas funções no processo narrativo e na estruturação do texto – o narrador .” (aguiar e silva, 1982, p. 652-665). o narratário, a personagem como protagonista ou herói e o retrato da personagem são ainda outros tópicos abordados antes de apresentar a teoria de e. m. foster quanto às personagens “planas” e “redondas”: as personagens desenhadas [ou planas] são definidas linearmente apenas por um traço, por um elemento característico básico que as acompanha durante o texto. esta espécie de personagem tende frequentemente para a caricatura e apresenta muitas vezes uma natureza cómica ou humorística.[...] as personagens modeladas [ou redondas], pelo contrário, oferecem uma complexidade muito acentuada e o romancista tem de lhes consagrar uma atenção vigilante, esforçando-se por caracterizá-las sob diversos aspectos. ao traço recorrente próprio das personagens planas, corresponde a multiplicidade de traços peculiares das personagens redondas.(aguiar e silva, 1982, p. 677-678). sempre a estudar o romance no capítulo 10, vitor manuel de aguiar e silva apresenta também o conceito de diegese e discurso narrativo: “se entendemos por diegese o significado do texto narrativo literário, torna-se óbvio que a diegese de um romance abrange personagens, eventos, objectos, um contexto temporal e um contexto espacial” (aguiar e silva, 1982, p. 687). a seguir , empreende o estudo da sintaxe da diegese, na qual nos é dado a conhecer os conceitos para romance fechado e romance aberto. consciente de que “no texto do romance, parte importante da informação sobre as personagens, os objectos, o espaço e o tempo em que decorrem os eventos, é construída e</Page><Page Number="168">492 introdução à t eoria da literatura uab/unimontes transmitida por descrições”, aguiar e silva afirma: “com efeito, a descrição é um elemento textual privilegiado de que o narrador dispõe para produzir o 'efeito de real' a que se refere barthes” (aguiar e silva, 1982, p. 710). o tempo no romance também merece estudo: “a diegese, como sucessão de eventos, comportando um 'antes', um 'agora' e um 'depois', é inconcebível fora do fluxo do tempo”. a voz do narrador então é trazida a destaque e recebe classificação para cada tipo de narrador: heterodiegético, homodiegético, autodiegético, extradiegético e intradiegético. assim também ocorre com a focalização, ponto de vista ou foco narrativo, que “compreende as relações que o narrador mantém com o universo diegético e também com o leitor (implícito, ideal e empírico)”. e na sequência são especificados os tipos de focos narrativos em relação à diegese do texto. (aguiar e silva, 1982, p.713-754) portanto, o plano de estudo do romance apresentado por aguiar e silva merece atenção especial dos estudantes de letras, já que os conceitos estudados por ele em sua obra t eoria literária servirão como importantes ferramentas teóricas para a abordagem crítica de todas as outras modalidades narrativas. b) o conto em entrevista a ernesto bermejo, julio cortázar compara o conto a uma esfera: “é uma coisa que tem um ciclo perfeito e implacável. uma coisa que começa e termina tão satisfatoriamente como uma esfera: nenhuma molécula pode estar fora de seus limites precisos” (bermejo, 2002, 28). como vimos na unidade 5.1 – a narrativa em poesia: estudo do poema épico, as lendas e contos populares estão mesmo nas raízes da narrativa épica, ligando-se, portanto, direta ou indiretamente aos mitos e ritos sacros e de fertilidade. apesar de algumas teorias buscarem explicar a gênese do conto numa só tradição, como queria os irmãos wilhelm e jacob grimm, que a vinculam à corrente indo-européia, a teoria mais aceita hoje em dia é a de que a narrativa curta está na formação de quase todas as tradições culturais do ocidente e do oriente. (moisés, 2000, p. 32). com inconteste presença na formação literária, desde os primórdios imemoriais, a estrutura do conto se apresentou menos rebuscada, mais aberta e com maior mobilidade, tendente assim a uma maior simplicidade, o que o diferenciava da grande arte literária e o ligava mais ao folclore, às histórias exemplares e às lendas populares. essa situação perdurou até fins da idade média, quando paulatinamente o conto vai assumindo papel importante no âmbito do império carolíngio, mais precisamente nos relatos denominados canções de gesta, anônimas narrativas, inicialmente de tradição oral, mas que vão aos poucos consolidando em textos escritos as aventuras das cortes do rei arthur e do período carolíngio. chanson de roland (canção de rolando), de 1100, é um dos textos mais conhecidos. glossário canção de gesta: cantada, “a canção de gesta ocupa-se da empresa ou das façanhas de um herói que personifica uma acção colectiva, enraizada na memória de uma comunidade” (aguiar e silva, 1982, p. 640-1). dicas .assista ao filme “lancelot: o primeiro cavaleiro”, de jerry zucker . vá ao ambiente de aprendizagem e discuta com seus colegas. c a b f e g</Page><Page Number="169">493 letras/português caderno didático - 1º período com o avanço da era moderna, diversos escritores adotaram seriamente a narrativa curta. principalmente a partir dos séculos xviii e xix, o conto passa a ser um dos gêneros mais cultuados, embora sem o alcance da presença e influência do romance. cortazar considera o conto um gênero quase indefinível, mais próximo da poesia que do romance. nas suas palavras, “(...) esse gênero de tão difícil definição, tão esquivo nos seus múltiplos e antagônicos aspectos, e, em última análise, tão secreto e voltado para si mesmo, caracol da linguagem, irmão misterioso da poesia em outra dimensão do tempo literário”. (paciornik, 2001, p. 8). massaud moisés, adepto da normatização modelar dos gêneros, afirma que o conto é “uma unidade unívoca, univalente: constitui uma unidade dramática, uma célula dramática, visto gravitar ao redor de um só conflito, um só drama, uma só ação”. (moisés, 2000, p. 40). no bojo dessa unidade, segue-se também a unidade de espaço, de tempo e de tom: “os componentes da narrativa obedecem a uma estruturação harmoniosa, com o mesmo e único escopo, o de provocar no leitor uma só impressão, seja de pavor , piedade, ódio, simpatia, ternura, indiferença, etc., seja o seu contrário”. (moisés, 2000, p. 44-5). reagindo às tentativas de diferenciação dos gêneros, victor hugo, no seu famoso prefácio para cromwell, “[...] condena a regra da unidade de tom e a pureza dos gêneros literários em nome da própria vida, de que a arte deve ser a expressão” (aguiar e silva, 1976, p. 216). para exemplificarmos o que foi até aqui apresentado, tomemos primeiramente a estrutura de narrativa bastante curta do texto reproduzido integralmente em unidade anterior deste nosso caderno, o conto “um apólogo”, de machado de assis. verificaremos ali como rapidamente o autor institui um centro de interesse para a narrativa, o diálogo entre a agulha e a linha, e, com poucas linhas mais fecha o apólogo sem que falte nenhuma informação para a conclusão total da idéia trazida à baila pelo texto. c) a novela embora da antigüidade clássica alguns textos possam ser tomados como arquétipos do gênero novela, somente na idade média foi possível confirmar o surgimento do novo gênero com a profusão de textos das canções de gesta e das novelas de cavalaria. parece ser com a obra decameron, ou decamerão, de giovanni boccaccio (1313-1375), que efetivamente se estabelece o arcabouço desse gênero literário. “a novela alcançou grande esplendor na literatura italiana do século xiv e xvi, adquirindo importância em obras como as anônimas cent nouvelles nouvelles e o heptaméron de margarida de navarra”. (aguiar e silva, 1982, p. 643). enquanto o caráter inverossímel das fábulas e aventuras picarescas ainda dominavam a maioria das narrativas em prosa, a novela dicas .eia outra vez o conto “um apólogo”. vá ao ambiente de aprendizagem e discuta com seu professor: o tipo de narrador , o ponto de vista, os personagens. dicas .ler a metamorfose, de franz kafka, e elaborar as justificativas que confirmam esse texto como novela ou conto.</Page><Page Number="170">494 introdução à t eoria da literatura uab/unimontes tendeu mais ao real e transformou-se num “[...] género intermediário que, do ponto de vista técnico, pode ser justamente considerado a ponte que conduz ao romance moderno”. (aguiar e silva, 1982, p. 649). nos séculos xviii e xix, com o movimento romântico, a novela ganharia proeminência e muitos adeptos. a necessidade de distingui-la do romance e do conto fez com que se buscasse apontar as suas particularidades, porém, dizer simplesmente que é uma narrativa ficcional curta não a diferencia do conto, que também o é. assim, para “melhor” definí-la, há a tendência em considerá-la uma narrativa de extensão mediana, entre o conto e o romance. é evidente que também essa “definição” não resolve o problema, apenas o mascara, ao transferir as espeficidades do gênero para o seu número de páginas, fora do qual determinado texto não mais seria novela, conto ou romance. já vimos que esse tipo de determinante não é adequado devido ao hibridismo dos gêneros. no intuito de apontar outras espeficidades desse gênero, massaud móisés assinala que, ao contrário do que ocorre com o conto, a novela apresenta “pluralidade dramática”, ou seja, muitas células de ação. porém, embora cada um dos conflitos introduzidos apresente “começo, meio e fim”, ressalva que estes não são inteiramente autônomos, pois há intercâmbio entre eles, “num entrelaçamento que não pode fragmentar-se” sem que abale toda a estrutura da narrativa (moisés, 2000, p. 113-4). a essa pluralidade de células dramáticas, “segue-se outra, igualmente distinta: a sucessividade”, porém o escritor da novela busca manter sem desenlace, pelo menos provisoriamente, as ações apresentadas sucessivamente. “é raro que esvazie o recheio dramático duma célula antes de prosseguir , pois frustraria a curiosidade do leitor” (moisés, 2000, p. 114). quanto ao tempo, é curioso observarmos as seguintes afirmativas de massaud moisés: “o tempo da novela é o histórico, assinalado pelo relógio ou pelo calendário, ou pelas convenções sociais”. quanto à noção de espaço, “inextricavelmente ligada à de tempo, acompanha-lhe de perto o desenvolvimento dentro da novela. como esta se organiza em torno de episódios sucessivos, cria-se um dinamismo acelerado semelhante à pressa no cinema mudo.” mais adiante afirmará ser o seu ritmo “acelerado, precipitado”. (moisés, 2000, p. 116-7). fica claro nesses trechos a predisposição do teórico para delimitar o gênero, embora consciente do risco de criar um estereótipo. d) a crônica originário do “grego chronikós, relativo a tempo (chrónos), pelo latim chronica, o vocábulo “crônica” designava, no início da era cristã, uma lista ou relação de acontecimentos ordenados segundo a marcha do tempo, isto é, em seqüência cronológica”. (moisés, 2001, p. 101). dicas faça pesquisa nos jornais diários (estado de minas, o globo, hoje em dia, folha de são paulo, etc.) e identifique pelo menos três cronistas atuantes, diferenciando-os entre cronistas sociais e cronistas literários. leia e analise uma crônica literária e leve as questões sucitadas no texto escolhido para discussão no ambiente de aprendizagem.</Page><Page Number="171">495 letras/português caderno didático - 1º período a crônica situa-se entre a história e os anais, já que historicamente cumpriu a função de dar conhecimento dos eventos sem a preocupação de interpretá-los ou buscar as suas causas. na idade média, aproxima-se da historiografia. com o surgimento da imprensa, aos poucos a crônica passa a ter uma presença cada vez mais relevante no dia-a-dia das cidades, papel que ainda hoje ocupa, vindo mesmo a se configurar como gênero literário a partir do século xix. há que se diferenciar a crônica literária da crônica social. enquanto esta última se ocupa de simplesmente noticiar os eventos no cotidiano de determinado grupo ou estrato social, a crônica literária vai além do fato, muitas das vezes ficcionalmente criado pelo cronista, no intuito de desentranhar , do evento que destaca, algo que transcenda o cotidiano banal das pessoas e apresentá-lo exemplarmente para a reflexão de seus leitores. porém, mais do que uma função exemplar , a crônica literária tem finalidade estética, ou seja, busca principalmente oferecer uma experiência artística. a elocução na crônica é efetuada quase sempre em primeira pessoa, sendo que o narrador , como se espera nesse gênero, é quase sempre o próprio autor empírico, ou um seu pseudônimo. é que a crônica exige essa cumplicidade entre quem assina o texto e aquilo que é narrado a crônica no brasil foi muito cultuada desde o século xix. t emos vários escritores que se destacaram como crônistas, desde machado de assis e joão do rio a rubem braga, carlos drummond de andrade, alcione araújo, fernando veríssimo e moacyr scliar , entre tantos outros. aristóteles. “poética”. in: aristóteles, horácio, longino. a poética clássica. t rad. direta do grego e do latim por jaime bruna. 6. ed. são paulo: cultrix, 1995. benjamin, walter . o narrador. observações sobre a obra de nikolai leskow. in: os pensadores. são paulo: victor civita, 1980. p.57-74. bermejo, ernesto gonzalez. conversas com cortázar . são paulo: jorge zahar , 2002. brunel, pierre. dicionário de mitos literários. t radução carlos sussekind et all. 2. ed. rio de janeiro: josé olympio, 1998. camões, luís de. os lusíadas. rio de janeiro: biblioteca do exército, 1999. genette, gerard. discurso da narrativa. t rad. fernando c. martins. lisboa: arcádia, 1979. moises, massaud. a criação literária: prosa i. 17. ed. são paulo: cultrix, 2000. referências</Page><Page Number="172">496 moises, massaud. a criação literária: prosa ii. 17. ed. são paulo: cultrix, 2001. motta, sérgio vicente. o engenho da narrativa e sua árvore genealógica: das origens a graciliano ramos e guimarães rosa. são paulo: unesp, 2006. paciornik, celso m. “nota introdutória”. in: vários. américa. t rad. celso m. paciornik. são paulo: iluminuras, 2001. platão. a república. t rad. enrico corvisieri. são paulo: nova cultural, 1999. torrano, jaa. “o mundo como função de musas”. in: hesíodo. t eogonia: a origem dos deuses. t rad. jaa t orrano. são paulo: iluminuras, 1995. introdução à t eoria da literatura uab/unimontes</Page><Page Number="173">497 resumo caro aluno, é importante que você estude alguns conceitos que são básicos na primeira unidade. por exemplo, você deverá observar aspectos que são fundamentais em um discurso literário e não literário, estabelecer as diferenças entre um texto literário e não literário, levando em conta tipos de textos (forma e conteúdo). na segunda unidade, que discute a especificidade do discurso literário, é preciso saber o que é literatura, como a literatura se distingue de outros tipos de discurso e distinguir o caráter ficcional e não ficcional de um texto. na quarta unidade, você não pode deixar de observar as diferenças básicas entre as correntes teóricas, quais as metodologias e teorias que foram utilizadas pelos críticos e teóricos para lerem, interpretarem e analisarem uma obra literária em diferentes momentos de nossa historiografia. a quarta unidade, que trata do processo intertextual, será muito útil ao longo de sua formação de leitor , principalmente porque ela apresenta os conceitos sobre o diálogo intertextual que se processa entre obras e autores, você precisa ter domínio desses conceitos para saber a diferença entre uma intertextualidade explícita e implícita, o trabalho de citação e a relação que uma obra estabelece com outras obras e autores. na quinta unidade, e última, que discute a narrativa literária, será necessário que você domine os conceitos básicos sobre o gênero narrativo, principalmente em se tratando de forma, tipos de narradores, o ponto de vista, o espaço e o tempo. é necessário que você consiga estabelecer as diferenças que existem entre o romance, o conto, a novela, a epopéia e a crônica.</Page><Page Number="174"></Page><Page Number="175">499 referências básica auerbach, erich. mimesis. 2. ed. são paulo: perspectiva, 1976. aguiar e silva, vitor manuel. t eoria da literatura. 4. ed. coimbra: almedina, 1982. lima, luiz costa. a literatura e o leitor: textos de estética da recepção. rio de janeiro: paz e t erra, 1979. complementar aristóteles, horácio, longino. a poética clássica. t rad. jaime bruna. são paulo: cultrix/edusp, 1997. assis, machado de. ideal do crítico. in: crônicas – crítica – poesia – teatro. org. massaud moisés. são paulo: cultrix, 1984. bakhtin, mikhail. problemas da poética de dostoievski. t rad. paulo bezerra. 2. ed. rio de janeiro: forense universitária, 1997. bakhtin, mikhail. questões de literatura e de estética (a teoria do romance). 3. ed. são paulo: hucitec/editora da unesp , 1993. barthes, roland. o prazer do texto. 3. ed. 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paciornik. são paulo: iluminuras, 2001. pareyson, luigi. estética: t eoria da formatividade. t rad. ephraim ferreira alves. petrópolis: vozes, 1993. perrone-moisés, leyla. altas literaturas: escolha e valor na obra crítica de escritores modernos. são paulo: companhia das letras, 1998. perrone-moisés, leyla. inútil poesia: e outros ensaios breves. são paulo: companhia das letras, 2000. perrone-moisés, leyla. t exto, crítica, escritura. 3. ed. são paulo: companhia das letras, 2005. platão. a república. t rad. enrico corvisieri. são paulo: nova cultural, 1999. platão. banquete. 5. ed. t rad. josé cavalcante de souza. são paulo: editora nova cultural. 1991. rosenfeld, anatol. estrutura e problemas da obra literária. são paulo: perspectiva, 1976. sabino, fernando. o grande mentecapto. 71. ed. rio de janeiro: record, 2008. samuel, rogel (org.). manual de teoria literária. petrópolis: vozes, 1985. souza, roberto acízelo de. t eoria da literatura. 10. ed. são paulo: ática, 2007. souza, roberto acízelo de. t eoria da literatura. in: jobim, josé luís (org.) palavra da crítica: tendências e conceitos no estudo da literatura. rio de janeiro: imago, 1992. torrano, jaa. “o mundo como função de musas”. in: hesíodo. t eogonia: a origem dos deuses. t rad. jaa t orrano. são paulo: iluminuras, 1995. tynianov , j. da evolução literária. in: toledo, dionísio de oliveira (org.). t eoria da literatura: formalistas russos. porto alegre: editora globo, 1973.</Page><Page Number="178">502 introdução à t eoria da literatura uab/unimontes wellek. rené., warren, austin. a teoria da literatura. coimbra: europa américa/biblioteca universitária, [s.d.]. zilberman, regina. estética da recepção e história da literatura. são paulo: ática, 1989. suplementar andrade, carlos drummond de. poesia completa. rio de janeiro: nova aguilar , 2002. assis, machado de. várias histórias. rio de janeiro; belo horizonte: garnier , 1995. assis, machado de. missa do galo: variações sobre o mesmo tema. rio de janeiro: josé olympio, 2008. camões, luís vaz de. sonetos. são paulo: martim claret, 2001. colasanti, marina. um espinho de marfim e outras histórias. porto alegre: l&amp;pm, 1999. dias, gonçalves. gonçalves dias. 14. ed. rio de janeiro: agir , 1996. laporte, sílvia. por trás do olhar de ressaca. estado de minas, caderno feminino &amp; masculino, belo horizonte, domingo, 20 julho 2008, p. 2. meireles, cecília. romanceiro da inconfidência. rio de janeiro: nova fronteira, 1989. mendes, murilo. poemas (1925-1929). in: poesia completa e prosa. rio de janeiro: nova aguilar , 1995. pessoa, fernando. o eu profundo e os outros eus: seleção poética. rio de janeiro: nova fronteira, [s.d.]. prado, adélia. com licença poética. in: moriconi, ítalo. os cem melhores poemas brasileiros do século. rio de janeiro: objetiva, 2001.</Page><Page Number="179">503 atividades de aprendizagem - aa unidade 1: o discurso literário e o discurso não literário. leia os textos abaixo e responda às questões 1 e 2. texto i texto ii questão 1: com base nos textos expostos, demonstre a diferença entre o discurso literário e o não literário. ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ para sentir seu leve peso guardava o rouxinol numa caixinha. t udo o que queria era andar com o rouxinol empoleirado no dedo. mas, se abrisse a caixinha, ah! certamente fugiria. então amorosamente cortou o dedo. e, através de uma mínima fresta, o enfiou na caixinha. (in: colasanti, marina. um espinho de marfim e outras histórias. porto alegre: l&amp;pm pocket, 1999, p.13). por trás do olhar de ressaca “de machado de assis muito já foi dito, e ao longo deste ano, que marca o centenário de sua morte, em 29 de setembro de 1908, mais ainda se vai falar . não apenas sobre ele e seu talento como escritor , mas também sobre a mais enigmática e discutida personagem feminina da literatura brasileira. prova disso é o livro quem é capitu?, que acaba de ser lançado pela nova fronteira”. (laporte, 2008, p. 2).</Page><Page Number="180">504 introdução à t eoria da literatura uab/unimontes questão 2: explique por que o texto i é um texto literário e o texto ii não o é. questão 3: no último parágrafo do conto “um apólogo”, de machado de assis, ocorre o seguinte comentário: “t ambém eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária”. considerando este fragmento, discuta: a) os traços comuns que existem entre a agulha e o professor de melancolia; b) o processo metafórico exposto pela narrativa. unidade 2: a especificidade do discurso literário questão 1: o conto “um apólogo”, de machado de assis, apresenta alguns elementos que o caracterizam como literário, apresente dois elementos que explicitam essa literariedade. questão 2: a partir do seguinte comentário: “a literatura (fronteira entre o literário e o não literário) varia consideravelmente segundo as épocas e as culturas”, de antoine compagnon, discuta: a) o conceito de literatura no sentido amplo e restrito; b) os teóricos chegaram a uma definição satisfatória sobre o que é o literário? por quê? ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ questão 3: leia o texto que segue: t erceiro diedro girou a chave, abriu a porta. e em vertigem procurou a segurança da maçaneta. a sala estava de cabeça para baixo. entre estuques, o lustre florescia erguendo pingentes. as cortinas subiam em direção ao tapete. mesa cadeiras poltronas penduravam-se, tombantes as</Page><Page Number="181">505 considerando o conto “t erceiro diedro”, de marina colasanti, redija um texto argumentativo em que você discuta os seguintes pontos: a) o conceito de “realidade” e “ficcionalidade”; b) o texto literário como um “objeto” de prazer , que “seduz o leitor” com o seu conteúdo “imaginário”, c) o autor como um “fingidor”. unidade 3: as correntes críticas a seguir , apresentaremos uma lira de marília de dirceu, de t omás antônio gonzaga, que foi escrita no século xviii (arcadismo) e um poema do romanceiro da inconfidência (1953), de cecília meireles, poeta do modernismo brasileiro. t exto i: lira xxxiv , parte 2, de marília de dirceu, de t omás antônio gonzaga: franjas do sofá. e o flamboyant do quadro lançava no verde céu sua copa de raízes. t emeu entrar . mas, não tendo outra casa que fosse sua, deu um passo e fechou a porta. devagar , a descoberta em cada pé, começou a subir pela parede. (in: colasanti, marina. um espinho de marfim e outras vou-me, ó bela, deitar na dura cama, de quem nem sequer sou o pobre dono; estende sobre mim morfeu as asas,   e vem ligeiro o sono. os sonhos, que rodeiam a tarimba, mil cousas vão pintar na minha idéia; não pintam cadafalsos, não, não pintam   nenhuma imagem feia. pintam que estou bordando um teu vestido; quer um menino com asas, cego e loiro, me enfia nas agulhas o delgado,    o brando fio de ouro. pintam que entrando vou na grande igreja: pintam que as mãos nos damos, e aqui vejo subir-te à branca face a cor mimosa,    a viva cor do pejo. letras/português caderno didático - 1º período</Page><Page Number="182">506 introdução à t eoria da literatura uab/unimontes pintam que nos conduz doirada sege à nossa habitação; que mil amores desfolham sobre o leito as moles folhas   das mais cheirosas flores. pintam que dessa terra nos partimos; que os amigos, saudosos e suspensos, apertam, nos inchados, roxos olhos    os já molhados lenços. pintam que os mares sulco da bahia, onde passei a flor da minha idade. que descubro as palmeiras, e em dois bairros    partida a grã cidade. pintam leve escaler , e que na prancha o braço já te ofreço, reverente; que te aponta co dedo, mal te avista,    amontoada gente. aqui, alerta, grita o mau soldado; e o outro, alerta estou, lhe diz, gritando. acordo com a bulha, então conheço    que estava aqui sonhando. se o meu crime não fosse só de amores, a ver-me delinqüente, réu de morte, não sonhara, marília, só contigo,   sonhara de outra sorte. (gonzaga, p. 172- 174).</Page><Page Number="183">507 letras/português caderno didático - 1º período texto ii “romance lxx ou lenço do exílio”, do romanceiro da inconfidência, de cecília meireles: hei de bordar-vos um lenço em lembranças destas minas; ramo de saudade, imenso... lágrimas bem pequeninas. (aí se ouvísseis o que penso!) ai, se ouvísseis o que digo, e entre estas quatro paredes... mas o tempo é vosso, amigo, que não ouvis nem me vedes. (minha dor é só comigo.) e esta casa é grande e fria, com toda a sua nobreza. ai, que outra coisa seria, se preso estais, ver-me presa. (porém tudo é covardia.) sei que ireis por esses mares. sonharei vosso degredo, sem sair destes lugares, por fraqueza, pejo, medo. (e imposições familiares) hei de bordar tristemente um lenço, com que recordo... a dor de vos ter ausente muda-se na flor que bordo.     (flor de angustiosa semente.) (meireles, 1989, p. 230, 231).</Page><Page Number="184">508 introdução à t eoria da literatura uab/unimontes questão 1: a poeta cecília meireles, como “leitora” dos poemas de t omás antônio gonzaga, “preenche” alguns “vazios” do texto do outro, explique como se processa a interação do texto com o leitor e a recepção da obra marília de dirceu, por cecília meireles. cite dois elementos que foram recuperados do texto de gonzaga por cecília meireles. questão 2: faça uma pesquisa nos cadernos que possuem resenhas e estudos críticos sobre texto literários dos jornais estado de minas, folha de são paulo e o globo. selecione uma resenha da pesquisa feita em um dos jornais e redija um texto em que você discuta o método utilizado pelo crítico ao fazer a análise do texto literário. questão 3: com base nos estudos teóricos sobre as correntes críticas, apresente as diferenças entre os pressupostos teóricos apresentados pela estética da recepção e pelo new criticism para analisarem o texto literário. unidade 4: a intertextualidade: conceitos básicos questão 1: leia os textos abaixo: t exto i ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ poema de sete faces quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: vai, carlos! ser gauche na vida. as casas espiam os homens que correm atrás de mulheres. a tarde talvez fosse azul, não houvesse tantos desejos.</Page><Page Number="185">t exto ii 509 letras/português caderno didático - 1º período o bonde passa cheio de pernas: pernas brancas pretas amarelas. para que tanta perna, meu deus, pergunta meu coração. porém meus olhos não perguntam nada. o homem atrás do bigode é sério, simples e forte. quase não conversa. t em poucos, raros amigos o homem atrás dos óculos e do bigode. meu deus, por que me abandonaste se sabias que eu não era deus se sabias que eu sou fraco. mundo mundo vasto mundo, se eu me chamasse raimundo seria uma rima, não seria uma solução. mundo mundo vasto mundo, mais vasto é meu coração. eu não devia te dizer mas essa lua mas esse conhaque botam a gente comovido como o diabo. (andrade, 2002, p. 05). com licença poética quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira. cargo muito pesado pra mulher , sem precisar mentir .</Page><Page Number="186">510 introdução à t eoria da literatura uab/unimontes com base nos conceitos da intertextualidade, faça uma análise interpretativa dos poemas “poema de sete faces”, de carlos drummond de andrade, e “com licença poética”, de adélia prado e responda às questões a seguir: a) cite três aspectos do texto “com licença poética”, que demonstram que a poeta estabeleceu um diálogo com o texto de drummond; c) a leitura que adélia faz do texto de drummond se processa de maneira irônica? por quê? questão 2: faça uma análise dos contos: “o espelho”, de machado de assis, e “o espelho”, de guimarães rosa, e redija um texto em que você discuta o processo intertextual presente no texto escrito por guimarães rosa. (texto com 5 linhas) ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ não sou tão feia que não possa casar , acho o rio de janeiro uma beleza e ora sim, ora não, creio em parto sem dor . mas o que sinto escrevo. cumpro a sina. inauguro linhagens, fundo reinos – dor não é amargura. minha tristeza não tem pedigree, já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô. vai ser coxo na vida é maldição pra homem. mulher é desdobrável. eu sou. (prado, 2001, p. 247).</Page><Page Number="187">511 letras/português caderno didático - 1º período questão 3: leia o texto a seguir: t exto i considerando o poema “tiradentes”, de carlos drummond de andrade, cite os elementos que demonstram que o poeta estabeleceu um diálogo com a história de minas gerais, em especial com a inconfidência mineira e com as artes plásticas. unidade 5: a narrativa: a fixação das formas e suas mutações questão 1: por que é pertinente dizermos que a estética clássica até o século xviii refutou o gênero romance? questão 2: as novelas de cavalaria e canções de gesta são fundamentais para a concretização dos gêneros narrativos modernos. quais características você pode destacar para confirmar a afirmativa acima? questão 3: na tentativa de diferenciar conto e novela, massaud moisés utiliza a unidade célula dramática como um parâmetro válido de abordagem dos gêneros. considerando o argumento de moisés, quais as principais diferenças entre os dois gêneros acima citados no tocante a esse conceito? ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ tiradentes (portinari) fez-se a burocrática justiça. o trono dorme invencível vingado. postas de carne o sonhador referem o caminho das minas. (andrade, 2002, p.1.401).</Page><Page Number="188"></Page></Pages></Search>